O câncer de próstata pode ter um impacto significativo na saúde mental dos homens, levando a condições como depressão e ansiedade, o que pode afetar o tratamento e a qualidade de vida.
Para falar sobre esse assunto, a reportagem do Dia a Dia News conversou com Daniele Machado, psicóloga clínica, especialista no acolhimento de jovens, adultos e idosos, que explicou como o diagnóstico do câncer de próstata afeta a saúde mental do homem.

“O diagnóstico afeta a dinâmica física, como qualquer adoecimento que ocorre nesse nível de complexidade. Nesse caso específico, está muito associado à sexualidade do homem. O câncer de próstata está inserido nesse contexto de sexualidade, que carrega um estigma capaz de gerar sofrimento e impedir o homem de exercer sua masculinidade de forma funcional e saudável”, disse Daniele.
A psicóloga destaca que o gênero masculino foi constituído historicamente e socioculturalmente sobre a ideia de virilidade e desempenho, estruturado em um modelo que exige alta performance, sexual, laboral e em saúde.
“Adoecer é visto como falhar, o que dissocia o ser homem da própria humanidade. O cuidado com o corpo, quando pensado de forma integrada, deve considerar também os impactos mentais, que causam ansiedade e atingem profundamente o indivíduo. Além disso, essa visão de mundo coloca o homem em contextos de abuso e negligência. Por isso, é fundamental compreender que o diagnóstico precoce ou o tratamento não devem ser associados à inatividade sexual nem à morte”, pontua.
Ela continua:
“É importante promover esse espaço de escuta. Quando existe a escuta, mediada por um profissional capacitado para identificar as dificuldades de cada indivíduo, o processo se torna mais fácil. É necessário criar estratégias que desconstruam os estigmas de gênero, que atingem cada homem de forma distinta , considerando raça, classe social e experiências particulares.”
Sobre o preconceito que envolve o exame de toque retal e a masculinidade, Daniele comenta:
“Quando o machismo não é explorado e compreendido como um fator que distancia o homem do autocuidado algo historicamente associado ao feminino, ele acaba se afastando da saúde física e também da emocional. A psicologia, especialmente no contexto hospitalar e multidisciplinar, observa como o indivíduo se comporta, quais são suas demandas, medos, traumas e dificuldades em aderir ao tratamento. No exercício clínico, por meio da escuta individual e do estudo da complexidade daquela mente, podemos explorar de modo específico os medos e padrões mentais carregados de preconceitos.”
A profissional conclui:
“Passamos a apresentar novas perspectivas por meio da informação e da psicoeducação, observando o contexto de cada pessoa. Cada indivíduo traz consigo sua cultura e suas vivências. Ao explorar isso, conseguimos apresentar perspectivas que realmente importam para aquele homem e quase sempre estão relacionadas às suas relações afetivas.”
Por fim, Daniele enfatiza a importância de desconstruir a ideia de que a saúde do homem não é prioridade apenas por ele ser homem:
“Costumamos pensar que, para o homem, cuidar da saúde não é algo tão importante, mas, na verdade, ele foi ensinado a acreditar que isso não é essencial. No entanto, é justamente aí que ele se afasta da própria humanidade. A psicologia, ao acolher o indivíduo adoecido, busca resgatar essa percepção e ajudá-lo a retomar sua existência de forma saudável e funcional.”
Escrita pela Estagiária Fernanda Martins, com informações Fernanda Martins. Foto:Divulgação
