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O envelhecer em Feira de Santana e o impacto social e econômico

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Parece que a galera gosta de discutir a situação dos idosos, porque o interesse pelo tema cresceu bastante desde o último artigo em que o abordei. Tudo começou com um convite do professor João Rocha para participarmos de uma live com a professora Vera Carneiro. Ela falaria sobre infância e adolescência, enquanto eu ficaria responsável pela parte do envelhecimento. De imediato, o sensor “Economista 24 horas” foi acionado, porque há tempos eu queria escrever algo sobre minha inserção como consumidor da chamada Economia Prateada, nome pomposo dado ao mercado voltado para o público idoso.

Eu já havia levantado alguns dados sobre a população feirense acima dos 60 anos e resolvi compilá-los no artigo. Mas ficou aquele gosto de “quero mais”, e decidi aprofundar os estudos. Comparando os dados oficiais do IBGE, percebe-se que Feira de Santana passou por um acelerado processo de envelhecimento na última década.

Em 2010, existiam 48.365 idosos na cidade, representando cerca de 8,7% da população total da época. Já em 2022, esse número saltou para 79.500 pessoas, o equivalente a 12,9% da população, um crescimento superior a 63% em apenas 12 anos.

À primeira vista, trata-se de um fenômeno impressionante. Porém, pasmem: Feira de Santana envelheceu menos que a média da Bahia. Sim, aqui na terra de Lucas a gente vive bem, mas nem tão bem quanto na média estadual. Ainda assim, o crescimento exige maior atenção e políticas públicas específicas para essa parcela da população.

O aumento na faixa dos longevos foi ainda mais impressionante, revelando uma melhora significativa na expectativa de vida extrema da região. Em 2010, havia apenas 48 pessoas com 100 anos ou mais em Feira de Santana. Em 2022, esse número subiu para 157 centenários, um crescimento de 227%.

E quem são esses centenários? Como vivem? De onde vieram? Calma, você não está assistindo ao Globo Repórter. A “Princesinha do Sertão” é hoje a segunda cidade com mais centenários da Bahia, ficando atrás apenas de Salvador. O perfil desse grupo é majoritariamente feminino: são 120 mulheres contra apenas 37 homens.

O que isso indica? O crescimento de 227% na população centenária mostra que Feira de Santana não está apenas ficando “mais velha”. As pessoas estão conseguindo ultrapassar a barreira de um século de vida com mais frequência, o que demanda políticas de saúde voltadas para a chamada “quarta idade”.

Na faixa etária de 90 a 99 anos, o salto populacional também foi expressivo. Em 2010, Feira de Santana possuía 988 pessoas nessa faixa etária. Em 2022, o número saltou para 2.164 pessoas. Ou seja, mais que dobrou em apenas 12 anos, crescendo muito acima da média populacional do município.

Assim como ocorre entre os centenários, as mulheres são ampla maioria. Em 2022, eram aproximadamente 1.450 mulheres contra 714 homens nessa faixa etária.

Os números detalhados mostram a dimensão desse crescimento:

  • 90 a 94 anos: de 761 para 1.636 pessoas (+115%);
  • 95 a 99 anos: de 227 para 528 pessoas (+132%);
  • 100 anos ou mais: de 48 para 157 pessoas (+227%).

Esses dados reforçam a urgência da discussão sobre o Conselho Municipal do Idoso e sobre políticas estaduais voltadas ao envelhecimento. A cidade está vendo sua “ponta da pirâmide” crescer muito mais rápido do que sua base.

Salta aos olhos o fato de que as mulheres vivem mais. Essa é uma das grandes questões da ciência, e a resposta envolve uma combinação de fatores biológicos, comportamentais e sociais. Em Feira de Santana, como vimos, essa diferença é nítida: as mulheres dominam as faixas acima dos 90 anos.

O primeiro ponto é o chamado “escudo biológico”. Até a menopausa, o estrogênio ajuda a proteger as artérias, reduzindo o risco de doenças cardiovasculares, principal causa de morte no mundo. O hormônio também auxilia na redução do colesterol ruim (LDL) e no aumento do colesterol bom (HDL).

Outro fator importante é genético. As mulheres possuem dois cromossomos X, enquanto os homens possuem XY. Se um gene do cromossomo X apresenta defeito, a mulher ainda conta com uma “cópia reserva”. No homem, se o X falha, não há substituto, tornando-o mais vulnerável a diversas doenças genéticas.

Além disso, estudos sugerem que as células femininas envelhecem mais lentamente porque produzem menos radicais livres, substâncias que danificam o DNA. Confesso: eu jurava que o XY era nossa vantagem. Piroquei aqui.

Depois dos fatores biológicos, entram os aspectos ligados ao comportamento e ao estilo de vida. Historicamente, a mulher foi educada para o autocuidado. Elas utilizam mais os serviços de saúde, fazem exames preventivos e consultas de rotina com frequência muito maior que os homens.

O homem, muitas vezes por questões culturais ligadas à ideia de “força”, só procura o médico quando a doença já está avançada. Como se diz popularmente: o homem só procura atendimento quando “a merda já deu na canela”. Basta observar o medo histórico da consulta ao urologista.

Estatisticamente, os homens também se envolvem mais em comportamentos de risco: maior consumo de álcool e tabaco, direção perigosa e trabalhos fisicamente mais perigosos. A mortalidade masculina é drasticamente afetada por causas externas, como homicídios e acidentes. Isso cria um “buraco” na pirâmide populacional masculina desde cedo, refletindo lá na frente na proporção de idosos.

As mulheres, por outro lado, tendem a manter laços sociais e redes de amizade mais fortes ao longo da vida. O isolamento social é um fator de risco comprovado para a mortalidade. Ter uma rede de apoio ativa ajuda na saúde física e mental. O homem, muitas vezes, ao perder sua virilidade ou autonomia, tende ao recolhimento e parece perder parte do sentido da vida.

A testosterona, embora fundamental para o homem, também pode ser traiçoeira a longo prazo. Ela está associada a comportamentos mais agressivos e pode suprimir parcialmente o sistema imunológico, tornando o organismo masculino menos resistente a determinadas infecções.

Diz-se popularmente que “o homem é o sexo forte, mas a mulher é o sexo resistente”. A natureza parece ter projetado o corpo feminino para suportar grandes estresses biológicos, como o parto, e durar mais tempo, garantindo a sobrevivência da espécie.

Em Feira de Santana, esse fenômeno cria desafios importantes para os gestores públicos. Como as mulheres vivem mais, elas também passam mais tempo vivendo sozinhas, especialmente após a viuvez, e frequentemente contam com rendas menores devido ao histórico de informalidade no mercado de trabalho. Isso exige políticas sociais específicas voltadas para as idosas.

Ao mesmo tempo, abre-se um enorme leque de oportunidades econômicas, impulsionando a chamada Economia Prateada em Feira de Santana.

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