Especialista defende que despoluição, planejamento ambiental e transparência devem anteceder a implantação do empreendimento em Feira de Santana
Projeto desperta expectativas e levanta debate
O projeto do Parque Náutico do Rio Jacuípe, anunciado pela Prefeitura de Feira de Santana, tem despertado expectativas em torno do desenvolvimento econômico, turístico e esportivo do município. A proposta prevê a implantação de uma marina, atracadouros, equipamentos para práticas esportivas, vila gastronômica, arena multiuso e áreas de lazer, com o objetivo de transformar a região em um novo polo de convivência e geração de renda.
Ao mesmo tempo em que a iniciativa é vista como uma oportunidade para impulsionar a economia local, especialistas chamam a atenção para um desafio considerado indispensável: a recuperação ambiental do Rio Jacuípe.
Em entrevista ao programa Dia a Dia News, o economista, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Antônio Rosevaldo, afirmou que o empreendimento tem potencial para transformar a cidade, mas ressaltou que qualquer projeto de exploração turística e esportiva depende, antes de tudo, da despoluição do rio.
“O início de tudo é despoluir o rio”
Durante a entrevista, Antônio Rosevaldo lembrou que o Jacuípe já desempenhou importante papel econômico para comunidades da região. Segundo ele, o rio era utilizado para pesca, criação de peixes e até captura de camarão de água doce, atividades que garantiam renda para muitas famílias.
Com o crescimento urbano e o lançamento de esgoto sem tratamento, esse cenário mudou completamente.
“O início de tudo é despoluir o rio. Enquanto isso não acontecer, não adianta pensar em marina, jet ski ou qualquer outra atividade que dependa do contato com a água. Um rio poluído inviabiliza qualquer investimento sustentável”, afirmou.
Segundo o professor, atualmente o rio já não oferece as mesmas condições para a pesca, reflexo direto da degradação ambiental acumulada ao longo das últimas décadas.
Potencial econômico vai além do parque
Na avaliação do especialista, a recuperação do Jacuípe pode representar muito mais do que a implantação de um parque náutico.
Ele acredita que um rio ambientalmente recuperado permitirá o surgimento de novas oportunidades econômicas, incluindo piscicultura, irrigação, fortalecimento da pesca artesanal, instalação de bares e restaurantes às margens do rio, além do crescimento do turismo.
Para exemplificar esse potencial, Antônio Rosevaldo citou cidades que conseguiram transformar seus rios em importantes espaços de lazer e desenvolvimento econômico, como Juazeiro, Petrolina, Porto Alegre e Bom Jesus da Lapa.
“Feira de Santana tem todas as condições de aproveitar melhor esse patrimônio natural. Um rio recuperado pode receber competições esportivas, atividades de lazer, empreendimentos turísticos e gerar emprego e renda para a população”, destacou.
Esportes e turismo podem impulsionar a região
Outro aspecto destacado durante a entrevista foi a possibilidade de utilização do Rio Jacuípe para práticas esportivas.
Segundo Antônio Rosevaldo, a própria característica das águas permite imaginar a realização de competições de canoagem, remo e outras modalidades náuticas, desde que haja recuperação da qualidade ambiental.
Ele ressaltou que diversas cidades brasileiras utilizam seus rios como espaços permanentes para esporte e turismo, realidade que, na avaliação dele, também pode ser construída em Feira de Santana.
Planejamento ambiental deve vir antes das obras
Apesar de considerar positiva a proposta do Parque Náutico, o especialista defendeu que o município apresente, antes da execução do projeto, estudos técnicos detalhados sobre a recuperação ambiental do rio.
Entre os pontos que considera essenciais estão a dragagem, a recuperação das margens, a análise da profundidade do leito, a recomposição da vegetação ciliar e a implantação de um sistema eficiente de esgotamento sanitário.
Segundo ele, não basta construir restaurantes, marinas e equipamentos de lazer se os empreendimentos continuarem despejando resíduos sem o tratamento adequado.
“Não podemos repetir os erros do passado. O desenvolvimento precisa caminhar junto com a preservação ambiental”, afirmou.
Transparência sobre os custos
Durante a entrevista, Antônio Rosevaldo também defendeu que a população tenha acesso aos estudos técnicos e ao planejamento financeiro da recuperação do Rio Jacuípe.
Na avaliação dele, o investimento necessário para despoluir o rio pode ser elevado e até superar os custos da implantação do Parque Náutico.
“É preciso saber quanto custa recuperar o rio e quem será responsável por esse investimento. Antes de discutir a construção do parque, é necessário apresentar esse planejamento à população”, disse.
Recuperação ambiental vai além da limpeza da água
O professor destacou ainda que revitalizar o Rio Jacuípe significa recuperar todo o equilíbrio ecológico da região.
Segundo ele, a preservação da fauna e da flora é indispensável para garantir a sustentabilidade do ecossistema. Durante a entrevista, utilizou como exemplo a importância dos predadores naturais no controle das espécies, mostrando que qualquer alteração nesse equilíbrio pode provocar impactos em toda a cadeia ambiental.
Para o especialista, a recuperação do rio deve contemplar não apenas a qualidade da água, mas também a proteção da vegetação, da biodiversidade e das áreas de preservação permanente.
Desenvolvimento sustentável
Ao final da entrevista, Antônio Rosevaldo reiterou que é favorável ao Parque Náutico e acredita que o empreendimento pode representar um marco para Feira de Santana.
No entanto, reforçou que o projeto somente alcançará seus objetivos se for acompanhado por um amplo programa de recuperação ambiental, com planejamento, licenciamento, investimentos e transparência.
“O Parque Náutico pode transformar a relação de Feira de Santana com o Rio Jacuípe. Mas isso só será possível se o rio voltar a ser saudável. Desenvolvimento e preservação precisam caminhar juntos”, concluiu.