Mais do que oferecer alimentação, banho ou um lugar para passar o dia, a rede de assistência social de Feira de Santana trabalha para devolver dignidade e criar oportunidades para que pessoas em situação de rua reconstruam suas histórias. O município conta com uma estrutura que envolve acolhimento, acompanhamento psicossocial, encaminhamento para tratamento da dependência química, acesso à saúde, educação e fortalecimento dos vínculos familiares.
Em entrevista, a diretora do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), Polyana Carvalho, explicou como funciona essa rede de atendimento e apresentou um panorama da realidade enfrentada pelo município.
Mais de 9 mil atendimentos
Desde a implantação do Centro POP Rua, Feira de Santana já registrou 9.180 atendimentos. Polyana explica que esse número não representa apenas moradores da cidade.
“É uma situação que já vem de algum tempo, desde que Feira de Santana implantou o Centro POP Rua, que é exatamente o equipamento que atende os direitos das pessoas em situação de rua. Nós temos um registro, desde a abertura do Centro POP, de 9.180 pessoas em situação de rua atendidas.”
Segundo ela, o município recebe pessoas de diferentes regiões por ser um importante entroncamento rodoviário.
“Você pode me perguntar: são todas as pessoas que moram em Feira de Santana? Não. Como a gente é um entroncamento rodoviário, essas pessoas podem vir parar em Feira de Santana, passar um tempo e depois voltar para o município de origem ou seguir para outros lugares.”
Ela acrescenta que, atualmente, o Cadastro Único possui cerca de mil pessoas em situação de rua cadastradas como residentes do município.
“Atualizado no Cadastro Único, atualmente nós temos em média mil cadastros de pessoas que são residentes de Feira de Santana e se declaram pessoas em situação de rua.”
As causas são diversas
Para a diretora, não existe um único fator que leva alguém a viver nas ruas. Cada pessoa possui uma trajetória diferente.
“São vários os fatores que podem levar uma pessoa para a rua. Pode ser a dependência química, pode ser por conta do álcool, que na maioria das vezes aparece com mais frequência. Pode ser problemas familiares também. O abandono familiar acontece muito.”
Mas ela afirma que existem situações que vão além desses fatores.
“A gente percebe que muitas pessoas relatam para os técnicos que viver numa regra em sociedade é muito complicado. Então talvez essas pessoas queiram permanecer na rua justamente por conta do cumprimento das regras que existem dentro da própria casa.”
Centro POP oferece atendimento diário
O principal equipamento da assistência social para essa população é o Centro POP, localizado nas proximidades do Centro de Abastecimento.
Segundo Polyana, o local reúne profissionais de diferentes áreas para prestar um atendimento completo.
“Nós temos uma equipe multidisciplinar para melhor atender essa população. Temos assistentes sociais, psicólogos, pedagogos e profissionais que acolhem essas pessoas.”
Além do atendimento técnico, o espaço oferece serviços básicos.
“Nós temos o café da manhã todos os dias. Como muitos fazem serviços no Centro de Abastecimento, eles vão ao Centro POP, recebem acolhimento, tomam banho, porque lá nós temos banheiro para isso, trocam de roupa e contamos também com um varal solidário para quem chega sem roupas.”
O movimento diário é intenso.
“Hoje a gente atende, em média, entre 60 e 70 pessoas por dia apenas no café da manhã. Esse é praticamente um registro diário do Centro POP.”
Equipe faz busca ativa nos três turnos
Nem todas as pessoas procuram espontaneamente o serviço. Por isso, a Prefeitura mantém uma equipe de abordagem social que atua diariamente.
“Nós temos hoje uma equipe de abordagem que está na rua todos os dias.”
O trabalho acontece durante todo o dia.
“A nossa equipe de abordagem está na rua nos três turnos: manhã, tarde e noite. Quando identifica uma pessoa em situação de rua, ela faz o encaminhamento para o Centro POP, onde é realizada toda a triagem.”
Reconstruindo vínculos familiares
Um dos principais objetivos da assistência social é restabelecer os vínculos familiares sempre que possível.
Quando a pessoa está apenas de passagem por Feira de Santana, ela recebe apoio para retornar.
“Caso essa pessoa esteja em trânsito pela cidade, a gente verifica se ela quer retornar para o município de origem ou para uma cidade onde tenha vínculo familiar.”
Enquanto isso, ela permanece acolhida.
“A gente encaminha para o Centro de Acolhimento Transitório e, através do benefício eventual, compra a passagem para que essa pessoa retorne ao seu município de origem ou ao local onde possui vínculo familiar.”
Para Polyana, esse trabalho é fundamental.
“A gente fortalece que o vínculo familiar sempre tem que ser resgatado. A gente sempre procura religar essa pessoa à família.”
Encaminhamento para tratamento
A diretora também explicou que a assistência social atua quando o usuário manifesta interesse em abandonar a dependência química.
“Quando o indivíduo informa para a gente que é dependente químico e quer entrar em uma comunidade terapêutica, nós fazemos o devido encaminhamento.”
Ela destaca que o acompanhamento vai além da burocracia.
“Nós também levamos essa pessoa até o centro terapêutico para que ela inicie o tratamento.”
Estrutura de acolhimento
Questionada sobre a capacidade da rede, Polyana explicou que o município possui vagas disponíveis.
“O Centro de Acolhimento tem capacidade para 30 pessoas.”
Hoje, segundo ela, a ocupação está abaixo da capacidade.
“Atualmente nós temos cerca de sete pessoas acolhidas. Já tivemos momentos com 30, com 20 e com 10 pessoas. Isso varia bastante.”
Ela explica que muitos usuários permanecem pouco tempo na cidade.
“Como muitos estão apenas em trânsito, logo na triagem identificamos essa situação para providenciar o retorno ao município onde possuem vínculo.”
Acompanhamento continua após o acolhimento
O atendimento não termina quando a pessoa deixa as ruas ou passa pelo Centro POP.
Segundo Polyana, existe um acompanhamento permanente.
“O atendimento é feito de forma bastante atenciosa porque a gente precisa estar interligado com toda a rede.”
Cada usuário possui um histórico registrado.
“Essas pessoas têm ficha no Centro POP, na equipe de abordagem e no Centro de Acolhimento. A gente consegue identificar quanto tempo permaneceu em Feira de Santana, quais atendimentos recebeu, para onde foi encaminhada e todo o percurso dentro da assistência.”
Saúde, educação e parceiros fortalecem a rede
A assistência social trabalha integrada com outros órgãos.
“Se a pessoa apresenta algum problema de saúde, nós fazemos o encaminhamento junto ao Consultório na Rua, que é um grande parceiro da Secretaria Municipal de Saúde.”
Também há encaminhamentos para outras áreas.
“Se a pessoa deseja estudar, fazemos a ligação com a Secretaria de Educação.”
Além disso, organizações da sociedade civil ajudam nesse processo.
“Nós contamos com parceiros como o Consultório na Rua, o Feira Invisível e também movimentos sociais que nos ajudam no resgate dessas pessoas.”
Histórias de recomeço
Apesar das dificuldades, Polyana afirma que muitos atendimentos terminam com finais positivos.
“Nós temos muitos casos de pessoas que conseguiram reconstruir suas vidas.”
Ela cita exemplos.
“Tem pessoas que foram inseridas no mercado de trabalho, participaram de cursos profissionalizantes, foram contempladas pelo Minha Casa, Minha Vida e reconstruíram suas famílias.”
Em outros casos, o retorno para casa representa um novo começo.
“Também temos muitos relatos de pessoas que retornaram ao vínculo familiar e conseguiram reconstruir a própria história.”
Sociedade tem contribuído mais
A diretora observa uma mudança na forma como a população enxerga as pessoas em situação de rua.
“Antigamente a gente sentia uma resistência maior por parte da sociedade.”
Hoje, segundo ela, moradores e comerciantes ajudam no trabalho das equipes.
“Nós recebemos muitas ligações informando que existe uma pessoa em situação de rua precisando de atendimento. A população aciona o plantão social e a equipe de abordagem. Hoje a sociedade é muito contributiva nesse processo.”
Políticas públicas para mudar essa realidade
Polyana afirma que a assistência social busca garantir direitos, mas também criar oportunidades para que as pessoas deixem as ruas.
“Nós trabalhamos muito na perspectiva de retirar esse indivíduo da rua.”
Ela lembra uma orientação constante da secretária de Desenvolvimento Social, Jerusa Sampaio.
“Ela sempre nos diz que a rua não é moradia para ninguém.”
Por isso, o foco é oferecer alternativas.
“As políticas públicas existem para garantir direitos e criar oportunidades para que essa pessoa possa reconstruir sua vida.”
Atendimento humanizado
Segundo a diretora, todas as equipes são orientadas a prestar um atendimento baseado no respeito.
“Hoje as nossas equipes realmente são orientadas a tratar esse indivíduo com mais humanização.”
Ela destaca que esse cuidado faz parte da política pública desenvolvida pela Secretaria.
“A nossa secretária é assistente social de formação e sempre reforça esse olhar humanizado para garantir direitos e promover a reinserção social.”
“Todo ser humano tem direito a uma segunda chance”
Ao encerrar a entrevista, Polyana Carvalho deixou uma reflexão sobre a importância da empatia.
“Eu acredito que todo ser humano tem direito a uma segunda chance.”
Ela reforça que ninguém conhece a história de quem está vivendo nas ruas.
“Talvez a gente não tenha um olhar mais humano para essa população, mas quando conhece a história daquele indivíduo percebe que existem diversos fatores que o levaram até ali.”
E conclui destacando o papel do poder público.
“O que a gente precisa fazer enquanto política pública é inserir novamente esse indivíduo na sociedade, devolver dignidade e fazer com que ele seja protagonista da própria vida.”
