O comércio de Feira de Santana atravessa 2026 diante de um cenário de contrastes. Enquanto alguns segmentos apresentam crescimento e o município registra geração de empregos, outras atividades sofrem com a concorrência de produtos importados, juros elevados, inadimplência, endividamento das famílias e mudanças nas regras de tributação.
A avaliação é do presidente do Sindicato do Comércio de Feira de Santana e diretor da Fecomércio, Marcos Silva. Em entrevista, ele analisou o desempenho do setor no primeiro semestre e apontou os principais obstáculos para os empresários.
Primeiro semestre
Segundo Marcos, o comércio iniciou o ano com um desempenho considerado razoável a positivo, mas o cenário mudou ao longo dos meses.
“A gente teve o primeiro semestre com características diferentes. A gente tinha um desempenho bom, razoável para bom, positivo, e houve uma mudança nesse caminho, no meio do jogo, a gente teve uma mudança da regra do jogo, que deu um impacto muito grande no varejo”, afirmou.

De acordo com ele, algumas atividades tiveram pequeno crescimento, enquanto outras ficaram estáveis. Os maiores impactos foram sentidos por segmentos que trabalham com produtos de menor valor.
Concorrência com importados
Um dos principais problemas apontados pelo dirigente é a concorrência com produtos vendidos diretamente por empresas estrangeiras.
Marcos Silva criticou o que considera uma diferença de tratamento tributário entre os comerciantes brasileiros e os produtos importados.
“Principalmente quem lida com produtos de menor valor foi muito impactado pela extinção da chamada taxa das blusinhas, que cria uma concorrência desleal”, explicou.
Ele ressaltou que a posição do setor não é pela eliminação dos impostos, mas pela busca de condições mais equilibradas.
“A gente não é a favor do imposto, de forma nenhuma. Mas a gente queria que as empresas que estivessem aqui também tivessem essa isenção, que não têm”, disse.
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Segundo Marcos, o aumento das importações nos meses recentes amplia a preocupação entre os comerciantes.
Concorrência sempre existiu
O presidente do sindicato fez questão de diferenciar a concorrência tradicional da competição provocada pela diferença de tributação.
Para ele, Feira de Santana sempre teve um comércio marcado pela diversidade e pela concentração de determinados segmentos em regiões específicas.
“Você quer uma peça de trator, você sai daqui, vai na Presidente Dutra e encontra dezenas de lojas. Você quer calçados, confecções, vai no centro da cidade e encontra dezenas de lojas”, exemplificou.
Na avaliação dele, essa variedade fortalece o comércio local.
“A competição nunca foi problema para Feira de Santana. O que a gente reclama é da competição desleal”, afirmou.
Empregos
Mesmo com os desafios, Feira de Santana registrou crescimento na geração de empregos no primeiro semestre de 2026.
Marcos Silva informou que o município criou 232 postos de trabalho no período. O desempenho, porém, foi diferente entre os setores.
Segundo ele, enquanto a geração de empregos de maneira geral cresceu, o comércio urbano apresentou resultado negativo.
“Há muito tempo a gente não tinha isso”, destacou.
Resistência empresarial
Para Marcos, os números não devem ser analisados sem considerar a capacidade de resistência dos empresários de Feira de Santana.
Ele citou como exemplo uma grande rede nacional que fechou quase 30 lojas no país. Segundo o dirigente, as unidades de Feira de Santana não foram fechadas por problemas de desempenho, mas uma delas acabou encerrada após um incêndio e dificuldades na reforma.
“Você vê como Feira de Santana é diferenciada, como tem um povo trabalhador, como tem um comerciário bom e um empresário também que bota a cara na tela, se arrisca, faz investimento”, afirmou.
Segmentos em destaque
O comércio local apresenta desempenhos diferentes entre os segmentos. Marcos destacou as atividades relacionadas a motocicletas, peças para motos, bicicletas, revenda e aluguel de veículos.
Ele também chamou atenção para o crescimento do consumo de produtos de cuidados pessoais, especialmente entre os homens.
“O homem hoje está se cuidando. Hoje um homem usa um dermocosmético, usa perfume, usa produtos que antigamente a gente não via muito esse consumo”, comentou.
Segundo Marcos, essas mudanças de comportamento abrem espaço para novas oportunidades comerciais.
Feira além dos limites do município
O comércio de Feira de Santana também é beneficiado pela influência regional da cidade.
Marcos estima que cerca de 40% dos consumidores que compram no município sejam provenientes de outras cidades.
“Feira é uma região metropolitana, está na lei e também está no fato. Hoje a gente estima que 40% dos clientes que vêm comprar em Feira de Santana vêm de outra cidade”, afirmou.
Para ele, essa característica faz com que os resultados do comércio tenham impacto direto em diversos municípios.
Juros e endividamento
Além dos impostos e da concorrência internacional, o comércio sofre com a dificuldade de acesso ao crédito.
Marcos classificou a combinação de juros altos, endividamento, carga tributária, produtos importados e apostas esportivas como um conjunto de fatores que pressionam o consumo.
“A gente está chamando o combo da maldade com o comércio”, afirmou.
Ele destacou que os juros elevados afetam tanto empresas quanto consumidores.
Inadimplência
O dirigente também chamou atenção para o crescimento da inadimplência.
Segundo Marcos, é importante diferenciar o consumidor endividado daquele que já perdeu a capacidade de pagar as contas.
“Não é aquele que está girando. É aquele que não está conseguindo mais pagar”, explicou.
Durante a entrevista, ele mencionou uma estimativa de cinco milhões de pessoas inadimplentes na Bahia.
Na avaliação dele, a situação acaba afastando milhões de consumidores do mercado.
“Essa pessoa está fora da cidadania, do consumo. Porque ela não pode ter um cartão de crédito”, afirmou.
Crédito caro
Marcos também criticou o custo de modalidades de crédito como cartão e cheque especial.
“Na hora que a empresa ou a família entra no cheque especial ou no cartão de crédito rotativo, é muito difícil sair com a taxa de juros que estão pagando”, disse.
Para ele, medidas de renegociação são importantes, mas não suficientes para resolver o problema.
“O Desenrola baixou a febre daquela pessoa que estava endividada, mas a gente tem que tratar a infecção”, afirmou.
Segundo o dirigente, o controle das contas públicas e a redução dos juros seriam fundamentais para melhorar a capacidade de consumo.
Impacto das bets
As apostas esportivas também foram incluídas entre os fatores que preocupam o setor.
Marcos afirmou que não é contra a regulamentação das bets, mas defendeu restrições à publicidade.
“Dizer que bet é legal, é regulamentado, paga imposto, então ninguém é contra bet. Agora precisa ser, como por exemplo o cigarro, feita uma regulamentação da propaganda”, declarou.
Para ele, o dinheiro destinado às apostas representa uma redução da renda disponível das famílias para outras despesas, inclusive o consumo.
Comércio eletrônico
O avanço do comércio eletrônico é outro desafio para os empresários, mas Marcos acredita que a internet também pode ser uma aliada.
Ele defende que os comerciantes de Feira utilizem redes sociais e aplicativos para ampliar as vendas.
“Hoje qualquer empresário com um smartphone na mão tem acesso a esse mundo. Ele vende no Instagram, no Facebook, no WhatsApp ou pode ter uma página dele”, afirmou.
Segundo Marcos, a tendência é de integração entre as lojas físicas e o comércio digital.
Perspectiva
Mesmo diante do cenário de dificuldades, Marcos Silva mantém uma visão positiva sobre a capacidade de recuperação de Feira de Santana.
Para ele, a força do comércio regional, a diversidade dos segmentos e o perfil empreendedor dos empresários podem ajudar o setor a superar os obstáculos.
“Feira de Santana é uma cidade fantástica e a gente vai superar isso. Já está superando”, concluiu.
