Projeto coordenado por Cláudia Lima começou com quatro profissionais e atualmente reúne 12 massoterapeutas cegos e com baixa visão, que atuam em corridas, eventos particulares e outras atividades.
Origem e desenvolvimento do projeto
Transformar a experiência pessoal em uma oportunidade de inclusão e geração de renda. Foi com esse propósito que a terapeuta Cláudia Lima idealizou o projeto Massagem às Cegas, iniciativa voltada à capacitação e à inserção de pessoas com deficiência visual no mercado de trabalho.
Mulher cega e profissional da área de terapia, Cláudia conta que a ideia surgiu dentro da própria clínica onde trabalha. Inicialmente, ela solicitou autorização ao responsável pelo estabelecimento para realizar um curso de massagem destinado a pessoas que enxergam.
“Eu trabalho numa clínica e pedi autorização ao meu chefe para realizar um curso para pessoas que enxergam, porque eu sou uma mulher cega, completamente, e sou terapeuta. Ele me abriu as portas, então fiz esse curso, onde capacitei 14 pessoas”, relata.

Depois dessa primeira experiência, a coordenadora decidiu ampliar a iniciativa e levou a formação ao Centro de Apoio Pedagógico à Pessoa com Deficiência Visual (CAP). O projeto, que inicialmente recebeu o nome de Massoterapia às Cegas, passou a ser chamado de Massagem às Cegas.
A trajetória começou com quatro massoterapeutas cegos. Atualmente, o grupo reúne 12 profissionais, entre pessoas cegas e com baixa visão.
Capacitação e formação dos profissionais
A qualificação é uma das principais preocupações da iniciativa. De acordo com Cláudia, todos os integrantes possuem formação em massoterapia e também participam de cursos complementares para aprimorar os conhecimentos e as técnicas utilizadas nos atendimentos.
A formação conta com a participação de Jorge, profissional com baixa visão que também atua na coordenação do projeto.
“Eu e o Jorge, que é baixa visão e um dos coordenadores também da Massagem às Cegas, estamos sempre realizando atividades. Eu sempre dou aula teórica e o Jorge aula prática”, explica Cláudia.
Ela destaca ainda que os integrantes não se limitam às atividades desenvolvidas pelo projeto. Paralelamente aos atendimentos, cada profissional também realiza outras atividades e busca ampliar sua experiência no mercado.
Atuação em corridas e eventos particulares
O grupo tem conquistado espaço em diferentes programações, especialmente em eventos esportivos, nos quais os serviços de massoterapia são disponibilizados aos participantes. Além das corridas, os profissionais também são contratados para casamentos, formaturas e eventos particulares.
Cláudia destaca que a iniciativa mantém parcerias importantes para garantir a participação dos profissionais nessas atividades. Uma delas é com a Multimais, com quem o projeto trabalha há três anos. Outra parceria é com o organizador de corridas Jardel Moura, com quem a coordenadora mantém uma relação profissional desde 2018.
“Eu comecei com o Jardel em 2018, então a gente já tem uns nove, dez anos juntos. E a gente realiza trabalhos em eventos de corrida, eventos particulares, casamento, formatura. Então, quando chamam a gente, estamos ali disponíveis”, afirma.
A participação nesses espaços também contribui para dar visibilidade ao trabalho dos massoterapeutas e mostrar que a deficiência visual não representa um impedimento para o exercício da profissão.
Ampliação do projeto e novas oportunidades
Apesar dos resultados alcançados, Cláudia explica que, neste momento, não está recebendo novos participantes. A decisão está relacionada à necessidade de manter uma estrutura que permita acompanhar os profissionais e garantir a qualidade dos serviços.
A coordenadora lembra que o projeto chegou a contar com um espaço próprio, mas enfrentou dificuldades durante a pandemia, quando não foi mais possível manter a estrutura.
“Por enquanto, eu não estou abrindo para todo mundo. Eu estou com 12, porque a gente tinha um espaço, mas, com a pandemia, eu não tive mais condições de ter um espaço”, conta.
Ela também explica que prefere trabalhar com uma equipe que consiga acompanhar de perto, em vez de ampliar o número de integrantes sem condições de oferecer o suporte necessário.
“Não adianta você ter muita gente e depois não conseguir administrar. Então eu prefiro ter qualidade do que ter quantidade”, ressalta.
Cláudia lembra ainda que existem instituições, como a Associação Baiana de Cegos, que desenvolvem cursos e atividades voltados às pessoas com deficiência, contribuindo para a formação e a preparação profissional desse público.
Perspectivas para o futuro
Mesmo sem previsão de novas inscrições neste momento, a coordenadora não descarta a possibilidade de ampliar a equipe futuramente. Para ela, a oportunidade de integrar o projeto deve continuar aberta a outras pessoas com deficiência visual que desejam se qualificar e conquistar espaço profissional.
“Isso não quer dizer que futuramente a gente não possa abrir vagas. A oportunidade é para todos”, afirma.
Com a atuação em diferentes eventos e o fortalecimento das parcerias, o Massagem às Cegas segue como uma iniciativa que associa formação profissional, autonomia e inclusão. A experiência de Cláudia também evidencia a importância de criar oportunidades para que pessoas com deficiência visual possam desenvolver suas habilidades, conquistar independência e ocupar diferentes espaços no mercado de trabalho.
Fotos e Reportagem: Fernanda Martins
