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Dia Internacional da Parteira reforça importância da assistência humanizada e destaca desafios da obstetrícia no Brasil

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Celebrado em 5 de maio, o Dia Internacional da Parteira chama atenção para a importância de profissionais que exercem papel fundamental no cuidado à saúde materna e neonatal. Muito além do momento do parto, a atuação das parteiras  incluindo parteiras tradicionais, enfermeiras obstetras e obstetrizes representa uma assistência integral, centrada no acolhimento, na segurança e no respeito à fisiologia do nascimento.

A data também funciona como um convite à reflexão sobre os avanços necessários para fortalecer a humanização da assistência obstétrica no Brasil, país que ainda enfrenta altos índices de cesarianas, excesso de intervenções médicas e relatos recorrentes de violência obstétrica.

A enfermeira obstetra Vanuza Campos destaca que o papel dessas profissionais vai muito além do acompanhamento técnico. Segundo ela, o diferencial está justamente na forma ampliada como o cuidado é compreendido.

Vanuza Campos| Foto: Arquivo Pessoal

“O acompanhamento não se restringe ao dia do parto. É um cuidado que começa ainda na gestação e se estende ao pós-parto, acolhendo não apenas os aspectos físicos, mas também emocionais, familiares e sociais dessa mulher e de toda a sua rede de apoio”, explica.
“O acompanhamento não se restringe ao dia do parto. É um cuidado que começa ainda na gestação e se estende ao pós-parto, acolhendo não apenas os aspectos físicos, mas também emocionais, familiares e sociais dessa mulher e de toda a sua rede de apoio”, explica.

Vanuza ressalta que um dos pilares da assistência obstétrica humanizada é compreender o parto como um processo fisiológico, natural e saudável.

“Existe ainda uma visão muito medicalizada da gestação e do parto, como se fossem situações patológicas. Na maioria das vezes, trata-se de processos naturais que não demandam intervenção médica excessiva nem, necessariamente, ambiente hospitalar.”

Essa perspectiva dialoga com recomendações internacionais que defendem uma assistência menos intervencionista para gestações de risco habitual, priorizando o protagonismo da mulher e o respeito ao ritmo natural do nascimento.

Resgate de práticas históricas

Entre os temas que ainda geram debate está o parto domiciliar planejado.

Embora muitas vezes tratado como novidade ou modismo, a enfermeira reforça que essa é uma prática ancestral, presente desde o início da humanidade.

“O parto sempre foi, historicamente, um evento familiar, íntimo e essencialmente feminino. O que buscamos hoje é justamente resgatar essa essência, sempre com respaldo técnico e dentro de protocolos rigorosos de segurança”, pontua a enfermeira.

Ela destaca que o parto domiciliar é legalizado no Brasil e segue diretrizes específicas para garantir a segurança da mãe e do bebê, sendo indicado apenas para gestações de risco habitual e com acompanhamento profissional qualificado.

Além das maternidades, a assistência obstétrica também pode ocorrer em casas de parto e outros espaços preparados para acolher partos fisiológicos.

Impacto comprovado na saúde pública

De acordo com Vanuza Campos, organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde têm reforçado a necessidade de ampliar a formação e a atuação de parteiras em todo o mundo.

A razão é simples: estudos nacionais e internacionais mostram que a presença dessas profissionais está diretamente associada à melhoria dos indicadores obstétricos.

Entre os benefícios apontados estão a redução da mortalidade materna e neonatal, menor número de intervenções desnecessárias, melhores desfechos clínicos e maior satisfação das famílias com a experiência do parto.

“A assistência prestada por enfermeiras obstetras está relacionada a uma condução mais fisiológica do processo, menor probabilidade de intercorrências e experiências mais positivas para mães e bebês.”

Nos últimos anos, a busca por esse tipo de assistência tem crescido gradativamente.

Esse movimento acompanha uma mudança cultural impulsionada pelo debate sobre humanização do parto e pela insatisfação de muitas mulheres com modelos excessivamente medicalizados.

Ainda assim, Vanuza avalia que a transformação está longe de ser concluída.

“Existe uma movimentação importante, mas o processo ainda está distante de se concretizar plenamente.”

Os desafios de transformar a obstetrícia brasileira

Apesar dos avanços, os obstáculos permanecem expressivos.

O Brasil figura entre os países com maiores taxas de cesarianas no mundo, realidade frequentemente apontada por especialistas como reflexo de um modelo obstétrico centrado na intervenção.

Para a enfermeira, esse cenário revela um sistema ainda fortemente hegemônico, marcado por práticas que muitas vezes desconsideram a fisiologia do parto.

“Temos um modelo com excesso de cesarianas, excesso de intervenções e altas taxas de violência obstétrica. Oferecer uma assistência diferente da que está consolidada exige resistência, tanto das mulheres quanto dos profissionais.”

Outro desafio está na ausência de diálogo entre os saberes tradicionais e a medicina hospitalar.

Segundo Vanuza, a integração entre esses conhecimentos poderia enriquecer significativamente o cuidado obstétrico.

“Há muito a aprender com os saberes tradicionais. Infelizmente, em muitos cenários brasileiros, esse diálogo ainda é muito limitado.”

Histórias que transformam vidas

Ao falar sobre experiências marcantes na profissão, Vanessa afirma ser impossível destacar apenas uma.

Cada parto, segundo ela, carrega singularidades capazes de impactar profundamente quem acompanha o processo.

Ela menciona especialmente os partos domiciliares, por exigirem uma entrega diferenciada por parte da equipe.

“Entrar na casa de uma família para prestar assistência exige sensibilidade e respeito profundos. São vivências únicas, intensas e transformadoras.”

Valorização passa por políticas públicas

Para que a atuação das parteiras e enfermeiras obstetras seja efetivamente reconhecida, Vanuza defende mudanças estruturais.

Ela aponta que a valorização da categoria depende da reorganização dos sistemas de saúde e da implementação de políticas públicas alinhadas às orientações da Organização Mundial da Saúde.

A principal meta, segundo ela, é consolidar a enfermeira obstetra como líder do cuidado em gestações de risco habitual.

“Quando conseguirmos concretizar essa reforma obstétrica, com a enfermeira obstetra ocupando o lugar que lhe é recomendado internacionalmente, teremos mudanças reais e significativas no cenário brasileiro.”

No Dia Internacional da Parteira, a data reforça não apenas a celebração de uma profissão histórica, mas a urgência de repensar modelos de assistência ao parto, colocando no centro do cuidado o respeito, a autonomia da mulher e a humanização do nascer.

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