“Del Feliz defende tradição e transparência: ‘São João precisa ser autêntico e acessível’”

O debate sobre os altos valores pagos em cachês artísticos com recursos públicos ganhou um novo capítulo com a participação do cantor, compositor e apresentador Del Feliz, natural do distrito de Barreiros, em Riachão do Jacuípe. Reconhecido como um dos principais defensores do forró tradicional, Del analisou a recente reunião entre prefeitos da Bahia, conduzida pelo presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), Wilson Gardoso, que discutiu a viabilidade econômica das festas juninas diante dos valores milionários exigidos por alguns artistas.

“Essa reunião, para mim, foi histórica. Vemos décadas de luta para preservar uma festa junina tradicional, original, e finalmente houve a disposição dos prefeitos em reconhecer que os cachês exorbitantes tornam a festa inviável”, afirmou Del Feliz. Segundo ele, artistas têm chegado a pedir mais de R$ 2 milhões por apresentação, valor insustentável para muitos municípios e que prejudica a diversidade cultural e a identidade da festa.

Para o artista, o problema vai além do valor do cachê: é preciso garantir a preservação da essência do São João. “Se você diminui o cachê, mas continua contratando apenas artistas fora do forró, a situação permanece a mesma. A festa é pacífica, é cultural, tem nossa comida, nossa bebida, nosso jeito de se vestir, e é turística justamente porque é barata e autêntica. Isso é o que a gente não pode perder”, destacou.

Del Feliz também apontou a necessidade de desburocratizar a contratação de artistas, um tema que ele acompanha há anos. “A lei 14.133, que substituiu a antiga 8.666, tornou tudo mais complicado. Ela exige três notas para comprovar cachês, o que impede que artistas em início de carreira, mesmo talentosos, tenham oportunidades. É como pedir experiência em um primeiro emprego. Precisamos de mecanismos que permitam que pequenos artistas locais possam atuar sem essa barreira absurda”, explicou.

Outra prioridade destacada pelo cantor é o percentual mínimo de artistas locais nas festas. “Em 2015, lutamos para que 60% dos recursos públicos fossem destinados a atrações autênticas, mas a lei não foi regulamentada. Hoje, acreditamos que 50% já seria um avanço significativo, garantindo equilíbrio na programação e valorizando o forró”, disse Del Feliz. Segundo ele, isso também tem impacto econômico, já que a música tradicional atrai turistas, movimenta comércio local e mantém viva a identidade cultural.

O artista reforçou ainda que o foco deve ser nos recursos investidos, e não apenas na quantidade de artistas. “Não adianta apenas fixar percentual de artistas se a maior parte do dinheiro vai para cachês milionários de atrações que não representam a tradição. Com 50% do orçamento para artistas locais, o São João será mais autêntico e equilibrado”, acrescentou.

Del Feliz encerrou destacando a importância de que o debate sobre cachês e valorização da cultura vá além das festas juninas, abrangendo também outros eventos públicos, como aniversários de cidades e o carnaval. “Precisamos de responsabilidade e equidade financeira em todos os festejos. Espero que a Bahia sirva de exemplo para os demais estados, e que possamos ter o melhor São João de todos os tempos, autêntico, cultural e pacífico”, concluiu.

A discussão, que começou no âmbito local, reforça a necessidade de políticas culturais mais transparentes e inclusivas, valorizando os artistas regionais e garantindo que a tradição e a identidade do São João baiano continuem sendo preservadas.

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