Após o Carnaval, período marcado por grandes aglomerações, viagens e intensa circulação de pessoas, especialistas reforçam o alerta para o aumento de doenças virais. Em entrevista ao programa Dia a Dia News, o infectologista Dr. Robson Reis esclareceu dúvidas sobre a Mpox, comentou o crescimento das chamadas “viroses pós-folia” e fez uma reflexão sobre os seis anos do primeiro caso de Covid-19 no Brasil.
Mpox não é doença nova, mas exige atenção
O médico explicou que a Mpox não é uma doença nova. “Esse vírus já é conhecido pela comunidade científica há muito tempo. A população passou a ouvir mais falar a partir de 2022, quando houve aumento de casos no mundo, inclusive no Brasil”, afirmou.
Anteriormente chamada de varíola dos macacos e também conhecida como monkeypox, a doença recebeu oficialmente o nome de Mpox. Trata-se de uma infecção viral com características semelhantes à antiga varíola, erradicada graças à vacinação.
A principal manifestação clínica são lesões de pele que evoluem de pequenas elevações (pápulas) para vesículas com líquido, pústulas e, posteriormente, crostas. Essas lesões podem surgir no rosto, tronco, região genital, mãos e pés. “É comum também o aumento dos linfonodos, as chamadas ínguas, que costumam ser dolorosas. Além disso, o paciente pode apresentar febre, dor no corpo e fraqueza”, explicou.
A transmissão ocorre principalmente por contato direto e prolongado com lesões ou secreções de pessoas infectadas. Embora possa acontecer durante relação sexual, o médico ressalta que não se trata de uma doença sexualmente transmissível clássica, mas sim de infecção por contato íntimo e próximo. A transmissão respiratória é possível, porém menos frequente que em doenças como Covid-19 ou influenza.
A Mpox é considerada uma zoonose, ou seja, pode ser transmitida de animais para humanos, especialmente primatas e roedores. No entanto, no Brasil, a maior parte dos casos registrados ocorreu por transmissão entre pessoas.
Globalização e vigilância epidemiológica
Dr. Robson destacou que, em um mundo globalizado, doenças podem se espalhar rapidamente entre continentes por meio de viagens aéreas e grandes eventos. Por isso, a vigilância epidemiológica em portos e aeroportos é fundamental para monitorar e orientar viajantes.
Existe vacina contra Mpox, mas sua aplicação é restrita a públicos específicos, não estando disponível de forma ampla no Programa Nacional de Imunizações.
A prevenção envolve evitar contato direto com lesões suspeitas, procurar atendimento médico diante de sintomas e manter medidas básicas de higiene, como lavar as mãos com água e sabão ou utilizar álcool em gel.
Pós-Carnaval e aumento de viroses
Com milhões de pessoas nas ruas durante o Carnaval, é comum observar aumento de doenças infecciosas nas semanas seguintes. “As pessoas ficam muito próximas, compartilham bebidas, objetos pessoais, não dormem bem, não se alimentam adequadamente. Tudo isso compromete o sistema imunológico e favorece a transmissão de vírus”, explicou.
Segundo o infectologista, os quadros mais frequentes são viroses respiratórias e gastrointestinais, com sintomas como febre, dor no corpo, diarreia, tontura e mal-estar. Ele também alertou que, além de vírus, infecções bacterianas podem ocorrer devido ao consumo de alimentos mal acondicionados ou manipulados sem higiene adequada.
Sobre a chamada “virose da mosca”, termo popular utilizado em algumas cidades, o médico esclareceu que se trata de uma denominação incorreta para o contexto pós-Carnaval. Moscas podem carrear microrganismos ao pousar em lixo ou fezes, mas os quadros mais comuns neste período estão relacionados à transmissão interpessoal em ambientes com grande aglomeração.
Seis anos da Covid-19: o que mudou?
Ao relembrar os seis anos do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, Dr. Robson classificou o período como um dos mais desafiadores da história recente. “Foi um momento de perdas humanas, impactos econômicos e sociais profundos. Mas também houve avanço científico significativo”, avaliou.
Ele destacou a rapidez no desenvolvimento de vacinas e medicamentos antivirais eficazes, além do fortalecimento da pesquisa científica mundial.
O vírus SARS-CoV-2, causador da Covid-19, ainda circula. No entanto, hoje os testes são menos realizados do que no auge da pandemia, o que reduz a notificação de casos. A vacinação segue indicada para grupos prioritários, especialmente pessoas com imunidade comprometida ou comorbidades.
Entre os hábitos que permaneceram, o médico cita a maior conscientização sobre higiene das mãos, etiqueta respiratória (como tossir no antebraço) e o uso de máscara por pessoas sintomáticas em ambientes fechados.
Sem “fórmulas mágicas”
Por fim, o infectologista fez um alerta contra promessas de soluções rápidas para fortalecer a imunidade. “Não existem vitaminas, cápsulas, chás ou soros milagrosos com comprovação científica para prevenir doenças virais. O que funciona é vacinação quando indicada, hábitos saudáveis, boa alimentação, sono adequado e higiene”, concluiu.
A recomendação central é clara: diante de sintomas suspeitos, procurar atendimento médico e evitar contato próximo com outras pessoas até avaliação adequada, reforçando que prevenção continua sendo a principal arma contra doenças infecciosas.