Realidade econômica pressiona orçamento doméstico
Feira de Santana enfrenta um cenário de forte desigualdade social, que impacta diretamente no aumento do endividamento das famílias. De acordo com o economista Rosevaldo Ferreira, cerca de 75% da população vive com até dois salários mínimos, o que limita o poder de compra e torna o orçamento mais vulnerável.

Segundo ele, o problema não está apenas na renda, mas no aumento constante das despesas dentro de casa.
“Hoje, poucas pessoas têm apenas um aparelho de TV. O consumo de energia aumentou, todo mundo paga internet, mesmo que seja irregular. Isso tudo pesa no orçamento”, explica.
Consumo maior e novas despesas fixas
O economista destaca que houve uma mudança no padrão de consumo nos últimos anos. Serviços que antes não faziam parte da rotina das famílias passaram a ser considerados essenciais.
“Hoje, quase todo mundo paga um provedor de internet. Isso não existia antes. Além disso, temos mais eletrodomésticos, como airfryer e micro-ondas, que aumentam tanto o consumo de energia quanto o uso do crédito”, afirma.
Esse crescimento das chamadas despesas fixas tem reduzido a margem financeira das famílias, que passam a depender mais de crédito para fechar o mês.
Cartão de crédito e juros: o principal vilão
Para quem não consegue pagar todas as contas, o cartão de crédito aparece como uma solução imediata, mas perigosa.
“Você usa o cartão para aliviar o mês, mas no mês seguinte não consegue pagar. Aí entra no crédito rotativo, com juros que chegam a cerca de 400% ao ano”, alerta.
Ele exemplifica o impacto: uma dívida de mil reais pode se transformar em quatro mil em um ano.
“O cartão de crédito dá uma falsa sensação de alívio. Depois, o banco oferece renegociação com juros menores que o rotativo, mas ainda muito altos, o que mantém a pessoa endividada”, completa.
Renegociação não resolve o problema estrutural
Apesar de programas de renegociação de dívidas, o economista avalia que essas iniciativas não têm sido suficientes para resolver o problema.
“Esses programas atacam o valor da dívida, mas não a origem. A pessoa continua com prestações da casa, do carro, da moto, comprometendo a renda todo mês”, explica.
Segundo ele, muitas famílias recorrem ao crédito para pagar outras dívidas, criando um ciclo difícil de romper.
Apostas e consumo por impulso agravam situação
Outro ponto de atenção é o uso de apostas e jogos como tentativa de quitar dívidas.
“Tem gente que acha que vai jogar em bet ou loteria e resolver a vida. A chance de ganhar é mínima. Isso só aumenta o endividamento”, afirma.
Ele orienta que esse tipo de gasto seja evitado, especialmente em momentos de dificuldade financeira.
Cortes necessários e reorganização financeira
Diante desse cenário, o economista recomenda mudanças imediatas no estilo de vida, principalmente na redução de gastos.
“É preciso evitar lazer caro, viagens, troca de celular e compras desnecessárias. Não significa deixar de viver, mas reduzir custos enquanto organiza a vida financeira”, orienta.
Ele também reforça a importância da negociação com credores.
“Se não puder pagar, procure o credor e negocie. É sempre melhor do que deixar a dívida crescer”, diz.
Educação financeira é essencial
Para o especialista, a solução de longo prazo passa pela educação financeira.
“Escolas, universidades e a sociedade precisam discutir mais esse tema. As pessoas precisam entender como lidar com o dinheiro”, defende.
Ele também destaca que, apesar da recomendação de organizar os gastos no papel ou em planilhas, a tecnologia já oferece alternativas.
“Hoje os aplicativos de banco já mostram tudo: contas, vencimentos, despesas. O importante é ter consciência e acompanhar”, afirma.
Quanto gastar? Especialista sugere limites
Sobre planejamento financeiro, o economista sugere um limite de gastos baseado na renda.
“Quem ganha mais pode gastar até 50% do que recebe. Já quem ganha até dois ou três salários mínimos precisa de mais flexibilidade, podendo chegar a 80%, porque as despesas básicas são muito altas”, explica.
Perspectiva: alívio momentâneo, mas desafio continua
Para os próximos meses, a expectativa é de um possível alívio, impulsionado por medidas econômicas.
“A troca de dívidas caras por mais baratas pode ajudar, principalmente no cartão de crédito. Mas, se não houver controle de gastos, o problema continua”, alerta.
Ele também destaca que o cenário político pode influenciar essas medidas.
“É um ano eleitoral, então deve haver iniciativas para aliviar a situação das famílias. Mas isso não resolve a raiz do problema, que é o consumo baseado em crédito”, afirma.
Consciência é o primeiro passo
Ao final, o economista reforça que sair das dívidas é um processo gradual e exige esforço contínuo.
“Todo mundo sabe quando está devendo. É difícil, eu sei. Mas é preciso ir ajustando aos poucos. Com disciplina, é possível sair dessa situação”, conclui.
