Mesmo com níveis de escolaridade mais altos do que os dos pais, os millennials ainda não conseguiram ultrapassar o padrão de vida alcançado pela Geração X. A conclusão aparece em estudos recentes sobre mobilidade social, renda e desigualdade entre gerações, que vêm chamando atenção de economistas e especialistas em mercado de trabalho.
A pesquisa indica que essa geração — formada por jovens adultos nascidos entre o início dos anos 1980 e meados dos anos 1990 — investiu mais tempo em educação formal, ampliou o acesso ao ensino superior e acumulou mais qualificações acadêmicas em comparação com a geração anterior. No entanto, esse avanço educacional não se traduziu, na mesma proporção, em melhoria de renda, patrimônio ou estabilidade financeira.
Mais estudo, menos retorno financeiro
Um dos principais pontos destacados pelos especialistas é o chamado “descompasso” entre escolaridade e retorno econômico. Em teoria, quanto maior a formação, maiores seriam as chances de melhores salários e qualidade de vida. Na prática, porém, esse padrão não tem se confirmado de forma tão direta para os millennials.
Apesar de terem currículos mais robustos, muitos jovens dessa geração enfrentam salários iniciais mais baixos em relação ao custo de vida atual, além de maior dificuldade para acumular patrimônio, como compra de imóveis e investimentos de longo prazo. Isso cria uma sensação de estagnação financeira, mesmo entre aqueles que conseguiram avançar academicamente.
Pressão do custo de vida e mercado mais competitivo
Economistas apontam que parte dessa diferença está relacionada ao aumento expressivo do custo de vida nas últimas décadas, especialmente em grandes centros urbanos. Moradia, transporte, alimentação e serviços essenciais tiveram alta significativa, o que compromete uma parcela maior da renda dos jovens adultos.
Além disso, o mercado de trabalho passou por transformações importantes, com maior informalidade em alguns setores, crescimento de trabalhos temporários e maior competitividade em áreas que antes garantiam estabilidade. Isso faz com que muitos millennials levem mais tempo para alcançar posições consolidadas na carreira.
Outro fator citado é a entrada mais tardia no mercado de trabalho formal e estável. Com trajetórias profissionais mais longas na formação acadêmica, muitos jovens começam a construir patrimônio mais tarde do que gerações anteriores.
Comparação com a Geração X
A Geração X, formada aproximadamente entre meados dos anos 1960 e início dos anos 1980, alcançou em muitos casos estabilidade financeira mais cedo, em um cenário econômico diferente, com outras condições de acesso à moradia, crédito e emprego formal.
Essa diferença de contexto ajuda a explicar por que, mesmo com mais educação formal, os millennials não conseguiram superar o padrão de vida de seus pais na mesma idade. O contraste entre as duas gerações evidencia mudanças estruturais na economia e no mercado de trabalho ao longo do tempo.
Debate sobre o “retorno da educação”
O cenário também alimenta um debate cada vez mais presente entre especialistas: o chamado “retorno da educação”, ou seja, o quanto o investimento em formação acadêmica realmente se converte em ganhos financeiros ao longo da vida.
Embora a educação continue sendo considerada um dos principais caminhos para ascensão social, os dados sugerem que esse retorno pode estar mais lento ou menos garantido do que em décadas anteriores. Isso levanta discussões sobre a necessidade de políticas públicas, reestruturação do mercado de trabalho e novas formas de inserção profissional para as gerações mais jovens.
Um novo padrão de mobilidade social
A análise geral aponta para uma mudança no padrão tradicional de mobilidade social. Se antes era comum associar mais estudo diretamente a uma vida financeiramente melhor, hoje essa relação parece mais complexa e influenciada por fatores econômicos, sociais e estruturais.
O resultado é uma geração mais qualificada, porém enfrentando maiores desafios para alcançar o mesmo nível de estabilidade e patrimônio que seus pais conquistaram no passado.
Fonte: O Globo
