Setembro Verde reforça importância da doação de órgãos e da conversa dentro das famílias

Campanha chama atenção para um gesto que pode beneficiar diferentes pessoas e mudar a realidade de quem aguarda por um transplante

O mês de setembro chega ao fim e, com ele, também se encerra o período de maior destaque para uma campanha que trata de um assunto delicado, mas que pode mudar completamente a história de quem espera por uma nova chance: o Setembro Verde, dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos.

A campanha busca levar informação à população e estimular uma conversa que muitas vezes acaba sendo adiada dentro de casa. Afinal, falar sobre doação de órgãos também significa falar sobre a morte, sobre a despedida de alguém querido e sobre uma decisão que pode precisar ser tomada justamente em um dos momentos mais difíceis para uma família.

Mas, do outro lado dessa história, existe alguém esperando. São pacientes que convivem com doenças graves, que dependem de tratamentos contínuos e que aguardam por um órgão compatível para poder mudar a própria rotina.

Para falar sobre esse processo e sobre a importância de conversar com os familiares ainda em vida, o médico nefrologista Maurício Soledade, integrante do Serviço de Nefrologia e Transplantes da Santa Casa de Feira de Santana, explicou como funciona a doação e reforçou a necessidade de tornar esse assunto mais presente nas famílias.

Setembro Verde e a necessidade de informação

Maurício Soledade explica que setembro foi escolhido para fortalecer as ações de incentivo à doação de órgãos e tecidos. Dentro da programação da campanha, o dia 27 de setembro é considerado uma data simbólica para o movimento.

“Esse mês de setembro é o mês de Setembro Verde, que é o mês que foi escolhido para incentivo, para uma campanha de incentivo à doação de órgãos e tecidos.”

Para quem trabalha diretamente com transplantes, a campanha tem um significado ainda maior. O médico acompanha de perto pacientes que dependem da chegada de um órgão para mudar uma realidade que, muitas vezes, envolve tratamentos prolongados e limitações no dia a dia.

“A gente trabalha com transplante, a gente sabe exatamente qual a dificuldade dos pacientes que ficam precisando, que ficam fazendo, no meu caso, hemodiálise e precisando de transplante renal.”

A experiência no atendimento desses pacientes faz com que o especialista destaque a importância de ampliar a informação. Segundo ele, ainda existe muita dúvida sobre quem pode doar, como funciona o processo e, principalmente, quem precisa autorizar a doação.

O primeiro passo pode acontecer dentro de casa

Antes de falar sobre exames, hospitais, equipes médicas e Central de Transplantes, existe uma atitude simples que pode fazer diferença: conversar com a família.

O médico explica que uma pessoa que deseja ser doadora precisa deixar essa vontade clara para aqueles que estão próximos.

“Há uma enorme dificuldade de conscientização das pessoas e a importância é justamente alertar as pessoas que elas falem às suas famílias que elas são doadoras, que é a família que vai decidir isso.”

Essa conversa pode parecer difícil, especialmente porque envolve um assunto que ninguém gosta de imaginar. Mas, segundo o especialista, falar sobre a própria vontade enquanto está tudo bem é justamente uma forma de evitar que os familiares precisem tentar descobrir o que a pessoa gostaria em um momento de dor.

Maurício reforça que o desejo precisa ser conhecido.

“Tem que deixar a família muito ciente do desejo da pessoa, de que ela é doadora, pra nesse momento da conversa com a equipe de serviço social, psicologia e os médicos da UTI, onde estará o possível doador, que a vontade deles seja respeitada nesse momento.”

A família tem papel decisivo

Um dos pontos mais importantes explicados pelo nefrologista é o papel da família na autorização da doação.

Quando existe um possível doador, a equipe médica realiza os procedimentos necessários para confirmar a morte encefálica. Depois dessa confirmação, os familiares são informados e o processo de decisão sobre a doação é iniciado.

É nesse momento que a conversa feita anteriormente pode fazer diferença.

“O papel da família nesse momento é essencial. Eu digo que é o principal momento, assim, porque o ente querido, obviamente, ele teria que ter informado a família anteriormente da sua vontade, do seu desejo de ser doador de órgãos, e a família dando o aceite é respeitando essa vontade.”

Maurício Soledade explica ainda que, no processo brasileiro, a autorização da família é fundamental para que a doação aconteça.

“O dono, a dona, digamos assim, da decisão é a família sempre. Não importa o que o doador tenha escrito, tenha deixado registrado, se a família não aceitar, não vai ser doado.”

Por isso, segundo ele, não basta simplesmente ter a intenção de doar. É importante comunicar essa decisão às pessoas que estarão próximas em uma eventual situação de morte encefálica.

O que acontece quando existe um possível doador?

A doação de órgãos passa por diversas etapas. Não é um processo imediato e nem significa que todos os órgãos de uma pessoa poderão necessariamente ser utilizados.

Primeiro, existe a identificação de um possível doador. A equipe da Unidade de Terapia Intensiva acompanha o quadro e realiza os exames necessários para confirmar a morte encefálica.

Depois da confirmação, a família recebe as informações e é consultada sobre a possibilidade de doação.

Enquanto esse processo acontece, os profissionais continuam cuidando do possível doador.

“A priori, esses possíveis doadores em UTI, quando já são reconhecidos pela equipe, eles já são meio que cuidados antes, até esperar o aceite familiar. Então, tem todo um cuidado em relação a isso, para preservação desses órgãos, para potenciar o transplante.”

Caso a família autorize, começa uma nova etapa, envolvendo a Central de Transplantes e as equipes responsáveis pela captação e distribuição dos órgãos.

“Caso a família aceite, é notificada a Central de Transplantes da Bahia, e aí é dado todo o segmento logístico de captação, biópsia se necessário, redistribuição para o centro do transplantador e tudo mais.”

Ou seja, existe toda uma estrutura por trás da doação. A partir da autorização, são avaliadas as condições dos órgãos, realizados os procedimentos necessários e organizada a logística para que eles possam chegar aos pacientes que aguardam pelo transplante.

Quais órgãos e tecidos podem ser doados?

Outra dúvida frequente é sobre quais partes do corpo podem ser destinadas à doação.

Segundo Maurício Soledade, diversos órgãos e tecidos podem ser aproveitados, dependendo das condições do doador e dos protocolos estabelecidos para cada caso.

Entre os principais estão coração, rins, pulmões, fígado e córneas. O médico também cita outros tecidos e destaca que existem procedimentos específicos realizados por diferentes centros.

“Quase que todos os órgãos podem ser doados. Do intestino, tem alguns centros que fazem, mas aqui na Bahia principalmente coração, fígado e rins e córneas e sangue é do dia a dia.”

Cada órgão pode representar uma nova possibilidade para um paciente que está esperando. No caso dos rins, por exemplo, um único doador pode contribuir para dois transplantes.

“Um doador, dois rins. São duas famílias salvas aí. Duas famílias que têm história modificada.”

É justamente esse potencial de transformação que faz com que a discussão sobre doação seja tão importante. Uma única decisão pode beneficiar diferentes pessoas.

Quem pode ser doador?

Também existe a dúvida sobre quem pode ou não ser doador. O médico explica que qualquer pessoa pode ser considerada um potencial doador e que a avaliação das condições dos órgãos acontece durante o processo.

“Qualquer pessoa pode ser doador. Qualquer pessoa a gente chama de doador em potencial.”

Isso significa que não cabe ao indivíduo determinar antecipadamente quais órgãos poderão ser utilizados. Essa avaliação é feita pelas equipes médicas, depois da autorização da família.

“Dando a família, dando o aceite, aí a gente providencia, vê se realmente o doador tem condições.”

Portanto, a decisão de manifestar o desejo de doar não significa que todos os órgãos serão necessariamente aproveitados. Cada situação é avaliada individualmente.

A espera de quem precisa de um transplante

Do outro lado do processo está o paciente que aguarda por um órgão.

No caso dos transplantes renais, por exemplo, muitos pacientes convivem durante anos com a necessidade de realizar hemodiálise enquanto aguardam por uma oportunidade de transplante.

Maurício Soledade conhece essa realidade de perto justamente por atuar na área de nefrologia.

“A gente sabe exatamente qual a dificuldade dos pacientes que ficam precisando, que ficam fazendo, no meu caso, hemodiálise e precisando de transplante renal.”

A hemodiálise é um tratamento fundamental para pessoas com insuficiência renal, mas a possibilidade de um transplante pode representar uma mudança importante na rotina e nas perspectivas desses pacientes.

Por isso, quando se fala em doação, também se fala sobre pessoas que estão esperando, famílias que acompanham essa espera e pacientes que convivem diariamente com as consequências de uma doença grave.

A doação como um ato de solidariedade

Para o médico, a doação de órgãos tem também um forte significado humano.

Quem doa, na maioria das vezes, não conhece a pessoa que receberá o órgão. Não sabe sua idade, sua história ou os planos que ela tem para a vida.

Mesmo assim, uma decisão tomada em um momento de despedida pode ajudar outra pessoa a continuar.

“É simplesmente um ato de amor em relação a uma vida que você nem conhece, você vai modificar a história de outra pessoa.”

O médico explica que, apesar da dor envolvida na perda de um familiar, existe também a possibilidade de que partes daquele corpo continuem funcionando e ajudando outras pessoas.

“A sua infelizmente chegou ao fim ali naquele momento, mas os seus órgãos vão viver em outras pessoas.”

Quando o órgão volta a funcionar

Ao falar sobre transplante renal, Maurício Soledade descreve um dos momentos que mais chamam sua atenção durante o procedimento: quando o órgão transplantado recebe o sangue do novo organismo e começa a funcionar.

Ele compara esse momento a um verdadeiro retorno à vida.

“É muito bonito assim, quando faz o transplante renal, vê o órgão renascendo, ele vem congelado praticamente, vem conservado em gelo.”

O médico continua:

“Então ele vem bem frio, bem gelado mesmo. E aí quando ele recebe o sangue do receptor e ele volta à vida, é muito bonito.”

A descrição ajuda a entender, de uma maneira simples, o impacto que um transplante pode representar para quem espera. Um órgão que estava em um corpo passa a funcionar em outro e pode contribuir para que uma nova história continue.

A conversa não termina com o Setembro Verde

Com o fim de setembro, termina também o período de maior destaque para a campanha, mas a orientação dos profissionais é que a conversa continue.

Não é necessário esperar uma campanha para falar sobre doação. O assunto pode ser tratado em uma conversa comum, dentro de casa, entre pais, filhos, irmãos, casais e outros familiares.

O objetivo é simples: fazer com que, se um dia essa decisão precisar ser tomada, a família já saiba qual era a vontade daquela pessoa.

Para Maurício Soledade, essa é a principal mensagem que precisa ficar depois do Setembro Verde.

“Vocês todos, falem para suas famílias, conversem sobre doação de órgão, expliquem e explicitem para eles a sua vontade de ser doador de órgão porque nesse momento quem vai decidir são eles.”

E ele próprio deixa claro que já conversou com a família sobre a sua escolha:

“Eu sou doador de órgãos e minha família sabe disso.”

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