Uma pesquisa realizada pelo Google, em parceria com a Ipsos — empresa francesa de pesquisa de mercado e opinião pública — revelou que 54% dos brasileiros declararam ter utilizado ferramentas de inteligência artificial generativa em 2024. Esse número supera a média global, que é de 48%, e evidencia a forte presença da tecnologia na sociedade brasileira. (Fonte: Jornal Casarão-UFF)
A presença da inteligência artificial (IA) na sociedade tem transformado a rotina de crianças, adolescentes e adultos. Essa tecnologia vem redefinindo a forma como os mais jovens aprendem, se divertem e se relacionam com o mundo.
O avanço acelerado da IA também modifica o cenário da infância e da juventude, especialmente entre aqueles que se sentem excluídos de determinados círculos sociais e acabam encontrando refúgio nos meios digitais.
A psicóloga Jéssica Andrade, especialista em terapia analítico-comportamental, neurociência e psicologia, comenta os impactos que essas novas tecnologias podem causar na vida de crianças, jovens e adultos.
“Estamos vivenciando uma revolução tecnológica liderada pela inteligência artificial, que vem redefinindo como a sociedade funciona. Embora essa inovação ofereça inúmeras possibilidades, é muito importante refletir sobre como ela pode impactar a saúde mental das pessoas, sobretudo quando não há equilíbrio no uso das tecnologias”.
A psicóloga ressalta ainda a necessidade de atenção aos efeitos neuropsicológicos associados ao uso excessivo de dispositivos digitais.
“O avanço dessas tecnologias promete maior conveniência e eficiência, mas também traz desafios significativos. A dependência exacerbada de aplicativos e aparelhos pode gerar uma desconexão com o mundo real e com as próprias emoções, favorecendo sentimentos de ansiedade, depressão e solidão.”
Jéssica continua:
“A automação das tarefas cotidianas pode reduzir a estimulação mental, o que compromete tanto a saúde cognitiva quanto emocional. É possível observar um declínio nas interações humanas. Já não interagimos mais com nossos pais da mesma forma. A substituição dos vínculos presenciais por contatos mediados por tecnologia fragiliza a empatia e aprofunda o isolamento social.”
Segundo ela, a facilidade de acesso a aplicativos e chats, nos quais adolescentes conversam com outros jovens, está prejudicando as interações sociais no mundo real, fazendo com que o convívio presencial fique em segundo plano.
“Esse cenário, somado à presença cada vez mais intensa dessas inteligências artificiais, tende a intensificar essa desconexão emocional. Desconectamo-nos do outro e até de nós mesmos.”
Do ponto de vista neuropsicológico e do funcionamento cognitivo, Jéssica explica:
“Quando falo de neuropsicologia e funcionamento cognitivo, estou falando de inteligência, atenção e memória. O uso contínuo, especialmente sem moderação, dessas tecnologias pode comprometer funções como a concentração, a memória e a capacidade de alternar entre tarefas. Além disso, a gratificação imediata oferecida por essas ferramentas reduz a tolerância à frustração e à paciência, elevando os níveis de estresse e ansiedade.”
Ela conclui com um alerta e uma proposta:
“Para preservar a saúde mental nesses tempos de inteligência artificial, é fundamental buscar um equilíbrio saudável entre a tecnologia e a vida cotidiana. Precisamos limitar o tempo de tela, não só o das crianças, mas o nosso também. Muitos pais querem limitar o tempo dos filhos, mas precisamos começar dando o exemplo. É essencial valorizar interações humanas presenciais, praticar atenção plena e manter atividades que estimulem o funcionamento cognitivo, como leitura e exercícios mentais.”
Por fim, Jéssica destaca o papel da educação e da conscientização nesse novo cenário:
“A educação e a conscientização têm um papel central neste momento. A IA está presente em tudo, inclusive nas escolas. Precisamos desenvolver habilidades de autorregulação do uso digital e promover práticas de bem-estar emocional. Também é importante criar diretrizes. Um problema que tem surgido com frequência é o uso de chatbots como substitutos de terapeutas. Embora possam oferecer suporte inicial, é preciso reconhecer suas limitações. Essas tecnologias são programadas por pessoas e, portanto, podem replicar preconceitos e valores distorcidos. Além disso, não substituem a complexidade que envolve uma escuta e uma relação terapêutica de verdade.”
Escrita pela estagiária Fernanda Martins, com informações: Fernanda Martins.