A segurança pública se consolida, neste ano eleitoral, como a maior preocupação da população e, por relação direta, dos políticos que já começam a se movimentar em busca dos votos em outubro. Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva elencou o combate ao crime organizado como “missão de Estado”, ao dar posse ao ministro da Justiça e da Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, que substituiu Ricardo Lewandowski. O Planalto não quer deixar o tema solto para ser capturado pela oposição.
Não é tarefa das mais simples. Embora a taxa de mortes violentas intencionais (MVI) tenha atingido, em 2024, o menor patamar desde 2012 — 20,8 por grupo de 100 mil habitantes, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 —, o crime organizado mostra expansão territorial e mudanças de padrão, o que reforça a sensação de insegurança da população.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada em novembro do ano passado mostrou que 38% dos entrevistados veem a violência como a maior preocupação do brasileiro. Essa percepção é sustentada pela presença de 88 organizações criminosas (Orcrims) mapeadas no sistema prisional pela Secretaria Nacional de Políticas Penitenciárias (Senappen), em 2024. Dessas, 98% operam com estrutura hierárquica, e 91% detêm alto poder financeiro. Hoje, as maiores organizações criminosas brasileiras atuam como empresas transnacionais.
Enquanto os políticos discutem, o crime avança. O mapeamento da Senappen indica que as facções estão em diferentes estágios de organização: 72 são locais; 14, regionais; e duas de âmbito nacional/transnacional — o Primeiro Comando da Capital (PCC), que nasceu nos presídios paulistas, e o Comando Vermelho (CV), originário das penitenciárias fluminenses.
Aparatos
Essas estruturas não se limitam mais ao narcotráfico: diversificam o portfólio para crimes ambientais, grilagem de terras, exploração de serviços e estelionato digital.
As duas maiores organizações criminosas do país, PCC e CV, estão presentes em praticamente todos os estados — com exceção do Rio Grande do Sul, que é dominado por quadrilhas locais bem estruturadas e estabelecidas há muitos anos.
Segundo o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, o foco estratégico da ação policial, nos últimos dois anos, migrou do confronto armado para a descapitalização das quadrilhas, retirando recursos efetivos, como imóveis, automóveis, aeronaves e criptoativos, para asfixiar as lideranças que, “muitas delas, poucas vezes colocaram os pés numa favela”.
“É um contrassenso se pegarmos o discurso de determinados parlamentares, vigorosamente contra o crime organizado, que, na hora de apertar o botão do voto para não soltar um criminoso, votam pela soltura. Isso vem de encontro ao que nós precisamos, que é, de fato, o compromisso de todos no enfrentamento ao crime organizado, que não é o preto pobre da favela, da periferia, mas o criminoso que nós mais precisamos enfrentar”, ressaltou o delegado da PF.
A PF defende que o enfrentamento eficiente passa pela integração das polícias federal e estaduais por meio das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficcos), modelo que identificou e bloqueou R$ 160 milhões do crime organizado em operações recentes. O diretor da instituição ressalta, porém, que, “quando tudo vira crime organizado, nada é crime organizado”. Ele defendeu uma separação técnica para evitar o uso político e midiático do tema da segurança pública. “Isso dificulta a compreensão do fenômeno e o enfrentamento com as ferramentas que precisamos ter. Isso, na verdade, em nada agrega, a não ser promoção pessoal ou midiática de quem quer aparecer, quem quer estar na mídia. O que nós queremos é fazer um enfrentamento efetivo e eficiente do crime organizado”, destacou.
Nordeste lidera mortes no país
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 revelam que o maior número de mortes violentas no país registrado no Nordeste, com um aspecto que diferencia a região das demais: a profunda desigualdade racial. Em Alagoas, uma pessoa negra tem 47,8 vezes mais chance de ser vítima de um homicídio do que uma não negra.
Não é coincidência o fato de as 10 cidades mais violentas do país serem nordestinas, lideradas por Maranguape, no Ceará, com MVI de 79,9/100 mil habitantes. A cidade da Região Metropolitana de Fortaleza é palco de disputas sangrentas entre facções locais pelo controle da distribuição e venda de drogas, como o Bonde dos 40 e os Guardiões do Estado (GDE), e facções de âmbito nacional.
A Bahia, que tem cinco municípios na lista dos 10 mais violentos, mostra um avanço do crime organizado para o interior do estado. Jequié, a 365 km de Salvador, assumiu, no ano passado, a segunda colocação no ranking do anuário (era a terceira, em 2024), com taxa de 77,6 mortes violentas por 100 mil habitantes. Juazeiro, no norte do estado, é a terceira cidade mais violenta do país, com taxa de 76,2. Na Bahia, o PCC e o CV disputam o comando do mundo do crime com organizações locais, como o Bonde dos Malucos e o Honda.
O Centro-Oeste — “hub” do escoamento agrícola brasileiro — conta com Mato Grosso do Sul e Mato Grosso como corredores vitais da logística das orcrim. O MS é responsável por 41% das apreensões de maconha no Brasil, devido ao avanço da Tropa do Castelar, dissidência do CV aliada ao PCC, que atua para garantir o transporte das drogas pela BR-163, rodovia que liga as regiões Norte e Sul, passando pelo Centr-Oeste.
As atividades ilegais de exploração da floresta, por sua vez, têm sido cobiçadas pelo CV. Na Terra Indígena Sararé, em MT, por exemplo, o grupo criminoso carioca passou a controlar diretamente o garimpo ilegal (ou narcogarimpo), impondo a cobrança de “mensalidades” de até 100g de ouro — aproximadamente R$ 70 mil — por operação “protegida” pelos criminosos.
O Sudeste reúne os pilares financeiros das grandes facções do país. Mas a forma de atuação das forças policiais é diferente. No Rio, os confrontos armados entre polícia e quadrilhas é mais visível. A Operação Redentor 2, por exemplo, deflagrada em dezembro pela PF, focou na desarticulação de fábricas de fuzis que abastecem as favelas. O grande número de armas nas mãos dos faccionados ajuda o crime a manter bases sólidas em comunidades fluminenses.
Operações policiais
O lado dramático dessa política de enfrentamento está no número de mortos decorrente das operações policiais. Em outubro do ano passado, a polícia fluminense entrou em três comunidades da Zona Norte do Rio de Janeiro para capturar líderes do Comando Vermelho. O saldo foi trágico: mais de 120 mortos. Para o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP), a operação foi ineficaz e teve claro caráter político-eleitoral, para impulsionar a candidatura do governador Cláudio Castro ao Senado em 2026.
São Paulo, apesar de ser o berço do PCC, detém a menor índice de homicídios do país (8,2 por 100 mil). O foco do crime está no mercado financeiro e nos crimes de alta rentabilidade. O estado, por exemplo, enfrenta uma epidemia de fraudes — a taxa de estelionatos é 71,1% superior à média nacional, segundo o anuário.
Furtos e roubos de celulares se tornaram uma indústria no estado, que responde por quase um terço de todas as ocorrências desse tipo no país (31,4%). Os celulares roubados abrem portas para os crimes digitais e, depois, os aparelhos acabam alimentando redes de receptação ligadas ao PCC, que exportam aparelhos roubados para países da África e da Ásia.
Em ambos os casos, são crimes de alta rentabilidade e menor risco penal — caso do estelionato eletrônico, que alcançou quase 2 milhões de registros em 2023, com um golpe ocorrendo a cada 16 segundos, de acordo com o Atlas da Violência 2025.
Fonte: correio braziliense Foto:Divulgação