Poucos produtos carregam tanto simbolismo para os baianos quanto o licor. Presente nas mesas das famílias, nas festas juninas e nas memórias afetivas de diferentes gerações, a bebida se tornou um dos elementos mais característicos da cultura do estado. E foi justamente a partir dessa tradição, cultivada há décadas em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, que nasceu a Licor do Porto, empresa que hoje ultrapassa as fronteiras da Bahia e se consolida como uma das principais referências do segmento.
Sem perder a essência que a tornou conhecida, a marca vem atravessando um processo de expansão e modernização. Ao mesmo tempo em que preserva as receitas tradicionais e mantém a relação com os pequenos produtores rurais da região, a empresa investe em novos sabores, amplia o portfólio de produtos e transforma Feira de Santana em um importante centro logístico para atender consumidores de diferentes partes do país.
À frente do negócio ao lado do pai, Josival, Vinícius destaca que a história da empresa está intimamente ligada à própria identidade cultural de Cachoeira, município reconhecido nacionalmente pela tradição na produção artesanal de licores.
Segundo ele, a cidade abriga mais de 30 fabricantes e reúne condições naturais que contribuem para a qualidade da bebida. O reconhecimento do município como um dos maiores polos produtores de licor da Bahia, inclusive, tem impulsionado discussões sobre a valorização dessa tradição como patrimônio cultural.
“Cachoeira tem uma vocação muito forte para a produção de licor. Existe uma cultura construída ao longo de muitos anos. Não somos os únicos produtores, mas fazemos parte dessa história. Acredito que o solo, o clima e o cuidado com as frutas fazem uma grande diferença no resultado final”, afirmou.
Das comunidades rurais para as mesas dos baianos
Se a tradição é um dos pilares da empresa, a relação com as comunidades locais é outro aspecto fundamental. Grande parte das frutas utilizadas na fabricação dos licores é adquirida em comunidades rurais e quilombolas de Cachoeira, fortalecendo a economia da região e garantindo matéria-prima de qualidade.
Vinícius explica que a escolha dos ingredientes é um processo que exige atenção e cuidado, já que a qualidade do produto final depende diretamente da seleção das frutas.
“Um bom licor começa muito antes da produção. Ele começa na escolha da matéria-prima. Nós temos o cuidado de buscar frutas selecionadas e valorizamos os produtores da nossa região. Isso faz parte da nossa identidade”, ressaltou.
Essa conexão com as origens é vista pela empresa como uma forma de preservar não apenas a qualidade da bebida, mas também a tradição cultural que envolve o licor baiano.
Uma história construída em família
A trajetória da Licor do Porto é marcada pelo trabalho familiar. Muito antes de a marca conquistar espaço nas prateleiras dos supermercados e se tornar conhecida em várias regiões do estado, o trabalho era realizado de maneira mais simples, mas não menos intensa.
Até hoje, Josival continua acompanhando de perto diversas etapas do processo. Foi assim desde os primeiros anos. As viagens frequentes para Feira de Santana em busca de mercadorias também acabavam se transformando em oportunidades para apresentar os produtos e conquistar novos clientes.
Ao longo do tempo, o que começou de maneira modesta foi ganhando proporções maiores. Os antigos fregueses se transformaram em parceiros comerciais e a marca passou a conquistar espaço em mercados e redes de supermercados.
“Meu pai sempre teve uma relação muito forte com Feira de Santana. Ele vinha comprar mercadorias e aproveitava para deixar os produtos com os clientes. Foi um crescimento gradual, construído através da confiança e da qualidade do produto”, lembrou Vinícius.
Mais de 33 sabores unem tradição e modernidade
Com o passar dos anos, a empresa ampliou significativamente o catálogo de produtos. Atualmente, são mais de 33 sabores disponíveis, divididos entre as linhas tradicional, cremosa e gourmet.
Os sabores clássicos continuam sendo os mais procurados por consumidores que associam a bebida às festas juninas e às receitas de família. Entre eles estão milho-verde, maracujá, jenipapo e passas, considerados verdadeiros símbolos da tradição do São João.
Entretanto, as mudanças no comportamento dos consumidores fizeram com que a empresa também buscasse novos caminhos.
Os licores gourmet passaram a ocupar espaço importante no portfólio. Sabores como doce de leite e marula conquistaram consumidores mais jovens e aqueles que procuram bebidas mais suaves e sofisticadas.
Entre as inovações desenvolvidas pela própria empresa está um sabor considerado exclusivo da marca: a combinação de banana, canela e hortelã.
“A gente procurou criar uma bebida mais elegante, mais refinada. É uma combinação que não encontramos em outros fabricantes e que acabou se tornando uma identidade nossa”, explicou.
Além dos licores, a empresa também iniciou uma parceria para comercialização de cachaças artesanais e aposta em uma linha de coquetéis, acompanhando uma tendência de mercado observada principalmente entre o público jovem.
O desafio de romper a sazonalidade
Apesar da diversificação e da busca por novos consumidores, uma realidade permanece praticamente inalterada: o licor continua sendo uma bebida fortemente associada ao São João.
Segundo Vinícius, ao longo dos anos foram realizadas diversas tentativas de estimular o consumo em outras épocas do ano. No entanto, a força da tradição cultural faz com que a maior parte das vendas continue concentrada entre os meses de maio e junho.
“O baiano gosta de tomar licor no São João. Existe uma memória afetiva muito forte. As pessoas lembram das receitas feitas pela avó, pela mãe ou por uma tia. É uma bebida que desperta lembranças e sentimentos”, observou.
Mesmo assim, há consumidores que mantêm o hábito durante todo o ano, utilizando a bebida como sobremesa ou como acompanhamento em momentos especiais.
Feira de Santana se transforma em centro estratégico para expansão
A importância de Feira de Santana para a empresa vai além das vendas. A cidade se tornou peça fundamental na estratégia de crescimento da marca.
Com localização privilegiada e grande fluxo de mercadorias, o município passou a funcionar como um centro de distribuição capaz de atender consumidores da Bahia e de outros estados.
Atualmente, a empresa possui clientes em Sergipe, Alagoas, São Paulo e em diversas outras regiões do país, e a estrutura instalada em Feira facilita o processo de envio das mercadorias.
“Feira de Santana é uma cidade estratégica. Além da importância econômica, ela oferece uma logística muito favorável. Isso permite atender nossos clientes de maneira mais rápida e eficiente”, destacou.
Um espaço para experiências
A proposta da empresa, no entanto, vai além da distribuição. A intenção é transformar a unidade localizada no bairro SIM em um espaço permanente de experiências para os consumidores.
A ideia é manter a loja funcionando durante todo o ano e criar um ambiente onde as pessoas possam conhecer mais sobre a história da marca e sobre a tradição do licor produzido em Cachoeira.
Entre os projetos em estudo estão a criação de pratos preparados com licor, a elaboração de drinks exclusivos e até a ampliação do portfólio de bebidas artesanais.
“Queremos que as pessoas possam visitar o espaço e levar um pouco da cultura de Cachoeira para casa. A proposta é oferecer algo diferente e manter viva essa tradição durante o ano inteiro”, explicou.
Inovar sem perder as raízes
Se por um lado o mercado exige inovação e adaptação às novas tendências de consumo, por outro existe a responsabilidade de preservar uma tradição profundamente ligada à identidade cultural da Bahia.
Para Vinícius, esse é um dos maiores desafios enfrentados pela empresa. O investimento em máquinas, tecnologia e ampliação da capacidade produtiva precisa caminhar lado a lado com a manutenção da qualidade e do modo de fazer que tornou a marca conhecida.
“É um equilíbrio delicado. Precisamos acompanhar as mudanças do mercado, criar novos produtos e ampliar a produção. Mas também temos a responsabilidade de preservar uma tradição que é genuinamente baiana”, afirmou.
Esse compromisso se estende também ao aspecto social. Durante o período junino, a empresa chega a gerar mais de 150 empregos diretos, contribuindo para a renda de centenas de famílias.
“Carregamos uma responsabilidade muito grande. São muitas pessoas que dependem desse trabalho. Por isso, precisamos continuar crescendo, inovando e, ao mesmo tempo, manter a essência daquilo que construímos ao longo dos anos”, concluiu.
