Inflação ainda pesa no bolso e muda hábitos de consumo em Feira de Santana

Consumidor sente os preços mesmo com desaceleração

A inflação continua sendo uma preocupação para os consumidores, principalmente na hora de fazer as compras do mês e perceber que o dinheiro não rende como antes. Mesmo quando os índices oficiais apontam uma desaceleração, alguns produtos e serviços continuam pesando no orçamento das famílias.

O assunto foi discutido no programa Dia a Dia News com o economista e professor Antônio Rosevaldo, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Segundo ele, parte da diferença entre a inflação divulgada oficialmente e aquilo que o consumidor sente no dia a dia está relacionada à forma como os preços são calculados e ao comportamento diante das altas e baixas dos produtos.

O professor explicou que a inflação é calculada a partir de uma média dos preços e que nem todos os produtos apresentam aumento ao mesmo tempo.

“Há produtos que estão em alta e produtos que estão em baixa”, explicou o economista, destacando que a redução de preços de alguns itens também influencia o resultado final da inflação.

Açúcar, arroz e café tiveram redução

Antônio Rosevaldo citou produtos presentes na alimentação das famílias para mostrar como os preços podem variar ao longo do tempo.

Segundo ele, o açúcar, que no ano passado podia ser encontrado por valores entre quatro e quatro reais e cinquenta o quilo, atualmente chega a custar cerca de três reais e cinquenta.

O arroz também apresentou redução. O produto, que já chegou a custar entre cinco e seis reais, atualmente pode ser encontrado por aproximadamente quatro reais e dezessete centavos.

O economista lembrou ainda do café, que esteve entre os produtos que mais chamaram atenção dos consumidores por causa das altas anteriores.

“Todo mundo estava reclamando do preço do café. Agora, o café está embaixo e ninguém fala nada”, afirmou.

Para ele, esse comportamento ajuda a explicar por que muitas vezes existe a sensação de que a inflação continua elevada mesmo quando o índice geral apresenta estabilidade.

“Se tem produtos que estão caindo de preço, isso vai puxar o índice inflacionário para baixo. Por outro lado, quando tem produtos que sobem o preço, isso puxa a taxa de inflação para alto”, explicou.

Clima também influencia os preços

O professor destacou que fatores climáticos continuam tendo forte influência sobre os preços dos alimentos. Produtos agrícolas podem sofrer grandes variações de preço dependendo das condições das plantações.

Ele citou o tomate como exemplo de produto que pode contribuir para aumentar ou reduzir a pressão sobre a inflação.

“O tomate ou ele é vilão ou ele é mocinho na história”, afirmou, explicando que uma alta significativa no preço pode pressionar o índice, enquanto uma redução ajuda a diminuir a inflação.

Segundo o economista, alimentação e serviços continuam tendo influência importante sobre o comportamento dos preços.

Consumidor está mudando os hábitos de compra

Com os preços variando cada vez mais, o consumidor também passou a pesquisar mais antes de comprar.

Antônio Rosevaldo afirmou que a tecnologia tem ajudado nesse processo e que aplicativos de comparação de preços permitem que as pessoas saibam quanto vão pagar antes mesmo de sair de casa.

Ele citou o aplicativo Preço da Hora, do Governo da Bahia, como uma ferramenta que utiliza para pesquisar preços.

“Eu vou comprar um produto de medicamento, por exemplo. Eu uso muito medicamento de uso contínuo. Antes de sair para a rua para comprar, eu uso um aplicativo do Governo do Estado da Bahia chamado Preço da Hora”, relatou.

Segundo ele, basta informar o produto desejado para verificar onde ele está sendo vendido mais barato.

“Ele vai me dar onde tem mais barato”, explicou.

Para o professor, esse tipo de ferramenta está ajudando a formar um novo perfil de consumidor.

“Esse comportamento tem formado o novo consumidor do século XXI. Ele sai de casa sabendo o preço que ele vai pagar pela mercadoria e onde ele vai encontrar”, afirmou.

Marcas tradicionais podem pesar mais no bolso

Outra mudança observada é a disposição dos consumidores em trocar marcas tradicionais por produtos mais baratos.

Segundo Antônio Rosevaldo, quem mantém preferência por uma marca específica pode acabar pagando mais caro por essa escolha.

“Se você tem gosto apurado e não resolve substituir, você vai pagar mais caro pelo seu gosto. Gosto não se discute, mas se paga mais caro”, afirmou.

O economista explicou que grandes fabricantes, em alguns casos, trabalham com diferentes marcas dentro do mesmo segmento.

“Às vezes, o mesmo fabricante daquela marca famosa faz muito isso. Ele lança uma marca secundária que é a mesma marca, só não tem a marca tradicional”, disse.

Para ele, a diferença pode estar principalmente na embalagem e na marca conhecida pelo consumidor.

“É o mesmo produto, só muda a embalagem e compra mais barato”, afirmou.

O professor também criticou o comportamento de consumidores que mantêm determinada marca mesmo quando existem alternativas mais acessíveis.

“As pessoas não abrem mão da marca e, por isso, elas acabam pagando mais caro”, explicou.

Substituição de alimentos ajuda a economizar

A possibilidade de substituir produtos também aparece na alimentação. O professor citou as proteínas animais como exemplo.

Quando a carne bovina aumenta de preço, o consumidor pode procurar outras alternativas, como frango, carne suína ou peixe.

Segundo ele, essa mudança acontece justamente porque o consumidor procura formas de preservar o orçamento.

“Você já observou que o frango fica sempre ali no açougue, a carne e o bovino? Se o peixe fica logo depois? Aquilo é porque é um comportamento do consumidor”, explicou.

E completou: “A carne subiu de preço? Ele olha para o frango e diz assim: olha, vou comprar frango, vou comprar suíno”.

Feira livre nem sempre representa economia

Questionado sobre a possibilidade de economizar comprando em feiras livres, Antônio Rosevaldo afirmou que os levantamentos realizados pela universidade trouxeram um resultado diferente do que muitas pessoas imaginam.

“Eu achava isso, Fernanda. Eu, sinceramente, achava isso também”, disse.

Segundo o professor, a análise dos preços mostrou que nem sempre a feira livre é a opção mais barata.

“Você consegue comprar em outros estabelecimentos, supermercados, por exemplo. Eles conseguem oferecer produtos de feira lá dentro”, explicou.

A conclusão, portanto, é que o consumidor precisa pesquisar e comparar os preços antes de escolher onde comprar.

Famílias de baixa renda são as mais afetadas

O impacto da inflação é ainda maior para as famílias de baixa renda, principalmente quando os aumentos acontecem nos alimentos.

Antônio Rosevaldo explicou que, quando os preços sobem, uma parcela maior do orçamento familiar precisa ser destinada às compras básicas.

“A partir do momento que o preço dos alimentos pressiona, o gasto do orçamento familiar também é pressionado”, afirmou.

Segundo ele, isso pode obrigar as famílias a cortar produtos da lista de compras.

“A subida do preço de alimentos pressiona o orçamento familiar, principalmente da família de baixa renda”, destacou.

O professor explicou ainda que famílias com rendas mais altas conseguem absorver melhor determinados aumentos, enquanto as famílias de baixa renda têm menos margem para fazer ajustes.

“Quem mais sofre com o alto preço dos alimentos é a família de baixa renda”, afirmou.

Preocupação com os próximos meses

Ao analisar o futuro dos preços, o economista demonstrou preocupação com possíveis alterações climáticas que podem afetar a produção de alimentos.

Segundo ele, mudanças na distribuição das chuvas podem provocar desequilíbrios na produção agrícola e, consequentemente, aumentar os preços.

“Vai ser seca onde tem chuva, vai ser chuva onde tem seca e isso vai desequilibrar as plantações e pode ocorrer realmente um aumento de preço”, alertou.

O professor afirmou que determinados produtos podem ser mais afetados por essas mudanças, principalmente aqueles cuja produção depende diretamente das condições climáticas.

Feira de Santana tem vantagem pela localização

Apesar das preocupações com a produção agrícola, Feira de Santana possui uma característica que pode ajudar a reduzir os impactos de eventuais problemas de abastecimento.

Antônio Rosevaldo destacou a localização estratégica do município e sua importância como entroncamento rodoviário.

“Feira de Santana tem um ponto geográfico muito importante. É um entroncamento rodoviário”, explicou.

Segundo ele, essa característica facilita a busca por produtos em diferentes regiões.

“Se o tomate está caro, eu busco em outro lugar. Se não tem, eu trago de Sergipe”, exemplificou.

O mesmo ocorre com outros alimentos, como a laranja, que pode chegar de diferentes áreas produtoras.

Além disso, Feira de Santana está próxima de regiões que produzem hortaliças e outros alimentos.

“Tem produtos aqui produzidos muito próximos da gente. Pitanga, limão, as hortaliças, alface, produtos produzidos praticamente dentro de Feira de Santana”, afirmou.

Para o professor, essa facilidade de abastecimento pode fazer com que a cidade sofra menos com determinadas oscilações de preços.

Inflação oficial e inflação sentida no dia a dia

No encerramento da entrevista, Antônio Rosevaldo explicou que existe uma diferença entre a inflação calculada pelos índices oficiais e a inflação percebida pela população.

Segundo ele, o consumidor costuma associar diretamente a inflação ao preço dos alimentos e das bebidas.

“A população justamente associa a inflação à inflação de preços de alimentos e bebidas, que é um subgrupo da inflação calculada pelo governo”, explicou.

O professor lembrou que os índices oficiais consideram diversos outros itens, como transporte, passagens aéreas, energia, combustíveis e serviços.

“A inflação é sempre associada a preço de alimentos. Então, quando os alimentos sobem, acontece isso”, afirmou.

Para ele, essa diferença de percepção explica por que uma pessoa pode ouvir que a inflação está controlada e, ainda assim, chegar ao supermercado e perceber que determinados produtos continuam caros.

No dia a dia, portanto, o consumidor precisa considerar não apenas o índice geral de inflação, mas também os produtos que têm maior peso em seu próprio orçamento.

A recomendação que fica é pesquisar preços, comparar estabelecimentos, utilizar ferramentas de consulta e, quando possível, substituir marcas e produtos por alternativas mais acessíveis.

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