Celebrado oficialmente como o marco da abolição da escravidão no Brasil, o 13 de maio tem sido cada vez mais revisitado sob uma perspectiva crítica por pesquisadores e estudiosos da história social brasileira. Para a historiadora Joselice Souza, a data não deve ser tratada como uma celebração, mas como um convite à reflexão profunda sobre as contradições que cercam o processo abolicionista e, principalmente, sobre as marcas estruturais deixadas por mais de três séculos de escravidão.
Segundo a professora, durante muito tempo consolidou-se no imaginário nacional uma narrativa simplificada sobre a assinatura da Lei Áurea, em 1888, centrada na figura da princesa Isabel como responsável exclusiva pelo fim da escravidão no país. Essa interpretação, amplamente difundida por décadas, reforçou o chamado “mito da Redentora”, atribuindo ao gesto da monarquia uma suposta benevolência histórica.
Para Joselice Souza, no entanto, essa leitura desconsidera o contexto de intensas mobilizações sociais e políticas protagonizadas pela população negra.
“Durante muito tempo essa data marcou o mito da Redentora, a ideia de que a abolição do sistema escravagista, absurdamente violento e desumanizador, só foi abolido por força e boa vontade de uma pessoa, da princesa Isabel. Mas as pesquisas históricas mostram que não foi bondade, não foi algo dado. Foi fruto de muitas lutas que sempre existiram.”

A historiadora destaca que o fim legal da escravidão foi resultado direto da resistência negra ao longo dos séculos, por meio de fugas, formação de quilombos, revoltas, articulações políticas e participação ativa no movimento abolicionista. Essas ações, muitas vezes invisibilizadas pela narrativa oficial, foram determinantes para o enfraquecimento e posterior colapso do sistema escravista.
O silêncio do 14 de maio
Mais do que revisitar o passado, Joselice chama atenção para uma reflexão frequentemente negligenciada: o que aconteceu no dia seguinte à abolição?
Para ela, o 14 de maio simboliza uma das maiores omissões históricas do Estado brasileiro: a ausência de qualquer política concreta de reparação, inclusão ou assistência à população recém-liberta.
“É preciso pensar no dia seguinte após a abolição. Para onde foram essas pessoas? O que o Estado brasileiro fez como medida indenizatória ou de reconstrução dessas vidas? A resposta é clara: praticamente nada.”
Sem acesso à terra, educação, moradia ou inserção econômica, milhões de ex-escravizados foram lançados à própria sorte, inaugurando um processo de exclusão social cujos impactos se refletem até hoje em indicadores de desigualdade racial.
A professora observa que essa lacuna histórica permanece como uma ferida aberta na sociedade brasileira.
“A sociedade brasileira ainda se mostra pouco disposta a tocar nessa ferida para curá-la de vez.”
Abolição incompleta
Na avaliação da historiadora, falar sobre o 13 de maio exige reconhecer que a abolição, embora formalizada juridicamente, não se concretizou plenamente na prática.
Ela defende que a verdadeira emancipação da população negra depende da implementação efetiva de políticas públicas capazes de garantir cidadania plena, acesso a oportunidades e combate estrutural ao racismo.
“Nós entendemos que essa abolição ainda não aconteceu. Ela só vai se completar quando o Estado brasileiro assegurar políticas públicas reais de inserção e quando o racismo passar a ser combatido por toda a sociedade.”
Joselice destaca que o enfrentamento ao racismo não deve ser responsabilidade exclusiva da população negra, mas um compromisso coletivo e institucional.
“Queremos acesso a meios de garantia de oportunidade. Queremos sair dos ciclos de escassez material e baixa instrução. Não queremos continuar engrossando as estatísticas mais perversas deste país.”
Uma data de memória e luta
A reflexão proposta por Joselice Souza reforça uma compreensão cada vez mais presente nos debates contemporâneos: o 13 de maio não deve ser reduzido a uma efeméride comemorativa, mas encarado como marco de memória, denúncia e resistência.
Mais do que rememorar o fim legal da escravidão, a data impõe ao Brasil o desafio de enfrentar os efeitos persistentes de um passado que ainda reverbera nas desigualdades sociais, econômicas e raciais.
Ao invés de celebração, a historiadora propõe consciência histórica.
“A liberdade, por si só, não bastou. Ainda há muito a ser feito. É um trabalho coletivo, de longo prazo, para que possamos finalmente ver essa abolição se completar.”
