O Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, é uma data marcada pela lembrança de pessoas que já morreram. Para muitas famílias, o momento representa uma oportunidade de homenagear entes queridos, visitar cemitérios, levar flores e recordar histórias. Entretanto, a data também pode despertar sentimentos intensos, como tristeza, saudade, arrependimento e sofrimento emocional. Em entrevista ao Dia a Dia News, o psicólogo Alfredo Morais falou sobre os aspectos emocionais do luto, a importância dos rituais de despedida e a necessidade de compreender que seguir em frente não significa esquecer quem partiu.
A intensidade das emoções e o significado do Dia de Finados
Ao abordar os sentimentos que costumam surgir nessa época, Alfredo Morais explicou que a experiência do luto também está relacionada à maneira como as pessoas construíram suas relações durante a vida. Para ele, a morte pode provocar uma reflexão sobre os vínculos afetivos, o tempo compartilhado e as demonstrações de carinho que ficaram pelo caminho.
O psicólogo chamou atenção para o fato de que, muitas vezes, as homenagens e manifestações de afeto se intensificam somente depois da morte, quando já não existe a possibilidade de compartilhar esses momentos com quem partiu.
“Quando a gente imagina luto, a gente deixa de imaginar a vida. … Quantas vezes você visitou seu pai, sua avó, seu filho, seu marido, seus amigos? Quanto tempo você desvelou para essas pessoas, para que essas pessoas em vida sejam contempladas? Quantas flores você mandou, quantas cartas, quantos WhatsApps, se você está bem?”, questionou.
Na avaliação do profissional, o Dia de Finados também pode despertar questionamentos sobre a própria existência, a passagem do tempo e o legado que cada pessoa deixa. Ele destacou que a lembrança de quem morreu não deve estar limitada às datas comemorativas, mas precisa ser compreendida a partir da história construída durante a convivência.
“Você ir a um cemitério é algo simbólico e é bom de você ir. É bom de você estar lá, é bom de você chorar, mas entenda: esse rito de passagem vai acontecer com todos nós. Todos que estão sobre a Terra vão embora. Mas a sua marca é que fica. Você é lembrado pela perspectiva das suas ações diárias”, afirmou.
Os rituais de despedida e a ressignificação da perda
Durante a entrevista, Alfredo Morais também compartilhou uma experiência familiar que considera importante para compreender o processo de luto. Ele contou que sua avó, Edith Nogueira, escreveu, aos 80 anos, um livro com orientações sobre como gostaria que fosse seu velório. Ela morreu aos 97 anos, e a família procurou respeitar as vontades registradas por ela.
Entre os costumes familiares, o psicólogo destacou a realização de um almoço após os rituais fúnebres. O encontro é uma oportunidade para reunir parentes, recordar histórias, compartilhar momentos engraçados e falar sobre a trajetória de quem morreu.
“Depois que tem todo o rito do velório e todo aquele rito do choro, do abraço, a gente senta para se alimentar. A gente faz um grande almoço para falar da vida da pessoa, para dar risada nos momentos engraçados, para se irmanar. E isso, na nossa família, é um rito. E esse rito nos ajuda a entender o processo de luto. Ajuda a entender a vida”, relatou.
O profissional explicou que os rituais de despedida podem contribuir para a elaboração emocional da perda, pois permitem que familiares e amigos compartilhem sentimentos e encontrem apoio uns nos outros. Para ele, também é possível transformar a maneira de enxergar a morte, valorizando a história e as experiências vividas pela pessoa.
Alfredo revelou, inclusive, que já deixou registrado como gostaria que fosse sua própria despedida. Segundo ele, a intenção é que o momento seja marcado pela celebração da vida e pela presença das pessoas que fizeram parte de sua trajetória.
“Quando eu morrer, eu quero uma festa muito grande e com convidados. Porque eu tenho uma vida muito boa. Eu tenho amigos muito fantásticos. Eu tenho pessoas que me circunsam. Então, o meu velório vai ser uma festa. Eu quero todo mundo festejando. Festejando a vida que Alfredo teve durante o período dele”, declarou.
Quando a tristeza deixa de fazer parte do processo natural do luto?
Outro ponto abordado na conversa foi o momento em que a dor da perda passa a comprometer a vida de quem permanece. Embora a saudade e a tristeza sejam sentimentos esperados diante da morte de alguém querido, o psicólogo alertou para situações em que o sofrimento impede a pessoa de retomar suas atividades, estabelecer relações e encontrar motivos para continuar vivendo.
Ao explicar quando é necessário procurar acompanhamento psicológico, Alfredo Morais destacou que um dos sinais de alerta é quando a pessoa passa a viver em função da própria dor, como se precisasse demonstrar sofrimento constantemente para provar o quanto amava quem morreu.
“Quando deixamos de viver, quando nos enterramos junto com aquele ente que estava conosco, quando deixamos de sorrir para que o outro veja que estamos em sofrimento. É como se estivéssemos traindo aquele que se foi embora. É como se não estivéssemos prestigiando aquele que se foi. E não é assim”, explicou.
O profissional ressaltou que ninguém precisa permanecer preso à tristeza como forma de demonstrar amor ou respeito por quem partiu. Voltar a sorrir, construir novos vínculos e retomar a rotina não significa apagar as lembranças, mas reconhecer que a vida continua.
A culpa de seguir em frente e a importância de permitir-se viver
A culpa por voltar a experimentar momentos de felicidade também foi discutida durante a entrevista. Muitas pessoas acreditam que seguir a vida significa deixar para trás quem morreu, especialmente quando a pessoa enfrentou um longo período de adoecimento.
Para Alfredo Morais, é necessário mudar essa perspectiva e compreender que a continuidade da vida não representa uma traição à memória de quem partiu.
“Você não está traindo ninguém porque você deu uma risada. Porque, em vida, se você deu risadas com a pessoa, isso tem que prosseguir, porque nossa risada é energia. … Nossa risada desse lado de cá é relembrando as risadas que você deu com a pessoa”, afirmou.
O psicólogo também compartilhou experiências profissionais vivenciadas durante os anos em que trabalhou em hospitais, período em que acompanhou diferentes situações de morte e sofrimento familiar. Segundo ele, a forma como as pessoas lidam com a despedida merece atenção, especialmente para que a dor não se transforme em um processo de adoecimento emocional.
Como acolher alguém que está vivendo o luto?
Ao falar sobre como oferecer apoio a uma pessoa que acabou de perder alguém, Alfredo Morais destacou que nem sempre existem palavras capazes de aliviar a dor. Nesses momentos, a presença, o abraço e a escuta podem ser mais importantes do que qualquer tentativa de explicar ou justificar a morte.
O profissional orientou que familiares e amigos evitem julgamentos, opiniões precipitadas ou frases prontas. O acolhimento deve respeitar o tempo e a maneira como cada pessoa expressa seus sentimentos.
“No momento de luto, principalmente nesse momento de morte imediata, só abraço, só escute. Não tem palavra que você vá dizer que vai mudar a forma de pensar. … Deixa a pessoa dizer o que quer dizer e só escute, sem determinação de opinião. Nesse momento de luto, é o momento de congregar, de ser solidário”, aconselhou.
Ao encerrar a conversa, o psicólogo deixou uma reflexão sobre a brevidade da existência e a importância de valorizar as relações enquanto há tempo. Para ele, a solidariedade e o cuidado com o outro precisam fazer parte da rotina, não apenas nos momentos de despedida.
“É isso que a gente está precisando hoje no mundo: solidariedade. Mas sem esquecer que a vida é só por hoje. Hoje nós estamos conversando, amanhã nós não sabemos se nós vamos estar conversando também. Então, é só por hoje!”, concluiu.