Drag Queens Rompem Bolhas e Redefinem Espaços Culturais

Uma drag queen é uma artista que constrói uma persona marcada pelo exagero e pela criatividade, geralmente associada ao feminino, por meio de maquiagem elaborada, figurinos chamativos e perucas. A arte drag tem como principal objetivo o entretenimento, mas também atua como uma poderosa forma de expressão artística e cultural, desafiando normas e estereótipos de gênero presentes na sociedade.

É importante destacar que ser drag queen não está diretamente ligado à identidade de gênero nem à orientação sexual da pessoa que performa. Uma drag queen pode ser homem, mulher, pessoa não binária, entre outras identidades. O drag está relacionado à performance e à criação artística, e não à forma como o indivíduo se identifica ou se relaciona afetivamente.

Melanie Mason, drag queen há 12 anos, explica como iniciou sua jornada na arte drag.

“Naquela época, fui calorosamente acolhida pelas artistas drag da região. Havia uma hierarquia fundamentada no respeito e na gratidão à história que nos precedeu. Era uma trajetória marcada por desafios, com artistas drag que enfrentavam agressões policiais nas ruas, em um movimento profundamente marginalizado.”

Ela continua:

“A drag foi reconhecida como forma de arte após o sucesso de figuras como Gloria Groove e Pabllo Vittar, além de artistas pontuais que alcançaram grande notoriedade, como Nany People e Vera Verão. Contudo, nas ruas, a marginalização persistia. Cheguei, portanto, a uma geração que me abraçou com grande afeto. Ainda assim, percebi que vivíamos em uma bolha.”

Mason destaca os desafios da profissão:

“Atualmente, a drag está rompendo essa barreira. Recentemente, participei de um festival chamado Na Rota do Roteiro, que celebra diversas formas de arte. Fui a única drag presente, mas a plateia, composta por aproximadamente 90% de pessoas heterossexuais, demonstrou apreço e admiração pelo meu trabalho.”

A artista conclui:

“Hoje, realizo diversos eventos voltados para o público heterossexual, o que considero fundamental para quebrar essa bolha e demonstrar que a drag é uma forma de arte, assim como a atuação, o canto e a pintura, merecendo ser apreciada em qualquer ambiente.”

Questionada sobre como a sociedade pode contribuir para romper essa bolha, promovendo a aceitação e a inclusão de drag queens em outros eventos e espaços culturais, Melanie afirma:

“Acredito que a sociedade pode colaborar por meio do acolhimento, da contratação e do prestígio. Cerca de 80% do nosso público é composto por turistas e por uma parcela significativa de pessoas heterossexuais que buscam conhecer nossa arte por curiosidade. Quanto mais pessoas heterossexuais convidarem artistas drag para eventos diversos, como formaturas, casamentos e chás de lingerie, maior será o alcance do nosso trabalho e a compreensão da nossa arte. Isso contribui para a quebra de preconceitos que ainda permeiam o universo drag.”

Melanie finaliza:

“A partir do momento em que colocamos a peruca na cabeça, estamos engajadas em uma luta. A drag é, portanto, uma forma de militância, que leva uma pessoa LGBTQIAPN+ a qualquer ambiente artístico para ser apreciada. Valorizar uma pessoa da comunidade também é romper barreiras de preconceito. Ao subir no palco, instruímos e ensinamos com carinho, arte e amor.”

Petra Peron, também drag queen, destaca a importância da arte drag:

“A arte drag, como expressão transformista, é uma manifestação genuína da nossa comunidade, refletindo suas experiências, alegrias e desafios. A diversidade dessa arte é notável, abrangendo dublagem, dança e canto. Diante das adversidades, a necessidade de versatilidade transformou as artistas em profissionais completas. Atualmente, uma drag queen frequentemente assume múltiplas funções, o que tem proporcionado o surgimento de novas gerações e o fortalecimento daquelas já estabelecidas, permitindo, inclusive, a monetização de suas carreiras. Embora algumas artistas consigam viver exclusivamente de sua arte, essa realidade ainda está aquém do ideal no Brasil.”

Petra também comenta sobre os avanços na área:

“Apesar dos progressos, como o acesso a editais e políticas culturais, ainda há muito a ser conquistado, especialmente para grupos historicamente marginalizados. As drag queens, por exemplo, fazem parte desse contexto. Observamos avanços, mas reconhecemos a necessidade de avançar ainda mais, sobretudo no combate ao feminicídio. Diante do crescente número de assassinatos de mulheres, pessoas trans e homossexuais, é crucial promover a conscientização e a mudança no Brasil.”

A artista conclui:

“A arte drag desempenha um papel didático, abordando questões de gênero, combatendo a masculinidade tóxica e as violências de gênero, especialmente aquelas de origem machista e misógina. Embora a comunidade LGBT+ apresente contradições inerentes à condição humana, sua luta por direitos se alinha, por natureza, ao feminismo, visando garantir direitos e segurança às mulheres. Nesse contexto, a arte drag atua como um instrumento poderoso de mudança social.”

Ex-candidata a vereadora em Salvador, Petra faz um comparativo entre a política brasileira e a presença de artistas drag nas disputas políticas:

“Considerando a política brasileira atual, percebo que ela ainda é elitizada. A cada eleição, alcançar um número maior de pessoas exige investimentos financeiros cada vez mais altos. A distância entre uma plataforma política, suas ideias, os movimentos que a apoiam e o eleitorado é significativa, devido aos custos de materiais de campanha e da logística envolvida, especialmente em cidades grandes como Salvador. Essa realidade dificulta a participação de diversos grupos sociais.”

Petra finaliza:

“Embora haja avanços na conscientização e na mobilização, uma reforma política genuína é fundamental para reverter essa situação, beneficiando não apenas a comunidade LGBTQIA+, mas também a população negra e as mulheres negras, que representam a maioria da população brasileira.”

As performances drag são diversas e podem incluir dublagem de músicas, dança, comédia, canto e interação com o público. Esses espetáculos costumam ocorrer em casas noturnas, teatros, eventos culturais, festivais e até em programas de televisão, conquistando cada vez mais visibilidade e reconhecimento.

Dessa forma, a arte drag se consolida como uma manifestação cultural rica e plural, que promove a liberdade de expressão, a criatividade e o respeito às diferenças, contribuindo para debates fundamentais sobre identidade, gênero e inclusão social.

Escrita pela estagiária Fernanda Martins, com informações:Fernanda Martins. Fotos:Fernanda Martins

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