Dor pode permanecer mesmo após a cicatrização
A dor é um mecanismo natural de defesa do organismo, mas nem sempre desaparece quando a lesão é curada. Em entrevista ao programa Dia a Dia News, a neurocirurgiã e especialista em cirurgia da coluna e medicina da dor, Camila Moura, explicou que, quando não é tratada adequadamente, a dor pode se tornar crônica e o cérebro passa a manter uma “memória da dor”.
Segundo a médica, o cérebro cria novas conexões neurais que continuam transmitindo sinais dolorosos mesmo sem a presença da lesão.
“O correto é sentir dor, tratar a causa e a dor desaparecer. Quando essas conexões neuronais são formadas de maneira inadequada, o cérebro continua enviando sinais de dor, mesmo após a cicatrização.”
Dor crônica não é psicológica
Um dos principais mitos, segundo a especialista, é acreditar que quem sente dor por muito tempo sofre de um problema apenas emocional.
Ela esclarece que a dor crônica é uma doença reconhecida e possui alterações reais no sistema nervoso.
“O local do cérebro responsável por interpretar a dor também está ligado às emoções. Por isso, ansiedade e depressão podem acompanhar a dor crônica, mas isso não significa que a dor seja imaginária.”
Exames normais não descartam a dor
Camila Moura também explicou que muitos pacientes chegam ao consultório com tomografias e ressonâncias sem alterações, mas continuam convivendo com dores intensas.
Segundo ela, isso acontece porque o exame avalia a estrutura do corpo, mas não identifica alterações nas vias de transmissão da dor.
“A lesão pode ter cicatrizado, mas a via que leva essa informação ao cérebro continua alterada. Por isso, um exame normal não significa que o paciente não esteja sentindo dor.”
O papel da neuroplasticidade
A médica destacou que a neuroplasticidade, capacidade do cérebro de criar novas conexões, também está relacionada ao desenvolvimento da dor crônica.
Quando essas conexões são formadas de maneira inadequada, o cérebro passa a interpretar determinados estímulos como dolorosos, mesmo quando eles não representam perigo ao organismo.
Segundo ela, os primeiros três meses após o início da dor são fundamentais para evitar esse processo.
Quando a dor deixa de ser um sintoma
A especialista explicou que a dor é considerada crônica quando permanece por mais de três meses.
Além da persistência, ela costuma interferir na rotina, no trabalho, no sono e nas atividades que antes davam prazer ao paciente.
“Quando a pessoa deixa de fazer o que gosta por causa da dor, passa a dormir mal, fica mais ansiosa e deprimida, essa dor deixa de ser apenas um sintoma e passa a ser uma doença.”
Fibromialgia e dores após cirurgias também podem estar relacionadas
Durante a entrevista, Camila Moura afirmou que doenças como a fibromialgia estão diretamente ligadas ao fenômeno da dor crônica.
Ela ressaltou que o diagnóstico precoce pode melhorar significativamente a qualidade de vida, principalmente das mulheres, público mais acometido pela doença.
A médica também explicou que pacientes submetidos a cirurgias, como a retirada de uma hérnia de disco, podem continuar sentindo dor caso tenham convivido por muito tempo com o problema antes do tratamento.
Da mesma forma, atletas e pessoas que sofreram lesões esportivas também podem desenvolver dor crônica, mesmo após a recuperação da lesão.
Tratamento vai muito além dos medicamentos
Segundo a especialista, o tratamento da dor precisa ser individualizado e multidisciplinar.
Além dos medicamentos específicos para cada tipo de dor, podem fazer parte do tratamento:
- fisioterapia especializada;
- prática regular de atividade física;
- fortalecimento da musculatura;
- perda de peso quando necessária;
- acompanhamento psicológico;
- mudanças no estilo de vida.
“O tratamento não é apenas tomar remédio. A fisioterapia, a atividade física e o acompanhamento psicológico fazem parte do controle da dor.”
Procedimentos modernos ajudam no controle da dor
Para os casos mais persistentes, a medicina dispõe de técnicas intervencionistas.
Entre elas estão:
- bloqueios anestésicos guiados por ultrassom ou raio-X;
- radiofrequência para tratamento de nervos responsáveis pela dor;
- neuromodulação, que modifica a transmissão dos impulsos nervosos;
- cirurgia, indicada apenas quando os demais tratamentos não apresentam resultados ou quando já existe indicação imediata.
Segundo a médica, a neuromodulação não é indicada para todos os pacientes e depende de uma avaliação individual.
Má postura e sedentarismo aumentam os problemas na coluna
Outro tema abordado foi o aumento dos casos de dores na coluna cervical, torácica e lombar.
Camila Moura explicou que o uso prolongado do computador e do celular, aliado ao sedentarismo e ao excesso de peso, contribui para o surgimento dessas dores.
Ela reforçou que fortalecer a musculatura da coluna é uma das principais formas de prevenção.
“Quando fortalecemos a musculatura, o peso do corpo deixa de sobrecarregar a coluna. Isso melhora o equilíbrio e reduz o risco de dores.”
Atendimento humanizado faz diferença
Além da técnica cirúrgica, a neurocirurgiã destacou a importância da escuta e do acolhimento durante o atendimento.
Segundo ela, conversar, examinar o paciente e compreender suas limitações aumenta a confiança e melhora a adesão ao tratamento.
“A medicina humanizada é tão importante quanto a técnica. O paciente precisa ser ouvido e compreendido.”
Mensagem aos pacientes
Ao encerrar a entrevista, Camila Moura reforçou que ninguém precisa aceitar a dor como parte da vida.
“A dor não é um destino. Ela tem tratamento. Quanto mais cedo a pessoa procurar ajuda especializada, maiores são as chances de controlar a dor e recuperar a qualidade de vida.”
