O endividamento das famílias brasileiras subiu 0,2 ponto percentual (p.p.) em março e atingiu o maior nível da série histórica, iniciada em 2015. A taxa passou de 80,2% em fevereiro para 80,4% em março.
Os dados são da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
O percentual corresponde ao número de famílias que relataram ter dívidas a vencer, como cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa.
Verônica Ferreira Silva dos Santos, economista, em entrevista ao programa Dia a Dia News, destaca que a notícia sobre o endividamento é preocupante.
“Apesar das taxas de juros elevadas e das medidas governamentais para conter a demanda, os consumidores continuam buscando crédito e outras formas de consumo, resultando em inadimplência. Esse fenômeno reflete tanto o consumo exacerbado quanto a insuficiência de renda. Muitas vezes, contas básicas como água, luz e internet, essenciais para o dia a dia, entram em inadimplência. Isso gera preocupações tanto para os consumidores, que podem enfrentar problemas de saúde e ansiedade, quanto para os fornecedores, que veem sua demanda impactada.”
Em relação à definição de endividamento familiar, ela explicou:
“O endividamento familiar ocorre quando as despesas ultrapassam a capacidade de pagamento, comprometendo a renda da família. As dívidas superam a receita, indicando que se está gastando mais do que se ganha.”
Sobre as dívidas citadas na matéria, como cartão de crédito, cheque especial, carnês de lojas, crédito consignado, empréstimos pessoais e prestações de bens como carro e casa, afirmou:
“São vários fatores, mas o acesso ao crédito e o desejo de consumo desenfreado são os principais. Embora as taxas de juros mais altas visem limitar o crédito, a busca por ele persiste, impulsionada pelo consumo excessivo. O comportamento dos indivíduos é determinante.”
Verônica também ressalta a influência das redes sociais e a busca por um estilo de vida específico no aumento do endividamento:
“As redes sociais são um vetor importante, promovendo um estilo de vida irreal que as pessoas tentam replicar, o que pode impulsionar o endividamento.”
Em contraponto, o também economista Antônio Rosevaldo explica a diferença entre endividamento e inadimplência:
“O endividamento ocorre quando se assumem compromissos financeiros. Já o superendividamento caracteriza-se pela incapacidade de honrar tais compromissos. No âmbito do endividamento, as famílias atualmente lidam com despesas fixas e variáveis. As despesas fixas englobam contas como água, luz, telefone, internet e serviços de streaming. A exemplo disso, muitos utilizam plataformas como Netflix e Google Play.”
Ele continua:
“No passado, as famílias não possuíam todas essas despesas fixas. Hoje, no entanto, é comum encontrar televisores, chuveiros elétricos e aparelhos de ar-condicionado em praticamente todos os lares. O ar-condicionado, inclusive, demanda uma parcela considerável da renda familiar. Quando se considera a faixa de renda de cada indivíduo, percebe-se que, para aqueles com menor poder aquisitivo, o endividamento tende a ser menor, já que a capacidade de consumo também é limitada.”
O economista conclui:
“No entanto, quando uma parcela significativa da renda familiar é destinada às despesas fixas, resta menos recurso para as despesas variáveis. Estas incluem a substituição de eletrodomésticos, reformas na residência e, o mais preocupante, a aquisição de medicamentos para membros da família doentes. Ao se endividar além da capacidade financeira, especialmente nas despesas variáveis, a família pode se ver impossibilitada de abrir mão de despesas fixas, como serviços de streaming, para priorizar o pagamento de medicamentos. Isso acarreta um risco considerável de inadimplência e, consequentemente, de problemas financeiros mais graves. Além disso, o acesso facilitado ao crédito, com a possibilidade de obter empréstimos e cartões com apenas alguns cliques, pode agravar a situação, levando ao superendividamento. É fundamental, portanto, uma gestão financeira consciente para evitar o acúmulo de dívidas.”
Rosevaldo dá dicas para não se endividar:
“Atualmente, as plataformas digitais incentivam o consumo, inclusive de bens desnecessários, como jogos e animais de estimação. Antes de efetuar uma compra, é crucial questionar: ‘Necessito deste item?’ e ‘Como o pagamento afetará minhas finanças?’. Responder a essas perguntas pode reduzir o risco de endividamento.”
Sobre as pessoas com renda de até três salários mínimos demonstrarem maior controle, ele finaliza:
“O endividamento fixo, referente a despesas como água, luz e telefone, impacta as famílias de diferentes maneiras. Em lares com menor renda, o consumo de serviços básicos tende a ser menor, seja pela menor utilização de aparelhos eletrônicos, seja pela escolha de planos mais acessíveis. Indivíduos com renda entre três e dez salários mínimos tendem a ter mais ambições, como viagens, e a se sentir mais tentados por compras em plataformas digitais e apostas, o que pode levar ao endividamento. Este, por sua vez, pode gerar dificuldades financeiras e, em casos extremos, a incapacidade de honrar compromissos.”
Com informações:Miro Nascimento, Foto:Divulgação