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Toxicomania: dependência química envolve sofrimento e perda de controle

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A dependência química é um tema que atravessa diferentes setores da sociedade e que, muitas vezes, ainda é tratado a partir do julgamento, da culpa ou da ideia de que basta ter força de vontade para interromper o consumo. Mas, por trás de uma relação de dependência, existe uma pessoa, uma história de vida e, muitas vezes, um sofrimento que precisa ser compreendido.

Quando o consumo deixa de ser eventual e passa a ocupar um espaço central na vida de alguém, afetando relações familiares, amizades, trabalho, saúde, rotina e projetos para o futuro, a situação exige atenção e cuidado.

O assunto foi discutido no Dia a Dia News, em entrevista com Lucas Ongarato, que atua na abordagem da psicanálise. Durante a conversa, ele falou sobre toxicomania, dependência química, sofrimento psíquico e a relação que o indivíduo desenvolve com a substância.

O que é toxicomania?

Logo no início da entrevista, Lucas explicou que é necessário diferenciar o uso eventual de uma substância de uma relação de dependência.

“A diferenciação do uso recreativo ao uso de dependência clínica é muito grande.”

Segundo ele, no chamado uso recreativo, a pessoa consegue manter determinado controle sobre o consumo e não permite que a substância passe a ocupar o centro da sua vida.

“O uso recreativo é o indivíduo que consegue ter o controle de usar apenas quando ele consegue realmente ter o controle de uma saída, de um momento de diversão.”

Lucas ressaltou, porém, que isso não significa que o uso recreativo seja isento de riscos. Ao falar sobre dependência, ele explicou que o cenário muda quando a substância começa a interferir diretamente na vida do indivíduo.

“A partir do momento que ela começa a virar uma dependência química, a toxicomania […] começa a interferir na rotina do indivíduo, começa a interferir no humor, começa a interferir nas suas questões de atividade do dia a dia, motivação e conflitos familiares.”

O profissional também chamou atenção para o fato de que a dependência não está relacionada somente às drogas consideradas ilícitas.

“Vou tocar aqui no assunto do álcool, por exemplo, que para mim é uma das drogas mais perigosas e inteligentes na sociedade.”

Quando a substância passa a ser o centro da vida

Um dos principais pontos destacados por Lucas foi a mudança de prioridade que pode acontecer quando a dependência se instala.

Segundo ele, a substância pode deixar de ser apenas um elemento presente na rotina e passar a ocupar um lugar central na vida do indivíduo.

“O seu objeto de prazer realmente vira aquela substância.”

Essa mudança pode afetar diretamente os relacionamentos.

“O sujeito deixa de estar perto da família, deixa de estar perto da parceira que ama, de estar perto daquele melhor amigo, pra estar perto da substância, do objeto de droga.”

Na prática, isso significa que atividades e relações que antes produziam satisfação podem perder espaço para o consumo.

Lucas exemplificou:

“Deixa de fazer uma relação sexual, de estar ali, de sair para assistir um filme, para se tornar um momento de isolamento para apenas ficar com o objeto de amor.”

O isolamento, portanto, pode fazer parte desse processo de afastamento das relações e de aproximação cada vez maior com a substância.

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A relação de dependência pode se transformar em um ciclo

Para explicar o funcionamento dessa relação, Lucas utilizou conceitos da psicanálise e falou sobre o ciclo de repetição.

Segundo ele, existe uma busca constante pela sensação proporcionada pela substância e, ao mesmo tempo, uma repetição de um comportamento que pode provocar cada vez mais prejuízos.

A pessoa utiliza, sente determinado efeito, posteriormente enfrenta as consequências e, ainda assim, pode voltar a consumir.

Esse ciclo pode se tornar cada vez mais difícil de interromper.

Por que algumas pessoas desenvolvem dependência e outras não?

Uma das perguntas feitas durante a entrevista foi justamente por que duas pessoas podem experimentar a mesma substância e desenvolver relações completamente diferentes com ela.

Lucas contou um exemplo de dois pacientes que chegaram até ele com histórias distintas.

“Um que infelizmente chegou a virar um dependente químico e o outro que incentivou, um amigo do outro, a fazer o uso da substância.”

Segundo ele, enquanto uma das pessoas manteve uma relação considerada recreativa, a outra acabou desenvolvendo dependência.

“Esse outro amigo que começou a usar substância não soube lidar da mesma maneira que o outro fez.”

A explicação, segundo Lucas, passa por diferentes fatores.

“Tem várias questões fisiológicas. Agora vem muita questão da história de vida do indivíduo.”

Para compreender por que uma pessoa desenvolve dependência, é necessário, portanto, olhar para a trajetória daquele indivíduo.

“Como foi a história de vida de cada indivíduo? O que está faltando?”

A história de vida influencia a relação com a droga

Lucas destacou que cada pessoa possui uma história diferente e que experiências acumuladas ao longo da vida podem influenciar a forma como ela lida com determinadas situações.

“Todos nós temos uma falta inerente ao ser humano que está tentando preencher a todo instante.”

A partir dessa perspectiva, a substância pode assumir diferentes funções para diferentes pessoas.

Para alguns indivíduos, o consumo pode representar uma tentativa de lidar com determinadas emoções ou situações que provocam sofrimento.

“Existe um histórico de vida, aquele que inconscientemente nos traz muita dor, sem a gente perceber.”

Por isso, segundo o profissional, não é possível explicar a dependência apenas pela presença da droga. É preciso compreender também o que aquela substância representa para aquele sujeito.

A droga como tentativa de aliviar a dor emocional

Durante a entrevista, Lucas comparou a função da droga a uma tentativa de eliminar momentaneamente uma sensação dolorosa.

“Quando a gente vai a uma farmácia comprar um remédio para dor de cabeça, o que o remédio faz? Ele vai passar a dor de cabeça.”

A partir dessa comparação, ele explicou como a substância pode funcionar para algumas pessoas como uma forma de aliviar emoções difíceis.

“A droga, a ilícita, vai anular todas as ansiedades e angústias daquele momento que nos fazem sentir dor emocional.”

O problema é que o alívio provocado pelo consumo não necessariamente resolve a origem do sofrimento.

A pessoa pode voltar a sentir a mesma angústia e, consequentemente, buscar novamente a substância.

O vazio que a pessoa tenta preencher

Durante o bate-papo, foi levantada a possibilidade de a pessoa recorrer à droga para tentar preencher um espaço vazio.

Lucas concordou com essa interpretação, mas destacou que o resultado acaba sendo contrário ao que o indivíduo busca.

Segundo ele, a substância pode proporcionar uma sensação momentânea de preenchimento ou alívio, mas, com a repetição, pode aprofundar a própria falta.

Ou seja, aquilo que inicialmente parece oferecer uma solução pode acabar alimentando o ciclo da dependência.

A droga como um relacionamento

Para explicar a evolução desse processo, Lucas utilizou uma comparação com um relacionamento afetivo.

“Tudo começa pouco a pouco. Começa a ficar com a droga, vamos falar assim, como o indivíduo começa a ficar com a pessoa.”

Segundo ele, no início existe uma sensação de prazer e de descoberta.

“Tudo muito gostoso no começo. É um refúgio, tudo uma maravilha, tudo muito gostoso.”

Mas, conforme o consumo aumenta, começam a surgir conflitos.

Lucas explicou que a pessoa pode chegar a uma situação semelhante à de alguém que deseja terminar um relacionamento, mas não consegue se afastar.

“Eu quero sair daquele movimento, eu quero sair daquela… Eu não quero usar, mas eu não consigo deixar de usar.”

A comparação ajuda a compreender o quanto a dependência pode envolver sentimentos contraditórios.

Quando a pessoa quer parar, mas não consegue

Um dos pontos mais importantes da entrevista foi justamente a diferença entre querer parar e conseguir parar.

Segundo Lucas, a dependência pode ser acompanhada por fissura e compulsão, dificultando a interrupção do consumo.

“Você quer deixar de usar, mas você não consegue.”

Para o profissional, nesse estágio a pessoa já não consegue estabelecer uma relação de controle com a substância.

“É tão forte a fissura, a compulsão, os movimentos impulsionais, que você não consegue.”

A consequência é uma inversão da relação.

“Quando você pensa que está além do controle, você está completamente fora do controle.”

E Lucas resumiu esse processo:

“Ao invés de você estar usando a droga, ela está te usando.”

O consumo pode funcionar como fuga

A discussão também abordou a possibilidade de a droga funcionar como uma fuga diante de determinadas dificuldades emocionais.

A pessoa pode recorrer à substância para evitar entrar em contato com sentimentos que provocam sofrimento. Nesse sentido, a droga pode representar um refúgio temporário.

Lucas destacou que essa sensação pode parecer positiva inicialmente, mas os prejuízos começam a aparecer conforme a dependência avança.

“Você começa a perceber que realmente está trazendo muitos malefícios para você.”

Entre os prejuízos citados estão problemas financeiros, dificuldades nos relacionamentos e mudanças na convivência social.

“Financeiro, relacionamentos, amizades e tudo mais. A relação em termos de mundo também, junto à sociedade.”

Sofrimento emocional acompanha a dependência

Lucas também foi questionado sobre a existência de sofrimento por trás do comportamento compulsivo.

A resposta foi direta:

“Existe, sim.”

Ele explicou que a pessoa pode apresentar mudanças no comportamento e começar a se afastar socialmente.

“A pessoa vai começando a ter um comportamento mais de isolamento social.”

A família pode perceber que o indivíduo já não se comporta da mesma maneira que antes.

“Quando você percebe que a pessoa está […] se tornando dependente químico, vê o comportamento de isolamento.”

Também podem aparecer mudanças relacionadas às finanças e ao comportamento.

“Perceber comportamentos de poder financeiro começaram a diminuir.”

Alterações de humor também podem ser observadas.

“Um pouco de humor mais agressivo diante de questões que não tinha antes.”

A vergonha pode dificultar o pedido de ajuda

Outro aspecto abordado por Lucas foi a vergonha.

Segundo ele, mesmo quando existe o desejo de interromper o consumo, a pessoa pode ter dificuldade para admitir que precisa de ajuda.

“O indivíduo, às vezes, quer parar, sim, mas ele não consegue.”

E, junto a isso, pode existir vergonha.

“Há muita vergonha por conta disso ao chegar no corpo de pedir ajuda.”

Esse sentimento pode afastar ainda mais o indivíduo de sua rede de apoio e atrasar a procura por tratamento.

Por isso, o acolhimento pode ser importante para que a pessoa consiga falar sobre o que está vivendo.

Lucas Ongarato | Foto: Fernanda Martins

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