A reforma tributária deve provocar mudanças importantes na rotina de pequenas empresas, MEIs e negócios enquadrados no Simples Nacional. Em cidades onde o comércio tem forte participação na economia, como Feira de Santana, a orientação contábil passa a ser ainda mais importante para que os empresários entendam as novas regras e avaliem os impactos sobre seus negócios.
De acordo com a contadora Gabriela Trindade, um dos principais pontos de atenção está nos empresários que atuam no modelo B2B, ou seja, empresas que vendem produtos ou serviços para outras empresas.
Impactos para pequenas empresas
Gabriela destaca que grande parte dos negócios brasileiros é formada por pequenas empresas, MEIs e optantes pelo Simples Nacional. Segundo ela, esse público precisa compreender as mudanças e avaliar qual modelo será mais adequado para cada atividade.
“Nós temos aí no Brasil mais de 90% são compostos de pequenas empresas, MEIs e Simples Nacional. E esses empresários serão impactados pela reforma tributária.”
A contadora chama atenção especialmente para quem trabalha com B2B e explica que, mesmo sendo MEI ou integrante do Simples Nacional, o empresário precisa analisar como as mudanças podem afetar a operação.
“O cliente que trabalha com B2B, a empresa que trabalha com o B2B precisa se posicionar e entender como que a reforma vai impactar no negócio dele.”
Para Gabriela, o acompanhamento de um profissional da área contábil será importante durante esse período de adaptação.
Prazo para escolha e orientação
Segundo a entrevistada, os empresários do Simples Nacional estão em uma fase que exige atenção aos prazos e às novas possibilidades de enquadramento.
“Até o dia 30 de setembro, as empresas do Simples Nacional precisam aderir o Simples Híbrido ou não. Então a gente já está na fase final, precisamos orientar e o empresário precisa buscar essa orientação do seu contador.”
Ela afirma que o escritório onde atua também está promovendo treinamento para clientes com o objetivo de explicar as mudanças e auxiliar na tomada de decisão.
“A gente vai fazer um treinamento online para todos os nossos clientes do Simples Nacional, para orientá-los.”
Controle interno passa a ser ainda mais importante
Além de compreender a legislação, outro desafio apontado por Gabriela é melhorar os controles internos das empresas. Ela cita, entre os exemplos, a necessidade de o empresário conhecer com precisão o próprio estoque.
“Primeiramente é o entendimento da legislação e o compliance, que é o controle interno das empresas.”
Segundo a contadora, muitos empresários ainda enfrentam dificuldades para saber exatamente qual é o estoque existente e qual o impacto financeiro desses produtos para o negócio.
“Hoje a gente tem muita dificuldade, por exemplo, do empresário entender qual é o estoque do seu negócio.”
Ela explica que esse controle poderá ter reflexos financeiros nos próximos anos, especialmente na utilização dos créditos tributários relacionados aos estoques.
“O empresário que entender qual é o estoque dele, ele vai ter mais rentabilidade a partir do ano que vem, porque a gente vai usar o imposto que dentro desse estoque dele do dia 31 do 12 para abater os impostos nas vendas de 2027.”
Para Gabriela, a adaptação exige uma mudança na maneira como o pequeno empresário administra a própria empresa.
“Uma das dificuldades é trazer esse empresário para esse novo ecossistema de legislação e aumentar o nível de controle interno dentro das suas empresas.”
Separação entre contas pessoais e empresariais
Outro alerta feito durante a entrevista envolve a separação entre as finanças da pessoa física e da pessoa jurídica.
A prática de utilizar a conta da empresa para pagar despesas pessoais — ou o contrário — pode dificultar a identificação da origem e da finalidade das movimentações financeiras.
Gabriela ressalta que a separação entre pessoa física e jurídica não é uma novidade trazida pela reforma tributária.
“Na verdade, já é uma determinação muito antes. A contabilidade tem uma linha que as entidades não podem se misturar. A pessoa física é uma pessoa, a pessoa jurídica é outra.”
Ela também chama atenção para a necessidade de o empresário manter registros adequados das despesas e retiradas realizadas.
“Vamos separar as contas? CNPJ, de pessoa física, vamos pagar as contas CNPJ, vamos pagar as contas de pessoas físicas.”
Segundo a contadora, o cruzamento de informações financeiras pode identificar incompatibilidades entre aquilo que é declarado pelo contribuinte e a movimentação registrada nas instituições financeiras.
Movimentação financeira e cruzamento de informações
Gabriela também abordou a preocupação dos empresários em relação ao uso do Pix. Ela ressalta, porém, que a questão deve ser observada de forma mais ampla, considerando a movimentação financeira como um todo.
“Eu não vou nem falar do PIX, tá? Eu vou falar da movimentação financeira.”
A contadora explica que as informações financeiras podem ser utilizadas no cruzamento de dados realizado pelos órgãos de fiscalização.
“A Receita Federal, ela tem toda a movimentação das empresas, tanto de empresas como de pessoas físicas.”
Como exemplo, Gabriela cita uma situação em que a renda declarada pelo contribuinte não corresponde ao volume financeiro movimentado.
“Se eu sou, eu Gabriela, eu declaro que eu tenho um prolabore mensal de 10 mil reais e na minha conta o banco manda para a Receita, em cima da Financeira que eu movimentei 50, ele vai cruzar.”
Ela também destaca a utilização cada vez maior de sistemas automatizados no processo de fiscalização.
“Hoje a Receita Federal, as secretarias do Estado, quem fiscaliza não são mais pessoas. Inteligência artificial e robô.”
Diante desse cenário, a orientação, segundo Gabriela, é que o empresário organize suas informações e procure reduzir riscos antes que eventuais inconsistências gerem problemas fiscais.
“Se organize, vamos reduzir o risco.”
Planejamento tributário
A entrevistada também defende que o planejamento tributário seja utilizado como ferramenta de organização empresarial, desde que dentro da legislação.
“Existem táticas, planejamentos tributários que podem reduzir o imposto, sim, do empresário, mas a gente tem que fazer tudo dentro da lei e minimizando o máximo de risco possível para esse cliente.”
Para ela, o objetivo não deve ser simplesmente reduzir impostos, mas estruturar o negócio para que o empresário conheça suas obrigações e consiga tomar decisões com maior segurança.
“A gente precisa tomar risco para ganhar dinheiro, não tomar risco para pagar imposto lá na frente.”
E-commerce e comércio físico
Outro ponto discutido foi a relação entre o comércio tradicional e o comércio eletrônico. Gabriela avalia que as mudanças tributárias podem alterar a dinâmica de concorrência entre lojas físicas e vendedores que atuam em marketplaces.
Ela cita plataformas como Mercado Livre e Shopee e afirma que os vendedores que atuam nesses ambientes precisarão estar atentos às obrigações fiscais.
“A reforma tributária, ela trouxe um ponto positivo para o empresário que está na loja física, porque hoje existe uma guerra grande entre o e-commerce e a loja física.”
Segundo Gabriela, a formalização e o controle fiscal podem representar um desafio para pequenos vendedores que atuam em plataformas digitais sem uma estrutura contábil adequada.
“Existem muitos micro, pequenos empresários que estão ali nos marketplaces que não emitem nota fiscal.”
A contadora afirma ainda que as plataformas digitais passaram a ter responsabilidades relacionadas ao recolhimento de tributos e, por isso, os vendedores precisam considerar esses custos na organização financeira do negócio.
“Essas plataformas passaram a ser solidárias. Se o cara que está vendendo lá não pagar o imposto, a Receita Federal vai cobrar das plataformas.”
Gabriela avalia que essa mudança pode atingir principalmente aqueles vendedores que não possuem um planejamento tributário estruturado.
“Vai ter muita gente que não vai conseguir se manter no Mercado Livre e na Shopee, porque não faz esse planejamento tributário.”
Experiência pode ser diferencial para loja física
Apesar das transformações provocadas pelo comércio eletrônico e pelas novas regras tributárias, Gabriela afirma que o comércio físico continua tendo espaço, principalmente quando o empresário consegue oferecer ao consumidor uma experiência que não existe na compra pela internet.
“Eu acho que o comércio nunca vai acabar.”
Para ela, o diferencial da loja física deve estar no atendimento, no ambiente e na capacidade de apresentar o produto ao consumidor.
“Aquele empresário que entender que a sua loja precisa mostrar experiência, precisa mostrar um ambiente confortável, um ambiente cheiroso, um ambiente com bons colaboradores, explicando principalmente o produto.”
A contadora defende que o comerciante precisa compreender o que o consumidor procura quando decide entrar em uma loja.
“Quando a gente vai numa loja a gente quer entender: pra que serve esse produto? Como é que esse produto fica em mim? Esse produto é confortável?”
Na avaliação apresentada por Gabriela, a experiência presencial pode ser utilizada como uma forma de diferenciação diante do crescimento das vendas pela internet.
“A gente precisa promover o nosso cliente e mostrar a ele que a ida dele na loja é diferente dele ir no site e comprar. São experiências totalmente diferentes.”
Ao final, Gabriela reforçou a importância da organização e do acompanhamento profissional para que os empresários atravessem o período de mudanças com maior conhecimento sobre suas obrigações.
“A gente precisa tomar risco para ganhar dinheiro, não tomar risco para pagar imposto lá na frente.”