A independência não terminou no 7 de setembro
Embora o 7 de setembro de 1822 seja celebrado oficialmente como a data da Independência do Brasil, foi somente em 2 de julho de 1823 que a separação de Portugal se consolidou definitivamente. A expulsão das tropas portuguesas da Bahia marcou o encerramento dos conflitos militares e garantiu, na prática, a soberania do novo país.
Em entrevista, a historiadora Márcia Suely explica que a Independência foi um processo construído ao longo de meses e que encontrou na Bahia seu principal palco de resistência.
A Bahia foi o principal campo de batalha
Segundo a professora, o gesto político de Dom Pedro I representou apenas o início da ruptura entre Brasil e Portugal.
“A gente costuma lembrar do 7 de setembro porque foi o ato político da Independência. Mas isso, por si só, não consolidou o processo. Durante quase um ano, as tropas portuguesas continuaram tentando retomar o controle do território brasileiro.”
Ela explica que foi justamente na Bahia que ocorreu o confronto decisivo.
“O conflito baiano consegue expulsar definitivamente os portugueses do nosso território. Por isso o 2 de julho representa a consolidação da Independência do Brasil.”
O nascimento do Exército Brasileiro
A campanha pela Independência mobilizou diferentes regiões do estado entre 1822 e 1823. Sem um exército brasileiro estruturado na Bahia, foi necessário convocar voluntários para enfrentar as tropas portuguesas.
Márcia Suely destaca que a resistência foi construída por pessoas comuns.
“Os soldados eram poucos. Quem fortaleceu esse movimento foram indígenas, vaqueiros, escravizados, libertos, mulheres e homens do povo que acreditavam naquele ideal de liberdade.”
Ela ressalta que o conflito foi marcado por intensas batalhas e muitas mortes.
“Foi uma guerra de verdade. Houve enfrentamentos armados, perdas humanas e muito sacrifício. A morte de Joana Angélica é um dos símbolos dessa resistência.”
O protagonismo das mulheres
A participação feminina aparece como um dos grandes legados do 2 de Julho.
Márcia Suely lembra que nomes como Maria Quitéria, Maria Felipa e Joana Angélica romperam barreiras impostas às mulheres da época e tiveram papel decisivo na campanha.
“No caso de Maria Quitéria, ela supera a proibição do pai, enfrenta o preconceito por ser mulher e entra para o Exército usando um nome masculino. Quando sua identidade é descoberta, permanece nas tropas pela competência que demonstrou.”
Segundo a historiadora, essas mulheres representam muito mais do que personagens históricas.
“Elas simbolizam coragem, resistência e participação ativa na construção da Independência.”
Feira de Santana teve papel estratégico
A professora também destaca a importância de Feira de Santana durante o conflito.
Por ser uma cidade de passagem, o município tornou-se um importante ponto de apoio para as tropas brasileiras.
“Feira fornecia alimentos e acolhia os voluntários que seguiam para lutar contra os portugueses.”
Foi justamente nesse contexto que surgiu a trajetória de Maria Quitéria.
“Ela presencia a chegada dos oficiais convocando homens para integrar as tropas. Aquilo desperta nela o desejo de lutar. Como já tinha habilidade com cavalos e armas por causa da vida no campo, encontrou uma forma de participar.”
Caboclo e Cabocla simbolizam a resistência popular
Durante as celebrações do 2 de Julho, duas figuras chamam atenção da população: o Caboclo e a Cabocla.
Segundo Márcia Suely, eles representam a resistência popular e a formação da identidade nacional construída pelos povos indígenas e africanos.
“As mulheres se reconhecem na Cabocla, em Maria Quitéria, em Joana Angélica e em Maria Felipa. Da mesma forma, muitos brasileiros enxergam ali a representação dos povos indígenas e negros que ajudaram a construir a nossa história.”
Um fato nacional ainda pouco conhecido
Apesar da relevância histórica, a professora avalia que o 2 de Julho ainda é pouco valorizado fora da Bahia.
“O movimento continua sendo tratado, muitas vezes, como um fato da história local. Isso é uma pena, porque estamos falando da consolidação da Independência do Brasil.”
Segundo ela, iniciativas recentes que ampliam a visibilidade da data ajudam a fortalecer o reconhecimento nacional da importância do 2 de Julho.
O legado para as novas gerações
Para Márcia Suely, a principal herança do movimento está na construção da cidadania.
“Eles defendiam o direito de existir enquanto nação, de construir um país livre e de participar dessa nova sociedade.”
Ela também destaca o protagonismo de negros, indígenas e mulheres.
“O 2 de Julho evidencia a participação decisiva desses grupos. Durante muito tempo esses personagens ficaram à margem da história oficial.”
Para a historiadora, lembrar essa data é fortalecer valores como democracia, cidadania, pertencimento e participação popular.
Conhecer a história é preservar a memória
Quem deseja aprofundar os estudos sobre a Independência da Bahia encontra atualmente livros, dissertações, teses, documentários e materiais audiovisuais produzidos por universidades e instituições de pesquisa.
Márcia Suely recomenda ainda visitar museus em Salvador e Cachoeira e conhecer, em Feira de Santana, o espaço dedicado à memória de Maria Quitéria.
Ao final da entrevista, ela deixou um convite para que os brasileiros conheçam melhor esse capítulo da história nacional.
“Espero que, a cada 2 de Julho, esse movimento seja cada vez mais reconhecido como parte da história do Brasil. É importante conhecer essa trajetória, entender o significado do hino, dos símbolos e das pessoas que participaram dessa luta. Assim mantemos viva uma memória que representa resistência, direitos e democracia.”
