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Família e rede de apoio são importantes no enfrentamento da dependência química

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Se compreender a dependência química exige olhar para a história e o sofrimento do indivíduo, o processo de cuidado também envolve as pessoas que estão ao redor. Família, amigos e outras pessoas de confiança podem exercer um papel importante na busca por tratamento e na construção de uma rede de apoio.

O assunto foi discutido no Dia a Dia News, em entrevista com Lucas Ongarato, que atua na abordagem da psicanálise. Na primeira parte da conversa, ele explicou como a relação com a droga pode evoluir até a perda de controle. Na sequência, falou sobre a participação da família, tratamento, internação, redução de danos e os caminhos para a recuperação.

A família pode perceber os sinais

As mudanças de comportamento podem ser percebidas por pessoas próximas antes mesmo que o próprio indivíduo consiga reconhecer completamente o problema.

Por isso, observar a rotina pode ser importante.

Isolamento, alterações de humor, dificuldades financeiras, afastamento de amigos e familiares e mudanças na forma de se relacionar podem ser sinais de alerta.

Entretanto, esses sinais não devem ser utilizados para rotular ou condenar a pessoa. Eles podem servir como motivo para uma conversa e para a busca de orientação profissional.

Como a família pode ajudar?

Ao falar sobre tratamento, Lucas destacou que a família ou outras pessoas próximas podem contribuir para que o indivíduo tenha acesso à ajuda.

Segundo ele, a rede de apoio pode envolver diferentes pessoas.

“Falar com o melhor amigo, falar com o irmão, falar com o primo, falar, se tiver por algum acaso, uma rede de apoio.”

A participação da família não significa apenas exigir que a pessoa pare de usar. É necessário pensar em estratégias de cuidado e enfrentamento.

“Bora criar estratégias de enfrentamento.”

A ideia é que o indivíduo não fique sozinho diante do problema.

O tratamento pode envolver diferentes profissionais

Lucas explicou que existem diferentes possibilidades de tratamento e que elas devem ser avaliadas de acordo com cada situação.

Ele citou o acompanhamento psicológico e o tratamento medicamentoso como possibilidades dentro de uma estratégia de cuidado.

“Bora fazer um trabalho medicamentoso junto a um trabalho psicológico.”

A avaliação psiquiátrica também pode fazer parte desse processo, especialmente quando existe necessidade de acompanhamento médico.

O tratamento, portanto, não deve ser visto como uma fórmula única. Cada pessoa apresenta uma história e necessidades diferentes.

Internação não é a única resposta

Durante a entrevista, Lucas também falou sobre a internação e trouxe sua experiência profissional em clínicas de reabilitação.

“Eu, particularmente, como psicólogo, psicanalista, já trabalhei em clínica de reabilitação.”

Ele afirmou que não considera a internação, isoladamente, como solução para todos os casos.

“Eu já vi pessoas sendo internadas 20, 25 vezes, 30 vezes.”

A partir dessa experiência, Lucas questionou a repetição de internações sem que outros aspectos relacionados ao uso sejam trabalhados.

Para ele, é necessário compreender o que leva a pessoa a retornar ao consumo e construir estratégias que possam ajudá-la fora daquele ambiente.

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Em casos extremos, a internação pode ser considerada

Apesar da crítica ao uso indiscriminado da internação, Lucas reconheceu que existem situações mais graves em que ela pode ser necessária.

“Em um caso extremo onde a pessoa já está pegando coisas em casa, vendendo e tal, aí sim é um caso diferente.”

A avaliação, portanto, precisa considerar a gravidade da situação, os riscos envolvidos e as necessidades daquele indivíduo.

A definição da melhor estratégia de cuidado deve ser feita por profissionais habilitados, considerando as condições de cada caso.

Redução de danos

Outro ponto discutido foi a redução de danos.

Lucas destacou que, em casos de uso intenso, a interrupção da substância não deve ser feita de maneira irresponsável ou sem acompanhamento.

“Não se tira droga de uma hora pra outra quando você já está no uso exacerbado.”

Segundo ele, em determinadas situações, pode ser necessário trabalhar com uma redução gradual.

“Então, ir diminuindo pouco a pouco.”

O profissional também fez uma comparação com medicamentos e explicou que determinadas substâncias não devem ser interrompidas abruptamente sem orientação.

“Nada se tira de uma hora pra outra.”

A condução, portanto, deve ser individualizada e realizada com acompanhamento profissional.

A dependência não deve ser reduzida à falta de força de vontade

A entrevista reforçou que a dependência química é uma questão complexa e que não pode ser explicada simplesmente como uma escolha ou uma falta de determinação.

A pessoa pode reconhecer os prejuízos, desejar interromper o consumo e, ainda assim, não conseguir fazer isso sozinha.

Por trás do comportamento podem existir angústias, conflitos, questões relacionadas à história de vida e outras formas de sofrimento.

Compreender esses aspectos não significa ignorar os prejuízos causados pelo uso. Significa buscar uma forma mais ampla de enxergar o problema e encontrar caminhos de cuidado.

O papel da rede de apoio

A presença de pessoas de confiança pode ser fundamental para que o indivíduo não enfrente a dependência completamente sozinho.

Familiares, amigos e outras pessoas próximas podem ajudar na identificação de mudanças, incentivar a busca por tratamento e oferecer suporte durante o processo.

Mas também é importante que essa rede tenha orientação para lidar com a situação sem transformar o cotidiano em uma sequência de cobranças e conflitos.

O tratamento não termina na interrupção do consumo

O processo de recuperação não se resume necessariamente ao momento em que a pessoa deixa de consumir uma substância.

Também é necessário reconstruir aspectos da vida que foram afetados pela dependência.

Relacionamentos familiares, amizades, trabalho, rotina, autoestima e projetos pessoais podem precisar ser retomados ou reconstruídos ao longo do tratamento.

Nesse sentido, o cuidado precisa considerar não apenas o consumo, mas também a vida que existe ao redor dele.

Recuperação exige novas formas de lidar com o sofrimento

Se a substância passou a exercer a função de aliviar determinadas angústias, parte do processo de recuperação envolve encontrar outras formas de lidar com essas emoções.

É nesse momento que o acompanhamento psicológico pode contribuir para que o indivíduo compreenda melhor seus conflitos e desenvolva estratégias diferentes para enfrentar situações difíceis.

A recuperação, portanto, pode ser um processo gradual e individual.

A recaída também precisa ser compreendida

Outro tema que deverá ser aprofundado na continuidade da conversa é a recaída.

O retorno ao uso pode fazer parte da trajetória de algumas pessoas em tratamento e precisa ser avaliado dentro do contexto de cada caso.

Mais do que simplesmente interpretar a recaída como fracasso, é importante compreender o que aconteceu, quais fatores contribuíram para o retorno ao consumo e que estratégias podem ser fortalecidas a partir daquele momento.

Reconstrução da vida

A dependência química pode provocar perdas em diferentes áreas. Por isso, a recuperação também envolve reconstrução.

Retomar vínculos familiares, reorganizar a rotina, recuperar projetos pessoais, buscar novas formas de prazer e fortalecer a rede de apoio são alguns dos desafios que podem surgir nesse caminho.

O objetivo não é apenas afastar a substância, mas possibilitar que a pessoa consiga construir uma vida na qual ela não ocupe mais o centro.

Pedir ajuda é um passo importante

Para quem enfrenta uma relação de dependência, admitir que precisa de ajuda pode ser difícil. Vergonha, medo de julgamento e tentativas anteriores que não deram certo podem dificultar a procura por atendimento.

Ainda assim, conversar com uma pessoa de confiança e buscar acompanhamento profissional pode representar um primeiro passo.

Como destacou Lucas durante a entrevista, a pessoa pode querer parar e, mesmo assim, não conseguir sozinha. Por isso, o cuidado precisa considerar a complexidade da dependência e as necessidades individuais.

Uma questão que precisa ser tratada com cuidado

A conversa no Dia a Dia News mostrou que falar sobre toxicomania é também falar sobre sofrimento, relações familiares, saúde mental e possibilidades de recuperação.

A dependência química não pode ser compreendida apenas pela presença da droga. É preciso olhar para o sujeito, sua história, seus conflitos e o lugar que aquela substância passou a ocupar em sua vida.

A família e a rede de apoio podem contribuir para a busca por ajuda, enquanto o tratamento deve ser construído de acordo com as necessidades de cada pessoa.

Lucas Ongarato | Foto: Fernanda Martins

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