Toda cidade carrega histórias que nem sempre estão registradas nos livros. Elas permanecem nas ruas, nas festas, nas tradições, nos personagens e, principalmente, na memória de quem viveu e ajudou a construir cada capítulo dessa trajetória. Em Feira de Santana, que completa 193 anos de emancipação política neste 18 de setembro, conhecer o passado também é uma forma de compreender a cidade que existe hoje e pensar nos caminhos para o futuro.
Em entrevista ao Dia a Dia News, a professora e historiadora Márcia Suely destacou a importância da data e falou sobre aspectos da história de Feira de Santana que ainda precisam ser mais conhecidos e valorizados pela população.
18 de setembro e a história de Feira de Santana
De acordo com a historiadora, o 18 de setembro representa um momento importante na trajetória de emancipação do município e está relacionado ao reconhecimento de Feira de Santana como vila.
“É uma data importante para a cidade, porque é quando a cidade é reconhecida como Vila Comercial de Santana. Ela cria a independência dela de São José da Cidade da Barroca nesse período. Então, por isso que o dia 18 ficou caracterizado como a data do aniversário da cidade.”
A data, portanto, não representa apenas uma comemoração no calendário. Ela remete a um processo histórico que ajudou a estabelecer a autonomia e a formação do município.
Histórias que ainda precisam ser conhecidas
Ao falar sobre episódios pouco conhecidos da história feirense, Márcia Suely chama atenção para diferentes períodos que, segundo ela, merecem ser mais explorados e apresentados às novas gerações.
Entre eles está o período da ditadura militar e também as décadas de 1940 e 1950, quando Feira de Santana passou por importantes processos de organização e transformação.
“Tem tantas, né? Eu acho que, por exemplo, o período da ditadura militar em Feira de Santana é pouco falado e teve muita coisa na cidade. A década de 40 e de 50, que é quando a cidade começa um processo de organização, também era preciso se falar mais.”
Para a historiadora, conhecer esses períodos também ajuda a população a compreender como a cidade chegou à configuração que apresenta atualmente.
Uma cidade de chegadas
Um dos aspectos destacados por Márcia Suely é a característica de Feira de Santana como uma cidade formada também por pessoas que chegaram de diferentes lugares e acabaram permanecendo no município.
Essa movimentação populacional está relacionada à posição estratégica da cidade, às oportunidades de trabalho, ao comércio e também à oferta de educação.
“A gente vive numa cidade em que boa parte do contingente populacional dela é de fora. Então, é uma cidade de chegadas.”
Segundo a historiadora, esse processo ganhou força especialmente a partir da década de 1960, quando questões relacionadas à seca em estados próximos contribuíram para o deslocamento de populações.
“É um crescimento que a gente nota na década de 1960, que é quando começa mesmo a ter essa explosão populacional por conta das questões da seca nos estados próximos da Bahia.”
Feira, por sua localização e pela força de suas atividades econômicas, acabou se tornando um ponto de atração para essas pessoas.
“E Feira, como é uma cidade de passagem, vai atrair muita gente que aqui mesmo permanece.”

A cidade encruzilhada e as trocas culturais
A localização geográfica de Feira de Santana também exerce papel importante na formação da identidade do município. A cidade é frequentemente associada à ideia de uma encruzilhada, justamente por ser atravessada por importantes vias e funcionar historicamente como ponto de circulação.
Para Márcia Suely, essa característica não influencia apenas a economia, mas também a cultura.
“Feira é uma cidade que alguns chamam de cidade encruzilhada, porque ela é cortada por vias rodoviárias.”
A circulação de pessoas faz com que diferentes costumes, tradições e modos de vida cheguem ao município.
“Não só para o comércio, para a economia, mas também para as trocas culturais.”
A historiadora explica que essas trocas podem ser percebidas no cotidiano.
“À medida que essas populações chegam na cidade, à medida que circulam pela cidade ou pelas rodovias, trazem também os costumes, os modos, o tipo da cultura que é daquele estado que vem para Feira de Santana.”
Por isso, caminhar pelas ruas da cidade também pode ser uma forma de perceber a diversidade que foi sendo incorporada ao longo do tempo.
“Percorrer a cidade de Feira de Santana, andar pelas suas ruas, é perceber cada símbolozinho desse em algum cantinho.”
Tradições que desapareceram e outras que estão sendo retomadas
A preservação cultural também passa pelo reconhecimento das tradições que deixaram de existir e daquelas que estão sendo retomadas com novos significados.
Márcia Suely cita como exemplo a antiga Lavagem da Lenha, tradição que deixou de fazer parte do calendário cultural da cidade.
“A lavagem da lenha, ela foi extinta.”
Segundo a historiadora, a manifestação estava relacionada a um movimento popular que reunia moradores de diferentes bairros.
“Era um movimento populacional que tinha a ideia de levar lenha para aquecer as noites de novembro de Nossa Senhora de Santana e que reunia ali populares de diversos bairros de Feira.”
Ao mesmo tempo, algumas manifestações culturais passam por processos de revitalização. E, para a historiadora, retomar uma tradição não significa necessariamente reproduzi-la exatamente como acontecia no passado.
“O que a gente precisa perceber é que quando retoma um movimento cultural que foi de um outro tempo, se retoma com as mudanças, com as adaptações próprias desse período do presente.”
Na avaliação dela, essas adaptações podem contribuir para aproximar novos públicos e manter viva a essência de determinadas manifestações.
A tradição dos vaqueiros
Outro exemplo citado durante a entrevista foi a retomada de referências ligadas aos vaqueiros e ao chamado ofício do vaqueiro.
Com o crescimento urbano, transformações econômicas e mudanças no território, atividades tradicionais acabam perdendo espaço. Ainda assim, eventos e manifestações culturais podem funcionar como mecanismos de preservação dessa memória.
“A cidade cresce, é claro que vai expulsar essas populações. Mas como a gente ainda mantém a Expofeira, é o movimento que traz de volta com a missa do vaqueiro.”
Para Márcia Suely, essas manifestações ajudam a manter uma ligação entre diferentes momentos da história de Feira de Santana.
“São esses jogos, são essas acomodações que vai fazendo com que uma tradição, com que um costume que é de uma outra época permaneça nos dias atuais.”
Juventude e sentimento de pertencimento
Outro ponto discutido foi a relação dos jovens com a história da cidade.
Para a historiadora, existe espaço para ampliar o interesse e, principalmente, o sentimento de pertencimento entre as novas gerações.
“Eu acho que ainda precisa aumentar mais esse sentimento de pertencimento, de identificação com a terra.”
Ela observa, entretanto, que iniciativas relacionadas à preservação do patrimônio, à ocupação de espaços públicos e às manifestações culturais podem contribuir para aproximar os jovens da história local.
“Talvez agora com esse movimento de preservação dos patrimônios, de retomada de alguns espaços da cidade, das movimentações culturais, a gente perceba essa identidade crescendo.”
A historiadora também relaciona esse sentimento de pertencimento ao próprio desenvolvimento do município.
“Essa juventude que se identifica com novos espaços da cidade, mas que precisa ficar cada vez mais incentivada a se identificar com a cidade enquanto um lugar de pertencimento.”
Crescimento urbano e preservação
Ao olhar para o futuro, Márcia Suely defende que o crescimento de Feira de Santana seja acompanhado de planejamento e de atenção à preservação dos espaços que fazem parte da história e do patrimônio natural do município.
Para ela, desenvolvimento e preservação não precisam ser vistos como caminhos opostos.
“Não adianta crescer de maneira desordenada. Ela precisa crescer mantendo os espaços.”
A historiadora também chama atenção para a importância de pensar na cidade como um território que pertence a diferentes grupos e comunidades.
“Ela agradece a todos, não é só a um grupo. Então, a todos da população.”
As feiras, os distritos e a identidade de Feira
Na mensagem deixada para os 193 anos de Feira de Santana, Márcia Suely resgata uma das características que está no próprio nome da cidade: as feiras e as atividades comerciais que contribuíram para sua formação.
“A mensagem maior é que a gente olhe até pela própria nomenclatura da cidade, a Feira de Santana.”
Segundo ela, a história do município está diretamente ligada ao comércio de rua, às feiras e à circulação de pessoas e mercadorias.
“É uma cidade que tem surgido de comércios de rua, de feira, de tropas.”
Para a historiadora, preservar esses elementos significa também preservar a dinâmica de trocas que ajudou a formar a cidade.
“Essa mesma troca, essa troca tanto cultural quanto econômica, ela deve ser preservada.”
Ela ressalta ainda que as feiras continuam fazendo parte da identidade do município, mesmo quando passam por processos de organização e ordenamento.
“As feiras na cidade, por mais que elas sejam ordenadas, elas fazem parte da história da cidade.”
Olhar para os oito distritos
Márcia Suely também defende que a história e a identidade de Feira de Santana sejam observadas para além da área central do município.
Os oito distritos, segundo ela, também contribuem para a formação desse conjunto cultural e histórico.
“Então, olhar também para os distritos e de como eles somam nessa cultura, nessas cidades que crescem cada vez mais, como cada um deles, dos oito distritos, contribui esse caldeirão que se tornou Feira de Santana, de diversidade, de cultura.”
Esse olhar mais amplo permite reconhecer que a identidade feirense é formada por diferentes histórias, territórios, costumes e grupos sociais.
Preservar o passado para planejar o futuro
Ao projetar o futuro de Feira de Santana, a historiadora destaca a necessidade de conciliar modernização, planejamento urbano, sustentabilidade e preservação da memória.
Entre as preocupações apontadas estão as lagoas do município, muitas delas transformadas ou soterradas ao longo do processo de expansão urbana.
“Como a gente vê de maneira extensa por alguns bairros, como um crescimento que pode ser ordenado e que possa trazer aqui, aos 200 anos de Feira de Santana, uma cidade mais planejada.”
A expectativa, segundo ela, é que o desenvolvimento dos próximos anos considere também a preservação ambiental.
“Que consiga ter a sustentabilidade desse meio ambiente, das suas lagoas, que foram quase todas soterradas.”
E, acima de tudo, que o município consiga avançar sem romper com aquilo que construiu sua identidade.
“Ao mesmo tempo, manter a tradição em modernidade.”
A fala da professora e historiadora Márcia Suely reforça que celebrar os 193 anos de Feira de Santana vai muito além de lembrar uma data. É também reconhecer as pessoas, os costumes, os espaços, as festas, as feiras, os distritos e as histórias que ajudaram a formar a cidade.
Em uma Feira que cresce, recebe novos moradores e se transforma diariamente, preservar a memória significa manter vivo o vínculo entre aquilo que a cidade foi, aquilo que ela é e aquilo que poderá se tornar nos próximos anos.
