O secretário municipal de Saúde de Feira de Santana, Rodrigo Matos, destacou, em entrevista ao site Dia a Dia News, a crescente preocupação com o vício digital e defendeu a criação de uma política pública nacional estruturada para enfrentar o problema, nos moldes do que já existe para álcool e outras drogas.
Segundo Matos, o uso excessivo e compulsivo de tecnologias como redes sociais, videogames e aplicativos de mensagens já se configura como uma questão de saúde pública. “Falamos muito em vício de álcool e outras drogas, mas o vício digital é uma realidade, e uma realidade que está desestruturando muitas famílias”, afirmou.
Ele lembrou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já incluiu na Classificação Internacional de Doenças (CID) o chamado transtorno por uso de jogos eletrônicos (game disorder), mas ressaltou que, na prática, o atendimento a esses casos já deve ser feito de forma multidisciplinar, independentemente de legislação específica.
“Não precisa de lei para que as pessoas sejam tratadas. É um transtorno psíquico que já existe. O tratamento deve envolver psiquiatra, psicólogo, nutricionista, educador físico e outros profissionais, porque não adianta só tomar um comprimido”, explicou.
Impactos na vida diária e no desenvolvimento infantil
De acordo com Matos, o vício digital pode ser identificado quando o uso da tecnologia passa a comprometer atividades básicas do dia a dia, como estudo, trabalho, alimentação e sono. Ele citou casos em que pessoas deixam de se alimentar adequadamente ou reduzem drasticamente as horas de descanso para permanecer conectadas.
Estudos recentes, destacou o secretário, apontam que o tempo excessivo de exposição às telas reduz a capacidade cognitiva e intelectual, especialmente em crianças. “Enquanto mais tempo de tela uma criança tem, menor será seu potencial de desenvolvimento intelectual. Isso pode impactar diretamente na vida profissional e pessoal de uma geração inteira”, alertou.
Para Matos, a aprovação de propostas em tramitação no Congresso pode facilitar a formatação de uma política pública específica contra o vício digital, o que considera essencial diante do potencial destrutivo do problema.
“Merece que o país tenha uma política pública estruturada, como tem para álcool e outras drogas. Pode ser incorporada ao CAPS-AD3 ou pode ganhar protocolos específicos para vícios em jogos e tecnologias. O impacto negativo para uma geração pode ser devastador se nada for feito”, defendeu.
O secretário também chamou atenção para os riscos do uso inadequado das redes sociais e do aprisionamento em algoritmos, o que, segundo ele, pode comprometer o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes.
“Se não houver controle, corremos o risco de formar uma geração dominada pela inteligência artificial, incapaz de manejar os benefícios e avanços que ela oferece. Esse é um tema complexo, que precisa ser encarado como prioridade do poder público”, concluiu.