Ficar apontando os problemas e não apresentar soluções é algo estéril. Eu gosto de dissecar o problema e, em seguida, apontar os caminhos das soluções.
Para incentivar a atividade econômica voltada ao público idoso em Feira de Santana, a chamada “Economia Prateada”, é preciso enxergar o idoso não apenas como um beneficiário do INSS, mas como um consumidor exigente e um agente ativo da economia.
Feira de Santana é um polo comercial natural. O incentivo começa pela infraestrutura. A Prefeitura ou a CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) podem criar um selo “Amigo do Idoso” para estabelecimentos que ofereçam acessibilidade total, iluminação adequada, locais de descanso e atendimento prioritário humanizado. Além disso, a capacitação em atendimento é essencial. Treinar equipes para lidar com as necessidades desse público — com paciência, clareza na fala e auxílio com tecnologias — aumenta drasticamente a fidelização. Essas implementações alavancariam as vendas para este setor.
Por acaso alguém aí tem paciência de conversar com um idoso impaciente? Parabéns para quem consegue ouvir toda a história da vida, dos filhos e dos netos. E aquela dificuldade de usar o celular? Tem de existir alguém preparado para convencer que não vai roubar a foto da netinha fofa. E, pelo amor de Deus, não meta gíria na conversa. “Vovô é barril” pode ser confundido com gordofobia. Depois não digam que eu não avisei.
Muitos idosos em Feira possuem expertise técnica: ex-comerciantes, artesãos, mecânicos e profissionais experientes. Bancos e agências de fomento locais podem criar linhas de microcrédito para pessoas com 60+ que desejam abrir ou formalizar pequenos negócios. Também seria importante criar mentorias intergeracionais, unindo jovens empreendedores — com domínio tecnológico — a idosos — com experiência de mercado —, promovendo uma troca de conhecimento extremamente valiosa.
Eles precisam de tão pouco que a própria prefeitura pode implantar essas ações. Seria uma geração de empregos para jovens e idosos. Que tal vovó e netinha empreendendo juntas? Nunca é impossível sonhar, e eu sonho esse sonho. Nas diversas comunidades existem idosos e idosas com uma baita expertise, e jovens com muito conhecimento tecnológico. Basta juntar e lucrar.
O potencial de Feira como entroncamento regional também pode ser explorado para o lazer. Fazendas da região, como nos distritos de Humildes e Maria Quitéria, poderiam criar pacotes de “Day Use” voltados para idosos, com foco em gastronomia local, conforto, memória afetiva e experiências culturais. Bailes, feiras de artesanato e eventos culturais realizados durante o dia — em horários de maior segurança e facilidade de transporte — movimentariam o setor de eventos e alimentação.
Eu já postei aqui no blog sobre a viabilidade econômica da implantação do turismo rural em Feira de Santana. A turma da Economia Prateada pode muito bem entrar nesse negócio e contribuir com suas experiências e vivências. Imagine um vaqueiro contando histórias ao som de um samba de roda. Falta apenas boa vontade.
Incentivos fiscais para empresas que mantêm programas de contratação de pessoas acima de 60 anos também são fundamentais. Isso mantém o idoso com renda disponível, o que retroalimenta o comércio da cidade.
Em Feira, o transporte público e a pavimentação das calçadas são os maiores gargalos. Melhorar a mobilidade urbana é, indiretamente, o maior incentivo econômico possível para esse público circular e consumir.
Em Feira de Santana, o órgão responsável pelas políticas públicas voltadas à pessoa idosa é o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa (CMDPI). Ele é essencial para quem deseja incentivar a Economia Prateada ou fiscalizar políticas públicas, pois funciona como canal oficial entre a sociedade civil e a prefeitura.
Se funciona ou não, basta lembrar dos 79.500 idosos registrados em 2022. Poderão ser cerca de 200 mil em 2030. Não dá para ficar tomando cafezinho e não deliberar nada.
O CMDPI é um órgão deliberativo e fiscalizador. Isso significa que ajuda a decidir onde as verbas destinadas aos idosos devem ser aplicadas e acompanha se as leis, como o Estatuto do Idoso, estão sendo cumpridas na cidade.
Enquanto isso, o mercado da Economia Prateada segue em pleno crescimento. Vocês já perceberam a quantidade de farmácias especializadas em medicamentos genéricos na cidade? E os cuidados estéticos voltados para essa turma? É creme para pele, tintura de cabelo, matrícula em academia, caminhada pelas avenidas. O público da terceira e quarta idade já está presente na cena feirense.
Não se faz tão presente em shows teatrais e musicais porque ainda se insiste em ofertar esses serviços à noite. Gente idosa não funciona bem à noite. Dorme — e alguns roncam. Montem espetáculos matinais e vespertinos. Às vezes eu quero assistir a uma peça, mas não tenho saco para ficar até 23h esperando um artista subir ao palco.
Enfim, uma vida começa aos 60+. A cidade precisa ser mais receptiva a esses consumidores.
O centro desta cidade não possui sequer 20 vagas de estacionamento destinadas às pessoas com mais de 60 anos. Essa população é visível quando querem retirar direitos à aposentadoria, mas parece invisível quando precisa de uma placa digna de estacionamento.
Pode contar enquanto circula pelo centro. As vagas se concentram na Rua Conselheiro Franco, em frente aos bancos. Na Avenida Senhor dos Passos, não existem cinco vagas.
E lembrem-se: estamos falando de milhares de idosos.
