Célia Zain: música, memória e identidade cultural de Feira de Santana

Cantora, pianista, maestrina e pesquisadora da cultura feirense, Célia Zain construiu sua trajetória artística a partir de uma forte herança familiar e de um compromisso profundo com a preservação da história e da identidade cultural de Feira de Santana. Em entrevista, ela relembra o início de sua relação com a música, fala sobre a valorização dos hinos e destaca o papel simbólico de Maria Quitéria para a cidade.

Célia conta que nasceu em um ambiente totalmente musical. A mãe era organista da Igreja Católica e o pai descendia de uma linhagem tradicional da música nordestina: era filho de Zé de Jovita, considerado um dos maiores repentistas do interior da Bahia. “Eu nasci dessa família musical. Não tinha como ser diferente”, afirma. Parte dessa herança, inclusive, foi registrada em gravações da banda Mundo Soté, que eternizou composições do avô.

Criada entre Feira de Santana e Salvador, onde tias atuavam como musicistas em grandes paróquias do bairro do Bonfim, Célia se formou desde cedo na música erudita. Estudou piano por nove anos, tornou-se pianista e, por necessidade profissional, assumiu a regência, tornando-se maestrina. “Entrei no universo da música clássica ainda criança”, relembra.

Sua formação acadêmica passou pelo seminário de música em Feira de Santana, então uma extensão da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ainda muito jovem, precisou conciliar a graduação com o trabalho como professora. Mais tarde, fez especialização em canto lírico e quase não conseguiu concluir a faculdade devido à intensa agenda artística, principalmente com apresentações do Hino à Feira, o conhecido Ina Feira.

Após cerca de 20 anos sem ser cantado por estudantes da rede pública, o Ina Feira voltou a ganhar força graças à iniciativa de Célia. Ela passou a se apresentar em escolas e pátios, reunindo até mil crianças cantando o hino. “Foi um período muito bonito, de verdadeira revitalização”, destaca.

Em um gesto inovador, Célia pediu autorização ao grupo Olodum para gravar o hino na batida do samba-reggae, aproximando a tradição da linguagem popular e contemporânea. Atualmente, o hino também é apresentado em versão orquestrada, com piano, formato que ela mantém em suas apresentações.

Apesar disso, a artista alerta para a perda gradual dessas tradições. Segundo ela, apenas 7% dos baianos sabem cantar o Hino ao 2 de Julho e cerca de 21% dos feirenses conhecem o Hino à Feira. “A cada cinco ou dez anos, se perde uma parte da história. É uma luta diária para manter os bons costumes e a identidade cultural de um povo”, afirma.

Outro marco fundamental do trabalho de Célia Zaim é a valorização da figura histórica de Maria Quitéria, heroína da Independência do Brasil. Desde 2013, a artista se apresenta vestida como a personagem, levando sua história para escolas, palcos e espaços públicos.

“Feira de Santana tem um título que nenhuma outra cidade do Brasil tem: somos a Cidade da Heroína”, enfatiza. Para Célia, esse reconhecimento poderia colocar o município em posição de destaque nacional e internacional, inclusive como patrimônio imaterial, se fosse devidamente valorizado.

A cantora explica que só passou a estudar profundamente a história de Maria Quitéria após enfrentar questionamentos e preconceitos ao se vestir como a heroína. A pesquisa a levou até o Rio de Janeiro, onde compreendeu melhor o contexto histórico da personagem, que assumiu o papel social destinado ao filho homem mais velho, rompendo padrões e fazendo história.

A relevância de Maria Quitéria ultrapassa fronteiras. Célia foi recentemente convidada pelo consulado francês para atividades culturais que comparam a heroína feirense a Joana d’Arc, símbolo nacional da França. “Joana d’Arc tem uma cidade inteira dedicada a ela. Maria Quitéria também merece esse reconhecimento”, defende.

Ao final, Célia deixa uma mensagem direta aos feirenses: “Feira de Santana pode ser conhecida como cidade pujante do comércio, mas esse não é o nosso maior título. O título que ninguém tira da gente é este: somos a Cidade da Heroína”.

Para a artista, cantar os hinos, contar a história e ocupar os espaços com símbolos da cultura local é um ato de resistência e pertencimento. “Alegrem-se, feirenses. Nós temos história”, conclui.

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