Polarização política vai além das eleições e desafia a democracia, alerta cientista política Denilde Oliveira Holzhacker

A polarização política no Brasil ultrapassa as disputas eleitorais e interfere diretamente nas relações sociais, no funcionamento das instituições democráticas e na capacidade de construção de consensos. A avaliação é da cientista política e professora Denilde Oliveira Holzhacker, entrevistada pelo programa Dia a Dia News, em uma conversa sobre os desdobramentos do segundo turno das eleições, a divisão ideológica da sociedade brasileira e os desafios para reduzir a hostilidade entre grupos com posições políticas diferentes.

Durante a entrevista, a especialista explicou conceitos importantes para compreender o atual cenário político, diferenciou polarização ideológica de polarização afetiva, abordou a influência das redes sociais na formação de grupos e analisou como a intolerância pode comprometer a democracia. Também destacou o papel dos partidos, das lideranças políticas, dos meios de comunicação e das instituições de ensino na construção de um ambiente de maior diálogo.

Polarização ideológica e afetiva: quando a diferença se transforma em rejeição

Ao explicar o conceito de polarização política sob a perspectiva da ciência política, Denilde Oliveira Holzhacker destacou que existem diferentes dimensões desse fenômeno. A polarização ideológica está relacionada à divisão da sociedade em grupos que apresentam visões, crenças e propostas distintas sobre os rumos do país e a condução das políticas públicas.

Em geral, essa divisão se manifesta entre posições identificadas com a direita e a esquerda. Entretanto, a especialista chamou atenção para uma dimensão que considera especialmente importante para compreender o comportamento político contemporâneo: a polarização afetiva.

Segundo ela, enquanto a polarização ideológica representa a oposição entre diferentes ideias e projetos de sociedade, a afetiva envolve uma identificação emocional com determinado grupo e uma relação de rejeição com aqueles que pensam de maneira diferente.

“A polarização afetiva está dentro dessa polarização ideológica. Em geral, ela é reflexo da polarização ideológica, mas tem um componente de identificação entre o grupo em que eu me conecto e acredito naquelas crenças. Ela tem uma relação mais emocional do ponto de vista do indivíduo naquela ligação”, explicou.

A professora acrescentou que, nesse contexto, o indivíduo deixa de enxergar o outro apenas como alguém que possui uma opinião diferente e passa a tratá-lo como um adversário. A divergência, portanto, deixa de ser exclusivamente política e assume uma dimensão pessoal.

“O outro deixa de ser só alguém que pensa diferente de mim, como passa a ser um adversário, como passa a ser alguém de quem eu quero distância”, ressaltou.

Para a cientista política, esse processo ajuda a explicar por que as divergências eleitorais podem ultrapassar o debate público e provocar afastamentos em relações familiares, amizades e outros espaços de convivência.

Redes sociais e a manutenção das bolhas políticas

Questionada sobre a existência de indicadores científicos capazes de medir o nível de polarização de uma população, Denilde afirmou que há uma produção acadêmica ampla sobre o tema. Ela explicou, entretanto, que as características da polarização variam de acordo com a realidade política e social de cada país.

Nos Estados Unidos e nos países europeus, por exemplo, as divisões apresentam particularidades próprias. No Brasil, a especialista apontou uma dinâmica marcada, entre outros aspectos, pelo antibolsonarismo e pelo antilulismo.

Apesar dessas diferenças, existem mecanismos semelhantes na maneira como os grupos se organizam e alimentam suas próprias convicções. Nesse processo, as redes sociais desempenham um papel importante, especialmente por favorecerem a circulação de informações dentro de comunidades com visões semelhantes.

“Os estudos apontam que as redes sociais têm um papel fundamental para manter esses grupos engajados, presentes e se autoalimentando dentro das suas próprias comunidades e grupos”, afirmou.

A professora explicou que esse ambiente pode fortalecer a identificação entre os integrantes de um mesmo grupo e ampliar o distanciamento em relação a quem possui opiniões contrárias. Com isso, as pessoas passam a consumir informações que reforçam suas crenças, enquanto têm menos contato com perspectivas diferentes.

Polarização pode estimular radicalização, mas nem todos os envolvidos adotam posições extremistas

Outro ponto abordado durante a entrevista foi a relação entre polarização política e radicalização ideológica. Para Denilde, os fenômenos estão relacionados, mas é necessário compreender que nem todas as pessoas inseridas em ambientes polarizados apresentam comportamentos extremistas.

A especialista identificou dois grupos dentro dessa dinâmica. O primeiro é formado por pessoas mais engajadas e radicalizadas, que expressam suas posições de maneira intensa, tanto no discurso quanto nas ações. Nesse ambiente, a raiva e a percepção do outro como adversário podem favorecer manifestações de violência.

O segundo grupo é mais silencioso. São pessoas que compartilham determinadas ideias, acompanham os debates e se identificam com um dos polos políticos, mas não necessariamente adotam comportamentos radicais.

“Existe todo outro grupo que a gente estuda também, que é um grupo mais silencioso. Ele tem uma conexão, se conecta com essas ideias, se informa dentro dessa visão, mas não vai ter uma posição mais radical na sua atuação”, explicou.

Na avaliação da professora, essa diferença é importante porque o grupo mais radical costuma ter maior presença e visibilidade nos debates públicos, principalmente nas redes sociais. Por se manifestar com mais intensidade, pode transmitir a impressão de representar a totalidade das pessoas que compartilham determinada posição política.

“Esse grupo minoritário, mais engajado e que tende a ter mais radicalismo, é muito vocal, é o que mais se expressa. E aí parece que ele é a representação do todo”, observou.

Denilde também ressaltou que a polarização não deve ser analisada como um comportamento exclusivo de um dos lados do espectro político. Segundo ela, os dois polos podem apresentar estratégias de atuação distintas, incluindo discursos radicalizados e práticas de desinformação.

Desinformação, narrativas políticas e intolerância democrática

A relação entre polarização, intolerância e dificuldade de construção de consensos também foi discutida pela especialista. Para Denilde, um dos mecanismos que ajudam a sustentar esse cenário é o chamado viés de confirmação, fenômeno pelo qual as pessoas tendem a valorizar informações que reforçam aquilo em que já acreditam.

Nesse processo, as fontes de informação com as quais o indivíduo se identifica passam a ser consideradas verdadeiras, enquanto conteúdos que apresentam perspectivas diferentes podem ser rejeitados ou desacreditados.

A professora também destacou a força das narrativas políticas. Segundo ela, a maneira como um acontecimento é apresentado e interpretado pode influenciar a percepção da população, mesmo quando não existe necessariamente a divulgação de uma informação falsa.

“As narrativas sempre existiram, não são fatores novos na política. A lógica da narrativa me dá o viés do que eu quero ver, do que eu quero entender”, explicou.

A cientista política ressaltou que um mesmo fato pode ser contado a partir de perspectivas diferentes, com escolhas de informações e interpretações capazes de direcionar a compreensão do público. Dessa forma, a construção de narrativas pode reforçar identidades políticas e alimentar a divisão entre grupos.

Para ela, esse mecanismo torna ainda mais difícil estabelecer espaços de diálogo, uma vez que os indivíduos passam a interpretar os acontecimentos a partir de referências previamente estabelecidas e das informações que circulam em seus próprios ambientes de confiança.

Quando a polarização ameaça o funcionamento da democracia

Ao analisar os limites entre uma disputa política legítima e um cenário de ameaça às instituições democráticas, Denilde destacou que a divergência faz parte da própria essência da democracia. A existência de diferentes projetos políticos, opiniões e posicionamentos é necessária para garantir o pluralismo e a participação da sociedade.

O problema começa quando os grupos deixam de reconhecer a legitimidade uns dos outros e passam a questionar as regras e instituições responsáveis por garantir o funcionamento do sistema democrático.

“No momento em que a gente começa a questionar a legitimidade e a confiança sobre as instituições e sobre as regras do jogo, ela passa a comprometer o processo democrático”, afirmou.

A professora explicou que, enquanto os diferentes grupos reconhecem o direito de seus adversários participarem da disputa política e respeitam as regras estabelecidas, a polarização permanece dentro dos limites do debate democrático.

Entretanto, quando os resultados eleitorais passam a ser sistematicamente questionados e as decisões das instituições são deslegitimadas, o cenário se torna mais preocupante.

Denilde também chamou atenção para uma sequência de comportamentos que pode enfraquecer a democracia. Segundo ela, frequentemente, o primeiro movimento é a contestação da legitimidade do resultado eleitoral. Depois, a desconfiança se estende às decisões das instituições e aos diferentes poderes da República.

“O primeiro passo sempre é deslegitimar o resultado da eleição. Então, quem perde começa a questionar os resultados com relação a quem ganhou. O passo seguinte é questionar as decisões das instituições. E aí passa pelo Legislativo, pelo Executivo, pelo Judiciário. E aí, sim, você vai minando a lógica democrática”, alertou.

Na avaliação da especialista, a desconfiança institucional representa um desafio que não se restringe ao Brasil. Ela observou que pesquisas realizadas em diferentes países apontam uma percepção crescente de que as regras do jogo democrático não são justas para todos, situação que pode ampliar os conflitos políticos e enfraquecer a confiança nas instituições.

O papel dos partidos e das lideranças políticas na redução dos conflitos

A responsabilidade dos partidos políticos, das lideranças e dos meios de comunicação na ampliação ou redução da polarização também esteve entre os assuntos abordados na entrevista.

Para Denilde, os partidos enfrentam um processo de deslegitimação semelhante ao observado em outras instituições. A desconfiança da população acaba atingindo o sistema político de maneira mais ampla, reduzindo a capacidade de atuação de organizações tradicionais.

Apesar disso, a professora considera que os partidos possuem uma função fundamental na construção de pontes entre diferentes grupos sociais e ideológicos. Por estarem diretamente envolvidos no processo decisório, essas organizações poderiam contribuir para articular interesses, administrar divergências e estabelecer consensos.

A especialista, entretanto, identificou uma contradição no comportamento de parte das lideranças políticas: em vez de trabalhar para diminuir as distâncias, alguns representantes utilizam a própria polarização como estratégia de fortalecimento político.

“Os atores que poderiam ser capazes de diminuir essas distâncias e criar ambientes de consenso tendem a ser também um dos fomentadores dessa polarização”, avaliou.

Segundo ela, o discurso de confronto pode garantir mais seguidores, ampliar a identificação com determinadas bases eleitorais e manter os grupos mobilizados. Dessa forma, a divisão política acaba sendo utilizada como instrumento de fortalecimento de projetos e lideranças.

Denilde destacou que o caminho para reduzir esse cenário passa pelo reconhecimento de que diferentes grupos podem discordar, mas precisam preservar a capacidade de dialogar e construir soluções conjuntas.

Impactos na governabilidade e na formulação de políticas públicas

A polarização também produz consequências que ultrapassam as relações sociais e alcançam diretamente a administração pública. Durante a conversa, a professora explicou que o conflito entre diferentes forças políticas pode dificultar a aprovação de propostas, comprometer negociações parlamentares e provocar obstáculos à implementação de políticas públicas.

Um dos cenários apontados por ela ocorre quando o governo federal e o Congresso Nacional são controlados por forças políticas distintas. Nessa situação, a divisão presente na sociedade pode se reproduzir dentro das instituições, intensificando os embates entre Executivo e Legislativo.

“Isso acaba gerando o próprio embate que a gente vê na sociedade no processo eleitoral, que vai para a arena decisória como central. E aí você tem táticas de bloqueio, de decisões”, explicou.

De acordo com Denilde, esse tipo de conflito pode provocar paralisia decisória, dificultando a construção de acordos e a aprovação de medidas necessárias para atender às demandas da população.

Por outro lado, a especialista também alertou para os riscos de concentração de poder quando um mesmo grupo político possui maioria nas instâncias decisórias. Nesse contexto, a força política dominante pode criar mecanismos para limitar a participação de grupos minoritários.

“Você tem tanto de um lado situações de paralisia decisória e dificuldades de implementação de políticas públicas, como, do outro lado, ainda mais possibilidade de ter retrocessos democráticos quando há centralização de poder”, destacou.

A análise demonstra que a polarização pode comprometer a governabilidade tanto pela dificuldade de negociação entre forças políticas quanto pela possibilidade de concentração excessiva de poder.

Como reduzir a hostilidade sem eliminar as diferenças políticas?

Ao abordar possíveis caminhos para diminuir a polarização, Denilde Oliveira Holzhacker defendeu que as soluções precisam ultrapassar o ambiente institucional e alcançar as relações cotidianas. Para ela, um dos aspectos mais preocupantes da polarização afetiva é justamente a maneira como ela interfere na convivência entre pessoas que possuem opiniões políticas diferentes.

A professora citou como exemplo os conflitos familiares e as dificuldades de estabelecer relacionamentos amorosos entre pessoas de posicionamentos ideológicos distintos. Ela mencionou pesquisas realizadas nos Estados Unidos que apontam uma mudança no comportamento social: enquanto, há algumas décadas, a identificação partidária não era um critério tão relevante na escolha de um parceiro, atualmente, as diferenças políticas podem representar um impedimento para o início de uma relação.

“Você vai deixar de ter relacionamento com um membro da sua família porque ele pensa diferente? Como que a gente vai criar essas pontes?”, questionou.

Na avaliação da especialista, é necessário recuperar a capacidade de escuta e criar espaços em que pessoas com diferentes visões de mundo possam conversar sem transformar a divergência em motivo de afastamento ou hostilidade.

Nesse processo, ela destacou a importância das escolas, universidades e grupos religiosos, que podem contribuir para a formação de uma cultura de diálogo, respeito e convivência com as diferenças.

“Começa na sociedade, de criar formas de diálogo que criem espaços em que as pessoas possam se ouvir e ter uma capacidade maior de escuta com relação ao diferente. Então, as escolas têm esse papel, as universidades, os grupos religiosos têm esse papel”, afirmou.

A professora também ressaltou que a redução da polarização afetiva depende de uma mudança na maneira como as pessoas compreendem suas próprias relações. Para ela, é importante perceber que alguém não precisa compartilhar as mesmas convicções políticas para continuar sendo parte da família, do círculo de amizades ou da comunidade.

Regulação das redes sociais e responsabilidade das grandes empresas de tecnologia

Outro caminho apontado por Denilde envolve o debate sobre a responsabilidade das grandes empresas de tecnologia, conhecidas como Big Techs, na dinâmica de polarização política.

A especialista considera que a atuação das plataformas digitais precisa fazer parte das discussões sobre o enfrentamento da desinformação e da hostilidade entre grupos. Para ela, esse processo envolve tanto medidas de regulação quanto iniciativas de autorregulação das próprias empresas.

Entretanto, a professora ponderou que mudanças nesse ambiente dependem também da pressão da sociedade e da atuação dos órgãos públicos.

“Depende de ações de regulação, depende de ações políticas, mas depende também de uma discussão das próprias Big Techs e da autorregulação das próprias Big Techs, que só vai acontecer se tiver pressão da sociedade e pressão dos órgãos públicos”, destacou.

Na avaliação da cientista política, a combinação entre educação, abertura ao diálogo, fortalecimento dos espaços de convivência e responsabilidade das plataformas pode contribuir para reduzir a hostilidade política.

Ao concluir a entrevista ao Dia a Dia News, Denilde reforçou que o enfrentamento da polarização não significa eliminar as diferenças ideológicas ou impedir a disputa entre projetos políticos. O desafio é preservar a diversidade de opiniões sem permitir que ela se transforme em intolerância, violência ou desrespeito às instituições democráticas.

A análise apresentada pela especialista aponta que a polarização é um fenômeno complexo, que envolve fatores políticos, sociais, emocionais e tecnológicos. Seus efeitos não ficam restritos aos períodos eleitorais, mas podem alcançar a vida familiar, as relações de amizade, o ambiente de trabalho e a própria capacidade do país de construir soluções coletivas.

Nesse cenário, a defesa da democracia também passa pela disposição de reconhecer o outro como alguém que tem o direito de pensar diferente. Afinal, a convivência democrática não exige que todos tenham as mesmas opiniões, mas pressupõe que as divergências possam existir sem comprometer o respeito, o diálogo e as regras que garantem a participação de todos.

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