Em entrevista ao Dia a Dia News, a psicóloga Rafaela Amorim explica como acontece o diagnóstico do autismo na vida adulta, aponta os principais sinais e reforça a importância do acolhimento após a identificação.
Logo no início da conversa, a especialista destaca que o diagnóstico não começa no consultório, mas na própria vivência do indivíduo ao longo da vida.
“É um prazer estar aqui para falar sobre um tema que é tão importante e, ao mesmo tempo, ainda cercado de muita incompreensão, que é o processo do diagnóstico, especialmente quando ele acontece na vida adulta. Quando a gente fala sobre o diagnóstico, a primeira coisa importante é entender que ele não começa no consultório. Na verdade, ele começa na vida, com os sinais que vão aparecendo ao longo do tempo, principalmente na primeira infância”, explica.
Segundo Rafaela, esses sinais atravessam diferentes fases, como adolescência e vida adulta, muitas vezes sem serem compreendidos ou sendo até julgados de forma equivocada.
“Esses comportamentos passam pelas relações, pela escola, pelo trabalho. E muitas vezes eles não são compreendidos naquele momento. Às vezes até julgados”, pontua.
A psicóloga também chama atenção para o aumento de diagnósticos na vida adulta, relacionado ao maior acesso à informação e à ampliação do debate sobre saúde mental.
“Hoje a gente tem mais informação, mais acesso, mais discussão sobre saúde mental. Existe uma compreensão maior de que o autismo é um funcionamento cerebral diferente. A pessoa autista tem um funcionamento diferente da maioria, do que a gente chama de padrão, que seria a pessoa neurotípica”, afirma.
Ela ainda explica que, no passado, muitos casos passam despercebidos, especialmente porque as pessoas desenvolvem mecanismos de adaptação ao longo da vida, muitas vezes com sofrimento.
“Não é que não existiam autistas. Mas muitos desses quadros eram mal compreendidos. As pessoas conseguiam se adaptar com muito sofrimento. Antes, não existiam intervenções como hoje, a exemplo da análise do comportamento, que ajuda a desenvolver habilidades sociais desde a infância”, explica.
Outro ponto importante é o subdiagnóstico em mulheres. Rafaela ressalta que esse grupo historicamente apresenta maior capacidade de mascaramento dos sintomas.
“Historicamente, as mulheres foram subdiagnosticadas, porque tendem a mascarar mais os sintomas e se adaptar socialmente. Isso muitas vezes esconde o sofrimento”, ressalta.
De acordo com a psicóloga, quando o adulto chega ao consultório, geralmente já carrega uma trajetória de dificuldades e, em muitos casos, outras condições associadas.
“Ele não chega por acaso. Muitas vezes vem com uma comorbidade, como depressão. Chega cansado de tentar dar conta de tudo, de se comparar, de se sentir insuficiente, de viver em constante sobrecarga emocional e mental”, diz.
Apesar disso, ela reforça que o diagnóstico não deve ser visto como um rótulo, mas como uma ferramenta de autoconhecimento.
“O diagnóstico, quando é bem feito, não é um rótulo. Ele é uma ferramenta de compreensão. Permite que a pessoa entenda sua história com mais clareza, ressignifique vivências e construa estratégias mais adequadas para si”, destaca.
Sinais e critérios para o diagnóstico
Durante a entrevista, a psicóloga também detalha os principais sinais observados no autismo e ressalta a importância de critérios técnicos.
“Quando a gente fala em diagnóstico, precisa seguir critérios técnicos, como os do DSM-5. De forma mais simples, a gente observa dois grandes grupos de sinais”, explica.
O primeiro grupo está relacionado à comunicação e interação social.
“São pessoas que têm dificuldade em iniciar ou manter conversas, entender expressões, gestos, ou desenvolver relações ao longo da vida. Isso não significa que não vão ter relacionamentos ou casamento, mas há um sofrimento e prejuízos nesse processo”, afirma.
O segundo grupo envolve comportamentos repetitivos e rigidez cognitiva.
“Pode haver necessidade de rotina muito marcada, sofrimento com mudanças, interesses muito intensos e específicos, o que a gente chama de hiperfoco, e também maior sensibilidade a sons, luzes e texturas”, detalha.
A psicóloga também alerta que esses sinais precisam estar presentes desde a infância para que o diagnóstico seja considerado.
“O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento, então precisa ter sinais desde a infância. Não é algo que surge apenas na vida adulta. É preciso ter cuidado para não haver diagnósticos equivocados”, alerta.
Diferença entre traços e diagnóstico
Rafaela também esclarece uma dúvida comum, como diferenciar comportamentos pontuais de um possível quadro de autismo.
“O que a gente observa é o padrão. Se esse funcionamento está presente desde o início da vida ou se surgiu em um momento específico. O diagnóstico não pode se basear em um único comportamento isolado”, explica.
Ela ainda reforça que o espectro autista é amplo e que cada pessoa apresenta características próprias.
“Cada pessoa dentro do espectro é única. Existem níveis de suporte, nível 1, 2 e 3, que indicam o quanto a pessoa precisa de apoio para ter qualidade de vida”, afirma.
Profissionais envolvidos no diagnóstico
O processo diagnóstico envolve uma equipe multidisciplinar. A especialista explica que diferentes profissionais atuam de forma complementar.
“A psicoterapia ajuda muito nesse processo de identificação. Além disso, é importante o acompanhamento psiquiátrico, neurológico e, principalmente, a avaliação neuropsicológica, que valida, por meio de testes, se a pessoa está dentro do espectro”, explica.
E depois do diagnóstico?
Após o diagnóstico, o foco passa a ser o acolhimento e o desenvolvimento de estratégias que promovam qualidade de vida.
“O primeiro passo é o acolhimento. Não se trata de consertar a pessoa. Ela tem esse funcionamento e precisa ser respeitada”, destaca.
Entre as recomendações estão psicoterapia, fortalecimento da rede de apoio e cuidados com o estilo de vida.
“Atividade física, sono regulado, alimentação adequada. Tudo isso impacta diretamente no funcionamento mental”, afirma.
A psicóloga também reforça que não existe um único modelo de funcionalidade.
“Cada pessoa vai encontrar o seu próprio caminho. Quanto mais ela se conhece, melhor”, diz.
Diagnóstico como liberdade
Encerrando a participação, a psicóloga reforça a importância de desmistificar o diagnóstico.
“Diagnosticar não é rotular. É dar nome para que a pessoa possa compreender e se cuidar melhor. Não é um rótulo, é uma liberdade. Porque, a partir do momento que você se conhece, você busca estratégias para lidar com o que te causa incômodo”, conclui.