O vício em jogos é considerado uma condição neurológica caracterizada pela perda de controle sobre a atividade de jogar. O transtorno tem impactos negativos em todas as áreas da vida. Assim como em outras formas de dependência, o vício envolve comportamentos repetitivos e a priorização do jogo em detrimento de responsabilidades e relacionamentos.
Em entrevista ao Dia a Dia News, Jamille Sena, psicanalista clínica, escritora, empresária e membro do NPI – Núcleo Psicanalítico Inteiramente, explica como as pessoas entram no processo de vício em jogos de azar e quais impactos esse comportamento traz para a vida pessoal.

A profissional questiona como os jogos de azar têm ganhado cada vez mais espaço nas conversas, nas redes sociais e até no cotidiano de muitas pessoas, sempre com a promessa ilusória de “ganhar dinheiro fácil” e “mudar de vida com apenas um clique”.
“Por trás desse brilho aparente, existe uma realidade silenciosa e dolorosa que vem afetando a vida pessoal, profissional e emocional de milhares de pessoas. Do ponto de vista psicológico, o que acontece é que esses jogos ativam o sistema de recompensa do cérebro o mesmo mecanismo relacionado ao prazer. A cada rodada, a cada aposta, o jogador experimenta uma descarga de dopamina, que é um neurotransmissor responsável pela sensação de prazer e bem-estar. Mesmo quando perde, o cérebro já se condicionou a buscar novamente aquela sensação, e assim a pessoa entra em um ciclo de repetição, acreditando que na próxima vez vai recuperar o que perdeu.”
Ela continua:
“Chamamos de comportamento compulsivo quando o indivíduo perde o controle sobre o ato de jogar. Com o passar do tempo, esse comportamento começa a afetar diversas áreas da vida. No campo pessoal, o vício traz mentiras, isolamento, culpa e, muitas vezes, o rompimento de laços familiares e afetivos. O jogador passa a esconder o quanto gasta, inventa justificativas, promete que vai parar, mas não consegue. Surge uma sensação de vazio e impotência que vai corroendo a autoestima.”
A psicanalista afirma que o prazer momentâneo do jogo dá lugar à angústia de quem sabe que está perdendo não apenas dinheiro, mas também tempo, relações sociais, familiares e saúde mental. No ambiente profissional, as consequências também são sérias:
“As dificuldades de concentração, a ansiedade e o estresse interferem diretamente na produtividade. Em alguns casos, a pessoa chega a cometer pequenos desvios financeiros ou mentiras no trabalho para sustentar o vício, o que pode levar à demissão e até a problemas judiciais. É um efeito dominó: quanto mais a pessoa perde, mais joga tentando recuperar, e mais se afunda. Do ponto de vista emocional e psíquico, o vício em jogos de azar tem relação direta com o surgimento de transtornos mentais, como a depressão. Isso acontece porque o cérebro passa a depender da estimulação do jogo para sentir prazer e, quando o jogador não está jogando, experimenta um vazio emocional intenso, acompanhado de culpa e desânimo.”
Jamille conclui:
“A psicologia entende esse fenômeno como um mecanismo de fuga. O jogo passa a ser uma tentativa inconsciente de escapar de conflitos internos, frustrações ou angústias. Em vez de enfrentar a realidade, o indivíduo busca no acaso uma forma de anestesia psíquica. Só que essa fuga temporária aumenta ainda mais o sofrimento. Por isso, o tratamento do vício em jogos de azar precisa ir além da simples proibição de jogar. É necessário compreender o que está por trás desse comportamento — o que o sujeito tenta calar, compensar ou negar através do jogo.”
Sobre como a psicoterapia pode ajudar, ela relata:
“A psicoterapia tem um papel fundamental nesse processo, especialmente as abordagens que ajudam o paciente a reconhecer seus gatilhos emocionais e reconstruir o senso de controle sobre a própria vida. Em alguns casos, é preciso também apoio psiquiátrico, com medicação para controlar a ansiedade e a impulsividade. Além disso, os grupos de apoio — como os Jogadores Anônimos — cumprem uma função essencial, pois permitem que o indivíduo se reconheça na fala do outro e perceba que não está sozinho. É o mesmo mecanismo utilizado pelos Alcoólicos Anônimos.”
Jamille finaliza com uma mensagem de apoio e alerta:
“Falar sobre o vício em jogos de azar é quebrar o silêncio em torno de um problema que tem crescido de forma assustadora, especialmente entre os jovens, que encontram nesses aplicativos um escape rápido, mas perigoso. A dependência psicológica se instala de maneira sutil, e o que começa como uma curiosidade ou passatempo pode se transformar em um transtorno sério. No fim das contas, a grande aposta que vale a pena é investir em autoconhecimento, saúde emocional e vínculos reais.
Quando o jogo passa a controlar a vida, a sorte já foi embora há muito tempo. É importante lembrar que buscar ajuda não é sinal de fraqueza é um ato de coragem. Se você ou alguém que você conhece está preso nesse ciclo, procure apoio psicológico. Sempre há um caminho de retorno, longe das telas e mais perto de si mesmo.”
Escrita pela estagiária Fernanda Martins, com informações, Fernanda Martins.Fotos: Joédson Alves/Agência Brasil/Divulgação
