A adesão de idosos às redes sociais é um fenômeno em ascensão. O exemplo mais recente veio do ex-presidente da República, José Sarney, que, aos 95 anos, passou a utilizar o Instagram e já acumula mais de 98 mil seguidores. Em vídeo publicado na plataforma, Sarney brinca:
“Seja bem-vindo a esta minha tentativa de conversar com vocês e ser mais novo. Um velho de 95 anos agora na internet, procurando o Instagram e recitando uma poesia… Parece uma coisa que não combina muito. Mas eu estou sempre com o espírito buscando ser novo: nas ideias, nos desejos e no futuro.”
O gesto simbólico do ex-presidente levantou uma discussão importante: o crescimento da presença de idosos nas plataformas digitais, que mistura inclusão, tecnologia, vulnerabilidades e riscos de crimes cibernéticos.
Em Feira de Santana, a aposentada Maria do Nascimento, 67 anos, compartilha seu cotidiano digital:
“Tenho rede social, sim. Gosto muito de estar no Facebook, no WhatsApp e no YouTube. Mas tenho meus cuidados. Quando vejo que a mensagem não é coisa boa, eu cancelo logo. Não respondo mesmo, pra me livrar de golpe.”
Outra idosa, Lia, também de 67 anos, afirma que já foi alvo de tentativa de golpe e se mostra desconfiada:
“Uso o zap, mas com muito medo. Eles acham que a gente é boba. A gente não é, mas tem medo. Quando recebo mensagem estranha, eu apago logo. Fico com medo de invadirem meus documentos, minha vida. Gosto muito de assistir a rádio Sociedade, o Dia a Dia News, e também os jornais do SBT e da TV Bahia. Fico em casa só nas coisas que me fazem bem, mas sempre com cuidado.”
Conselho do Idoso: inclusão exige vigilância
A presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa, Liliane Carvalho Pacheco, vê com bons olhos o avanço digital dos idosos, mas ressalta a importância de orientações permanentes.
“É uma evolução, sim, mas precisamos ter muito cuidado. A violência cibernética está cada vez mais preocupante. Crianças, adolescentes, mulheres e pessoas idosas são alvos frequentes. E diferente de personalidades como o ex-presidente Sarney, que tem uma equipe por trás, muitos dos nossos idosos não têm nenhum tipo de suporte.”
Ela explica que a maioria das denúncias recebidas pelo Conselho está relacionada a golpes envolvendo empréstimos consignados. “Ligam, pedem dados, e os idosos acabam passando. O mais grave é que muitas vezes são pessoas da própria família envolvidas, comprometendo a saúde financeira e até a qualidade de vida do idoso.”
Liliane reforça que o tema foi discutido na 6ª Conferência Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa, realizada em julho. “Foi um momento muito produtivo. Uma das propostas aprovadas foi a realização de campanhas educativas e capacitações para idosos, justamente sobre como lidar com as redes sociais com mais segurança.”
Delegado alerta: idosos são alvos recorrentes
O delegado Yves Correia, titular da Delegacia de Repressão a Furtos e Roubos de Feira de Santana, também reforça o alerta sobre a vulnerabilidade dos idosos no ambiente digital.
“Os criminosos enxergam os idosos como alvos fáceis. Muitos golpes são aplicados por mensagens e ligações, com a intenção de enganar, pedir dados bancários, ou aplicar estelionato por meio de links maliciosos. É fundamental que os idosos não passem informações pessoais por telefone ou aplicativos de mensagens, e que os familiares estejam atentos, orientando e supervisionando sempre que possível.”
De acordo com o delegado, a Polícia Civil tem investigado casos envolvendo até familiares que utilizam dados dos idosos para contratar empréstimos ou realizar transações sem consentimento. “Isso é crime e precisa ser denunciado. É importante lembrar que o idoso tem direito à segurança e ao respeito, inclusive no ambiente digital.”
A relação da terceira idade com a internet representa uma quebra de paradigma geracional. Para muitos, é uma forma de se aproximar da família, se manter informado, cultivar amizades e buscar entretenimento. Para outros, um território novo, onde ainda navegam com desconfiança.
“Todos nós temos idosos em casa — e todos nós seremos idosos um dia”, lembra Liliane. “Precisamos garantir o direito de envelhecer com dignidade, com acesso à informação, mas também com segurança.”
Com informações: Miro Nascimento
Por: Mayara Nailanne