Tecnologia, regularização e valorização do trabalhador ganham espaço nas discussões sobre o agro

Expofeira amplia espaço para negócios e inovação

A Expofeira 2026 chega ao fim deixando, além da movimentação de produtores e criadores, uma discussão sobre os caminhos que o agronegócio vem tomando. A tecnologia, a sustentabilidade, a segurança no campo, a regularização das propriedades e a valorização da mão de obra estiveram entre os assuntos debatidos durante o evento.

Para a advogada e produtora rural Juliana Rios, a edição deste ano apresenta características que colocam Feira de Santana em uma posição de maior destaque entre os eventos agropecuários.

Ela chama atenção para a quantidade de animais expostos, o volume de negócios e a ampliação das atividades realizadas durante a feira.

“Eu acredito que essa Expofeira, particularmente, traga o diferencial pelo volume de negócios, o volume de animais expostos, a quantidade de pistas, seja de equinos, bovinos, o próprio rodeio que trouxe uma novidade interessante”, destacou.

Na avaliação da produtora, a evolução da feira pode representar um novo momento para o município.

“Eu acho que, a partir de hoje, dessa Expofeira 2026, Feira entra no cenário das feiras em nível nacional”, afirmou.

Tecnologia passa a fazer parte da rotina do produtor

Uma das principais transformações observadas no campo está relacionada à tecnologia. Durante a Expofeira, máquinas, equipamentos, drones e ferramentas digitais mostraram como a inovação já está presente em diferentes etapas da produção rural.

Juliana Rios destacou o uso da inteligência artificial no controle de rebanhos e na administração das propriedades, além da utilização de drones em atividades agrícolas.

Para ela, o avanço tecnológico oferece possibilidades importantes para melhorar a gestão e a produtividade.

“Positivamente, a inteligência artificial entra como um aliado na questão de controle de rebanho, na administração das propriedades”, explicou.

Ao mesmo tempo, a modernização levanta uma preocupação: como garantir que a tecnologia não resulte simplesmente na substituição dos trabalhadores?

Na avaliação da produtora, esse é um ponto que precisa ser observado durante o processo de modernização.

“É um caminho sem volta, a gente não tem como voltar. Então é a gente se adaptar a essa nova realidade, aproveitar o que ela tem de bom e ter o cuidado de preservar o homem no campo”, afirmou.

Segundo ela, a tecnologia deve estar associada ao desenvolvimento das propriedades e à permanência de trabalhadores qualificados no meio rural.

Mulheres enfrentam desafios para ocupar espaço no agro

A presença feminina também foi discutida durante a entrevista. Juliana Rios destacou que o agronegócio ainda possui uma cultura predominantemente masculina e que as mulheres, muitas vezes, precisam demonstrar sua capacidade para conquistar espaço.

“Ser mulher no agro é um pouco desafiador. Realmente é um mundo muito masculino”, afirmou.

Ela explicou que não considera ter sofrido preconceito direto em sua atuação, mas reconhece que existem dificuldades relacionadas à percepção sobre a capacidade feminina para administrar propriedades e tomar decisões no setor.

“A gente enfrenta desafios porque somos desacreditadas muitas vezes da nossa força, da nossa capacidade de administrar uma propriedade rural”, declarou.

Para Juliana, a presença de mulheres no campo também ajuda a ampliar a discussão sobre temas como sustentabilidade, bem-estar animal e relações de trabalho.

Sustentabilidade entra na rotina das propriedades

A busca por uma produção mais sustentável foi apontada como uma das preocupações presentes no cotidiano do campo.

Juliana afirma que procura desenvolver sua propriedade seguindo boas práticas pecuárias e mantendo atenção ao bem-estar dos animais.

“Eu me preocupo muito numa pecuária mais sustentável, bem-estar animal. Procuro desenvolver minha propriedade dentro das boas práticas pecuárias”, explicou.

Ela avalia que o agronegócio brasileiro vem passando por mudanças e que o setor precisa continuar avançando na adoção de práticas mais modernas e sustentáveis.

“O agro brasileiro tem se destacado no mundo pela sustentabilidade e pelo incentivo às boas práticas”, afirmou.

Mudança de linguagem também faz parte da transformação

Além da tecnologia e da sustentabilidade, Juliana chama atenção para uma mudança cultural dentro do próprio agronegócio.

Segundo ela, o setor ainda carrega uma linguagem tradicionalmente mais dura e impositiva, mas a realidade atual exige uma comunicação mais próxima da ciência, da profissionalização e das novas práticas de produção.

“Realmente o agro é visto muito como um mundo mais rudimentar, mais grosseiro, mas tem evoluído muito”, declarou.

Para a produtora, aproximar a sociedade do universo rural também é uma forma de mostrar a importância do setor e diminuir a distância entre quem vive no campo e quem está nos centros urbanos.

Segurança preocupa produtores rurais

A violência no campo é outro desafio que vem sendo observado pelos produtores.

Juliana relatou que muitos pecuaristas têm demonstrado preocupação com o roubo de animais e com a segurança dentro das propriedades.

Ela contou que ainda resiste à instalação de câmeras de monitoramento em sua própria fazenda, por considerar o espaço também um local de descanso.

“Eu gosto de ir para a fazenda, eu descanso muito na fazenda”, contou.

Apesar disso, reconhece que a necessidade de monitoramento tem aumentado diante da realidade enfrentada por produtores rurais.

“É uma realidade que a gente vê muitos pecuaristas comentando sobre o receio de dormir nas suas propriedades, sobre o roubo de animais”, afirmou.

Na avaliação dela, a questão precisa ser tratada dentro de uma discussão mais ampla sobre segurança pública.

“A segurança no estado da Bahia está pedindo socorro. A população sofre com isso e requer investimento no mundo do agro, requer investimento na Bahia como um todo”, destacou.

Georreferenciamento ajuda na organização das propriedades

A regularização das propriedades rurais também foi um dos assuntos abordados.

Como advogada, Juliana explicou que o georreferenciamento passou a ter importância cada vez maior para quem possui imóveis rurais.

Segundo ela, a documentação regularizada é necessária para diferentes operações, incluindo transferência de propriedades, contratos bancários e acesso a financiamentos.

“Hoje a gente não consegue transferir uma propriedade ou trabalhar com a propriedade, contratar financiamentos bancários ou custeios ou qualquer contrato bancário que seja, sem que nosso imóvel esteja regularizado”, explicou.

Além da questão burocrática, ela destaca o papel do georreferenciamento na segurança da própria propriedade.

“O georreferenciamento, a certificação evita uma sobreposição de áreas, evita que qualquer um invada a área do outro”, afirmou.

Documentação antiga exige atenção

A realidade de algumas propriedades ainda envolve documentos antigos, registros com informações incompletas e situações em que o proprietário sequer possui clareza sobre os limites exatos do imóvel.

Para Juliana, a organização documental precisa ser uma prioridade para quem vive no campo.

Ela orienta os proprietários a preservar títulos, registros e demais documentos relacionados às propriedades.

“Quem não tiver ainda seu documento regularizado, fica aqui um alerta: procure manter todos os seus arquivos, toda a sua documentação correta”, orientou.

A preocupação, segundo ela, é evitar que o proprietário só perceba a importância da documentação quando precisar vender, transferir, financiar ou realizar algum outro procedimento envolvendo o imóvel.

Cartórios têm papel na regularização

A relação entre produtores rurais e cartórios também foi discutida.

Juliana, que trabalha principalmente com a área extrajudicial, destacou a importância dos cartórios para a segurança dos registros imobiliários.

“Sou entusiasta dos cartórios. Sei que os cartórios enfrentam dificuldades, mas das instituições brasileiras, o cartório ainda é uma das que mais conferem segurança para o usuário”, afirmou.

Ela reconhece que existem documentos antigos com descrições precárias, limites mal definidos e outras dificuldades que tornam o processo de regularização mais complexo.

Segundo Juliana, os cartórios têm justamente o desafio de ajudar a organizar e dar segurança a essas informações.

Reforma tributária ainda gera dúvidas

A reforma tributária também preocupa os produtores rurais.

Juliana afirmou que ainda acompanha as mudanças e que o setor busca compreender como as novas regras poderão afetar a atividade rural.

“Essa reforma tributária ainda está meio obscura pra nós que somos produtores”, declarou.

A discussão sobre a pejotização também está entre os assuntos que precisam ser analisados pelos produtores, especialmente com o apoio de profissionais da contabilidade.

Juliana afirma que ainda não tomou uma decisão sobre como irá se posicionar diante das mudanças.

“Eu ainda não dei um passo à frente, ainda não procurei saber como vou me posicionar diante disso”, explicou.

Para ela, o próximo período deverá ser de estudo e adaptação.

Profissionalização se torna necessária

A mudança no cenário tributário se soma a outro processo: a profissionalização do agronegócio.

Juliana avalia que o setor ainda carrega uma tradição de informalidade, principalmente em contratos, prestação de serviços e relações trabalhistas.

“O setor pecuário, agropecuário de um modo geral, ele vem de uma tradição de muita informalidade”, afirmou.

Ela considera que o produtor precisa acompanhar as mudanças e organizar cada vez mais a gestão da propriedade.

“A gente precisa se profissionalizar, porque o mercado externo exige isso e o mercado interno também”, destacou.

Valorização do vaqueiro é apontada como prioridade

Dentro desse processo de profissionalização, as relações com os trabalhadores rurais também precisam ser revistas.

Juliana destacou especialmente a figura do vaqueiro, profissional que, segundo ela, possui um conhecimento muito particular da propriedade e do rebanho.

“O vaqueiro é uma figura importantíssima no mundo rural, precisamos valorizar a figura do vaqueiro”, afirmou.

Ela ressaltou que o trabalhador que acompanha diariamente os animais desenvolve uma percepção que muitas vezes não pode ser substituída por tecnologia.

“Conhece vaca pelo nome, conhece cada boi, cada detalhe”, contou.

Mão de obra qualificada está cada vez mais difícil

A dificuldade de encontrar trabalhadores qualificados também foi apontada como um dos desafios do setor.

Para Juliana, quem possui um bom vaqueiro precisa reconhecer a importância desse profissional e oferecer condições adequadas de trabalho.

“Cada dia é mais difícil de encontrar a mão de obra qualificada do vaqueiro hoje. É raridade”, afirmou.

Ela defende atenção à saúde, segurança e qualidade de vida dos trabalhadores que permanecem nas propriedades.

“Quem tiver o seu bom vaqueiro, que trate bem, que valorize, que cuide”, orientou.

Para a produtora, existe uma relação de confiança muito forte entre o proprietário e o trabalhador rural.

“Quando estamos longe, os nossos olhos são os nossos vaqueiros”, declarou.

O olhar feminino e a dimensão humana do campo

Ao final da entrevista, Juliana destacou que a presença feminina pode contribuir para ampliar uma visão mais humana dentro do agronegócio.

Para ela, a sensibilidade também pode estar presente na forma de administrar uma propriedade, lidar com os trabalhadores e cuidar dos animais.

“Acho que a sensibilidade feminina traz esse olhar realmente mais humano, mais sensível”, afirmou.

A discussão apresentada durante a Expofeira mostra que o agronegócio vive um momento de transformação. De um lado, estão a tecnologia, a inteligência artificial, os drones, a modernização da gestão e a necessidade de regularização das propriedades. Do outro, permanecem desafios como segurança, mão de obra, valorização dos trabalhadores e adaptação às novas regras tributárias.

No centro dessas mudanças está o produtor rural, que precisa conciliar tradição e inovação para manter a atividade no campo e acompanhar as novas exigências do setor.

Related posts

INSS paga parcela única do 13º entre novembro e dezembro

Hackers atacam sistema de votação on-line da Rússia durante eleição

Funtitec e Associação São Brás entregam novo Polo de Tecnologia com cursos de capacitação no bairro Mangabeira