Início » Caruru de Cosme e Damião reúne fé, gastronomia, memória e resistência cultural na Bahia

Caruru de Cosme e Damião reúne fé, gastronomia, memória e resistência cultural na Bahia

0 comentários

Uma tradição que chega com o mês de setembro

Setembro é um mês que desperta lembranças, sabores e tradições para muitas famílias baianas. É nesse período que as celebrações em homenagem a Cosme e Damião ganham espaço, especialmente por meio dos tradicionais carurus, da distribuição de doces e da reunião de crianças, familiares e amigos em torno de uma prática que atravessa gerações.

Na Bahia, essa tradição possui características muito particulares. O caruru não é apenas uma comida preparada em uma determinada época do ano. A celebração reúne elementos religiosos, culturais, históricos e afetivos e ajuda a contar parte da história da formação da sociedade baiana.

Para a historiadora Joselice Souza, falar sobre Cosme e Damião também significa falar sobre as lembranças construídas durante a infância e sobre o sentimento de pertencimento que essas celebrações proporcionavam.

“É um tema que eu me interesso bastante, gosto bastante, porque traz as memórias de infância”, contou a historiadora.

Ela lembra que participou, quando criança, das chamadas rodas de caruru de sete meninos.

“Eu que fui uma criança nas rodas de caruru de sete meninos. Então, me lembro, me recordo com muito carinho de como isso agregava, de como isso nos fazia nos sentirmos importantes, vistos”, relatou.

Segundo Joselice, as crianças tinham um papel de destaque nessas celebrações.

“As crianças eram ali tratadas com destaque naquele evento”, lembrou.

Essa experiência ajuda a explicar por que, para muitas pessoas, o caruru de Cosme e Damião está diretamente relacionado a lembranças de infância, encontros familiares e momentos que permanecem na memória mesmo depois de muitos anos.

Cosme e Damião e a origem da devoção

A tradição tem raízes que passam pela história do cristianismo. Cosme e Damião são tradicionalmente apresentados como irmãos gêmeos que viveram no século IV e exerceram a medicina.

Segundo a tradição católica, os dois teriam se recusado a abandonar a fé cristã e, por isso, foram perseguidos e executados. Com o passar do tempo, passaram a ser venerados como santos.

Mas a forma como essa devoção se manifesta no Brasil, principalmente na Bahia, não pode ser explicada somente pela tradição católica.

O encontro entre a religiosidade cristã e as tradições trazidas pelos povos africanos escravizados produziu novas formas de manifestação da fé.

É nesse processo que aparece o sincretismo religioso.

A historiadora explica que o caruru de Cosme e Damião reúne justamente essas diferentes referências.

“O Caruru de Cosme e Damião, como é conhecido, sem dúvida é uma das principais tradições gastronômicas e de fé da cultura baiana”, afirmou.

E ela explica por que a gastronomia e a religiosidade estão tão ligadas nessa celebração.

“Gastronômica e de fé porque a gente sabe que tem suas raízes no processo sincrético, sincretismo religioso”, destacou.

O encontro entre diferentes tradições religiosas

A presença das tradições africanas é um dos elementos fundamentais para compreender a celebração na Bahia.

Na tradição iorubá, os Ibejis são associados aos gêmeos e estão relacionados a ideias como alegria, renovação e infância.

Joselice Souza explica:

“Na tradição Yorubá, os orixás gêmeos, os Ibeges, significam justamente esses que representam a alegria, representam a renovação.”

A historiadora destaca que a aproximação entre os santos católicos e as tradições africanas não aconteceu de maneira isolada. Ela está inserida em um processo histórico mais amplo, marcado pela colonização e pela presença africana na formação da sociedade brasileira.

“Quando junta a fé católica dos santos gêmeos com os ideais das tradições africanas, você tem essa festa da religiosidade popular”, explicou.

O resultado desse encontro é uma manifestação que passou a fazer parte da cultura de diferentes comunidades e que, especialmente na Bahia, ganhou uma dimensão muito forte.

O sincretismo e a preservação das tradições

Ao falar sobre o sincretismo, a historiadora também destaca sua importância para a permanência das tradições religiosas de matriz africana.

Durante séculos, manifestações culturais e religiosas de origem africana enfrentaram diferentes formas de repressão e preconceito. Nesse contexto, a aproximação com símbolos e práticas católicas contribuiu para que determinados elementos permanecessem vivos.

Joselice resume esse processo:

“O processo sincrético é o que permitiu a resistência, a sobrevivência das tradições da religiosidade de matrizes africanas no Brasil.”

Essa sobrevivência pode ser percebida em diferentes manifestações culturais que permanecem presentes até hoje.

O caruru de Cosme e Damião é uma delas.

A celebração conseguiu atravessar gerações, mudanças sociais e transformações religiosas, mantendo elementos que continuam sendo reconhecidos pelas famílias que participam da tradição.

O caruru que vai além da comida

Quando se fala em caruru, a primeira imagem pode ser a de uma mesa cheia de comida. Mas a preparação envolve muito mais do que a escolha dos ingredientes.

Existe um conhecimento que precisa ser aprendido.

Existe a maneira correta de preparar determinados alimentos, o cuidado com os ingredientes, a organização da mesa e todos os costumes que acompanham a celebração.

Por isso, a historiadora chama atenção para o conceito de patrimônio cultural imaterial.

“Parece que é só o caruru, mas ali envolve todo um saber, o preparar aquela comida, a maneira de preparar, tudo isso está dentro do que a gente chama de cultura imaterial, a questão do patrimônio imaterial”, afirmou.

Esse conhecimento, muitas vezes, é transmitido dentro das próprias famílias.

Uma pessoa aprende observando a mãe. A mãe aprendeu com a avó. A avó recebeu aquele conhecimento de outra geração.

E assim a tradição vai passando adiante.

A gastronomia como parte da identidade cultural

A culinária presente no caruru também ajuda a contar a história da influência africana na formação da cultura baiana.

Entre os alimentos associados à celebração estão o feijão-fradinho, preparações com massa e o azeite de dendê, além de outros pratos que podem variar de acordo com a família e a comunidade.

A historiadora destaca justamente essa relação entre alimentação e religiosidade.

“É uma comida que tem a ver com a questão religiosa, tem muita influência das religiões de matriz africana”, explicou.

Segundo Joselice, a Bahia possui um conhecimento muito forte relacionado ao preparo dessas comidas ligadas às celebrações religiosas.

“A Bahia tem esse domínio do preparo dessas comidas cultivas, essas comidas que remetem às festas sagradas, religiosas”, afirmou.

Nesse sentido, a cozinha também se transforma em espaço de transmissão de cultura.

É ali que os mais velhos ensinam os mais jovens. É ali que uma receita deixa de ser apenas uma receita e passa a carregar lembranças e significados.

O papel das crianças na celebração

As crianças são outro elemento importante das celebrações de Cosme e Damião.

Os doces distribuídos durante a festa fazem parte da memória de muitas pessoas, mas a participação dos pequenos vai além daquilo que recebem.

Eles acompanham os familiares, participam dos encontros e entram em contato com uma tradição que, muitas vezes, já fazia parte da história dos seus pais e avós.

A historiadora lembra que, em sua infância, as crianças ocupavam um lugar especial.

“Como isso nos fazia nos sentirmos importantes, vistos”, contou.

Essa experiência de pertencimento é uma das características que podem ajudar uma tradição a permanecer viva.

A criança que participa hoje pode ser o adulto que, anos mais tarde, vai organizar uma celebração ou ensinar aos próprios filhos aquilo que aprendeu dentro de casa.

Uma tradição que mudou com o passar do tempo

Apesar de continuar conhecida e praticada, a celebração não acontece hoje exatamente como acontecia décadas atrás.

A historiadora lembra que, durante sua infância, principalmente nas décadas de 1980 e 1990, os carurus eram muito mais comuns em diferentes casas.

“Durante muito tempo, e até falei da minha época de criança, década de 80, início dos anos 90, que era bastante comum vermos nos lares de pessoas que se declaravam católicas ou aquelas pessoas que certamente eram de religião de matriz africana, mas que não declaravam”, contou.

Ela lembra ainda que as celebrações não ficavam necessariamente concentradas em um único dia.

“Era muito mais comum a gente ver essa tradição ao longo do mês de setembro. Alguns no dia 27, mas assim, ao longo do mês de setembro”, afirmou.

Naquele período, os alimentos associados às tradições africanas também estavam muito presentes nessas mesas.

“Esses alimentos presentes, o feijão-fradinho ali batido, a massa, enfim, o azeite de beber e os alimentos que trazem essa relação com a tradição africana”, explicou.

Mas essa frequência mudou.

“Hoje, a gente vê que isso não acontece com a mesma frequência, com a mesma recorrência que a gente via no passado. Então houve mudança”, declarou.

As mudanças no perfil religioso

Na análise da historiadora, as transformações no perfil religioso da sociedade brasileira ajudam a compreender parte dessa mudança.

Joselice chama atenção para o crescimento das igrejas evangélicas nas últimas décadas.

“Nos últimos 30 anos, aumentou significativamente o número de pessoas cristãs que são evangélicas. As igrejas pentecostais e neopentecostais”, afirmou.

Segundo ela, esse processo teve impacto sobre determinadas tradições de influência africana.

“E isso acabou fazendo com que a tradição fosse fragilizada”, avaliou.

A historiadora também fala sobre a relação de alguns segmentos evangélicos com manifestações de matriz africana.

“A gente sabe que há uma questão forte, intuitiva dos cristãos evangélicos em relação às tradições que têm influência africana”, afirmou.

Esse processo ajuda a entender por que uma prática que já esteve muito presente em determinados espaços pode hoje ser menos frequente.

A tradição e a transmissão dos saberes

Mesmo com as mudanças, a tradição não desapareceu.

Ela continua presente em famílias, comunidades e grupos que mantêm os costumes e ensinam às novas gerações.

E é justamente essa transmissão que, para a historiadora, tem um significado especial.

Quando alguém aprende a preparar o caruru, aprende também uma parte da história da sua família.

Quando uma criança participa da celebração, passa a conhecer uma manifestação que pode fazer parte da sua própria identidade cultural.

Quando uma pessoa mais velha conta como os carurus aconteciam décadas atrás, está preservando uma memória que poderia desaparecer.

Por isso, Joselice considera essa transmissão um ato de resistência.

“A transmissão desses saberes é um ato de resistência cultural contra a intolerância religiosa, contra o apagamento histórico das raízes da nossa cultura”, declarou.

O combate ao apagamento cultural

A historiadora também chama atenção para o processo de apagamento de determinadas manifestações culturais.

Segundo ela, quando uma tradição é tratada apenas como algo negativo ou é associada a preconceitos, existe o risco de que sua importância histórica seja esquecida.

Por isso, ela defende que a sociedade conheça melhor essas manifestações.

“Eu acredito que a gente precisa respeitar, valorizar, tirar toda essa demonização que é feita em torno dessa tradição”, afirmou.

Na visão da historiadora, é preciso reconhecer que aquilo que chegou até as gerações atuais é resultado de um longo processo histórico.

“É legado, é herança e que a herança a gente repassa, a gente não apaga”, reforçou.

Diversidade religiosa faz parte da história

A discussão sobre Cosme e Damião também leva a um tema mais amplo: a diversidade religiosa existente no Brasil.

A sociedade brasileira é formada por pessoas com diferentes crenças, tradições e formas de compreender a espiritualidade.

Para Joselice Souza, reconhecer essa diversidade faz parte também do compromisso com a própria história do país.

“Eu sou alguém que declaradamente me coloco, como professora da educação básica, como estudante de doutorado, alguém que se compromete com a defesa da diversidade da sociedade brasileira”, afirmou.

E ela reforça que essa defesa passa necessariamente pelo respeito às diferentes manifestações religiosas.

“Isso inclui a defesa das tradições, das expressões de religiosidade”, completou.

A proposta, nesse sentido, é que conhecer uma tradição não seja visto como uma obrigação de seguir aquela fé, mas como uma oportunidade de compreender a história e a cultura de quem mantém aquele costume.

A importância do respeito

Para a historiadora, o conhecimento também pode contribuir para diminuir preconceitos.

Quanto mais uma sociedade conhece a origem de uma manifestação, mais elementos ela tem para compreender por que aquela tradição existe e qual é o seu significado para determinadas comunidades.

Joselice afirma que é necessário refletir sobre aquilo que acaba afastando as pessoas umas das outras.

“Eu agradeço pelo espaço de poder falar e ver que as pessoas reflitam sobre isso que nos divide”, afirmou.

Para ela, a diversidade deveria ser encarada de outra maneira.

“A gente deveria celebrar a diversidade para ser celebrada. E não ser alvo de qualquer tipo de preconceito e discriminação”, destacou.

Essa reflexão passa também pelo reconhecimento das diferentes expressões religiosas que fazem parte da sociedade brasileira.

Uma tradição que guarda memórias

No caruru de Cosme e Damião, existe a memória de quem preparou a primeira panela, de quem aprendeu a receita com a mãe, de quem recebeu os doces quando era criança e de quem, anos depois, decidiu continuar realizando a celebração.

Existe a memória das famílias e das comunidades.

Existe a memória da culinária.

Existe a memória da religiosidade.

E existe também a memória de uma Bahia que foi construída pelo encontro de diferentes povos e culturas.

Por isso, a tradição continua sendo importante mesmo para quem não participa diretamente dela.

Ela ajuda a compreender a formação cultural do estado e a diversidade de experiências que compõem a identidade baiana.

O desafio de manter a tradição viva

A permanência de uma tradição depende, em grande parte, da disposição das novas gerações em conhecê-la.

É preciso que os mais jovens saibam de onde vieram os costumes que encontram dentro de casa.

Que entendam por que determinados alimentos são preparados.

Que conheçam a história por trás das celebrações.

E que possam decidir, a partir desse conhecimento, de que maneira querem manter ou transformar essas práticas.

A tradição não precisa ser congelada no tempo para continuar existindo.

Ela pode mudar, ganhar novos formatos e acompanhar as transformações da sociedade sem perder necessariamente sua ligação com a memória.

A mensagem da historiadora

Ao encerrar a entrevista, Joselice Souza reforçou seu compromisso com a valorização da diversidade e deixou uma reflexão sobre o respeito às tradições.

“Eu agradeço e peço que as pessoas façam isso, as reflexões, e que a gente procure respeitar as tradições dos que vieram antes de nós”, afirmou.

A mensagem resume uma questão que vai além do dia 27 de setembro.

Preservar uma tradição significa reconhecer que existe uma história por trás dela. E que essa história foi construída por pessoas que, muitas vezes, encontraram maneiras de manter seus costumes mesmo diante das mudanças e das dificuldades.

Cosme e Damião na memória da Bahia

A celebração de Cosme e Damião permanece, portanto, como uma das manifestações que ajudam a contar a história cultural da Bahia.

O caruru, os doces, as crianças, a reunião das famílias e os elementos religiosos formam um conjunto que ultrapassa o calendário.

É uma tradição que chega carregada de lembranças.

Para alguns, a lembrança de uma infância marcada pelas festas de setembro. Para outros, a lembrança de familiares que já não estão presentes, mas que deixaram ensinamentos que continuam sendo repetidos.

E é justamente nessa transmissão que a tradição encontra uma maneira de permanecer.

Todos os Direitos Reservados. Produzido por  Alcance Marketing Digital