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“Onde o africano está jogando, todo mundo é africano”: padre congolês reflete sobre identidade, futebol, fé e a relação entre Brasil e África

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A relação entre Brasil e África é multifacetada. Carregada por um passado doloroso, marcado pela escravidão, mas também sustentada por fortes laços culturais, linguísticos e religiosos. Nos últimos anos, essa conexão tem se ampliado através de cooperação política, econômica e social. É nesse entrelaçamento de histórias que se insere o padre Joski Menga, missionário congolês que chegou ao Brasil em 2018 e, até recentemente, atuava na Bahia.

Em entrevista, ao Dia a Dia News, ele compartilhou reflexões sobre identidade, missão, futebol e fé. Mas suas palavras revelam algo ainda mais profundo: a vivência de um elo real e afetivo entre África e Brasil, que vai além das teorias geopolíticas.

A herança da escravidão e o reencontro cultural

“O africano vive celebrando. Dançamos na missa, pulamos de alegria a cada conquista. Essa alegria se vê também no futebol e nas festas. E quando uma seleção africana entra em campo, todos torcem como um só: é o continente que joga”, afirma o padre Jusqui, ao comentar o entusiasmo das seleções africanas nas Copas do Mundo.

Esse espírito de celebração, tão presente na cultura brasileira, é reflexo direto da influência africana. A escravidão, que por mais de três séculos trouxe milhões de africanos ao Brasil, deixou marcas profundas de dor e exploração. No entanto, também semeou raízes culturais que florescem até hoje. A presença africana se manifesta na culinária, na música, na religião e na linguagem. “Quando cheguei à Bahia, senti que estava em casa. O tempero, o dendê, os gestos — tudo me lembrava minha terra”, relata Joski Menga.

Reconhecimento e superação da dívida histórica

O missionário rejeita a ideia de mágoa, mas admite que há desigualdade. “Na África, talvez a gente nem entenda tanto o racismo como aqui. Mas, ao chegar no Brasil, a gente percebe essa realidade. Muitos brasileiros afrodescendentes vivem isso na pele.”

Essa percepção dialoga com um movimento mais amplo de reconhecimento da dívida histórica deixada pelo sistema escravagista. O Brasil tem buscado fortalecer os laços com países africanos através de políticas públicas, projetos de cooperação e reparação simbólica e prática — embora ainda haja muito a avançar.

Diálogo político e cooperação econômica

A relação Brasil-África também se desenvolve em outras frentes. O país é parceiro ativo na chamada cooperação Sul-Sul, buscando reduzir a dependência de nações desenvolvidas e promover o desenvolvimento mútuo. Com investimentos em áreas como mineração, petróleo e infraestrutura, o Brasil amplia sua presença no continente. Países como Angola, Nigéria, Egito e África do Sul são alguns dos principais parceiros comerciais.

Além disso, a Cúpula América do Sul-África (ASA), idealizada pelo Brasil e pela Nigéria, busca estimular o diálogo político e o intercâmbio estratégico. O tema da segurança — especialmente na região do Golfo da Guiné — também faz parte dessa agenda, numa tentativa de construir um mundo mais justo e multipolar.

O Congo e os desafios do desenvolvimento

O Congo, país natal de padre Jusqui, é um exemplo dos paradoxos africanos. Riquíssimo em recursos naturais — com jazidas de ouro, diamantes e coltan (minério essencial para a produção de eletrônicos) —, o país ainda enfrenta enormes desafios sociais. “Nós temos riqueza, mas não sabemos aproveitar. Quem lucra com nossos recursos são os de fora. Falta consciência política e projetos de valorização interna”, lamenta.

Mesmo diante dessa realidade, ele destaca a força do povo congolês. “Ninguém passa fome. As pessoas se viram, buscam estudar, trabalhar. Sempre buscando melhorar.”

Fé, missão e esperança

A vivência religiosa também reflete a força do continente. No Congo, o catolicismo é extremamente influente. “Se o arcebispo fala, o povo escuta. A igreja tem um papel de liderança muito forte”, explica. E embora respeite as religiões de matriz africana, Jusqui destaca que no seu país essas expressões têm menos visibilidade do que no Brasil. “Aqui, vejo mais candomblé e umbanda do que via no Congo. Mas acredito no respeito entre as religiões.”

Depois de anos de missão na Bahia, o padre agora parte para São Paulo, mas leva na bagagem um aprendizado profundo. “Fiz o que pude. Não posso dizer que fiz 100%, mas dei o meu melhor. Aprendi que missão é estar disponível. Onde me chamarem, eu vou.”

Um futuro comum

A história que conecta África e Brasil não se limita ao passado. Como mostra a trajetória do padre Jusqui, essa relação continua sendo construída com respeito, cooperação e partilha. Superar as feridas históricas e transformar os laços culturais em pontes de oportunidade é um caminho possível — e necessário.

“O mundo precisa de nós”, diz Jusqui. “E eu me sinto pronto para continuar servindo, onde for. Sempre com alegria, porque quando há fé, trabalho e esperança, tudo se transforma.”

Com informações: Miro Nascimento

Por: Mayara Nailanne

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