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“Vulnerabilidade não se resolve com julgamento”: especialistas analisam caso do jovem morto na Bica

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Um homem morreu na manhã deste domingo (30) após invadir a jaula de uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara (Bica), em João Pessoa.
Gerson de Melo Machado, de 19 anos, conhecido como Vaqueirinho, tinha transtornos mentais e hiperfoco em leões.

Milena Carneiro, psicóloga clínica e hospitalar, explicou em entrevista ao Dia a Dia News como o sofrimento psíquico, quando não é acolhido de maneira adequada, pode levar uma pessoa a situações extremas de vulnerabilidade. Segundo ela, o caso do jovem traz à tona algo muito mais profundo do que a tragédia em si.

“Ele evidencia, de forma dolorosa, como o sofrimento psíquico, quando não é acolhido de maneira adequada, pode levar uma pessoa a situações extremas de vulnerabilidade. Quando olhamos por uma perspectiva psicológica, entendemos que comportamentos de alto risco, como esse, não acontecem do nada”, disse.

Milena continua:

“Eles costumam estar associados a um estado de desorganização interna, impossibilidade, percepção distorcida da realidade ou até um pedido de ajuda silenciosa. É importante reforçar que pessoas com transtorno mental não são perigosas, elas são vulneráveis — e vulnerabilidade não se resolve com julgamento, se resolve com cuidado, presença, acolhimento e políticas públicas que funcionem na prática.”

A profissional destacou que, como sociedade, precisamos olhar para essas situações com mais empatia e menos preconceito.

“Precisamos entender que saúde mental não é apenas um diagnóstico, mas um conjunto de fatores sociais, emocionais e familiares que podem tanto proteger quanto fragilizar alguém.”

Daniele Machado, psicóloga clínica e especialista no acolhimento de jovens, adultos e idosos, também falou sobre o caso e destacou o hiperfoco, muito associado ao discurso sobre TDAH e ao espectro autista.

“Temos que ter muito cuidado na diferenciação dessas coisas e também na relativização desse ponto, porque todos nós temos o hiperfoco, que é uma dinâmica cerebral que nos coloca ali com atenção plena e direcionada para algo que nos gera prazer ou satisfação, sendo ativado no indivíduo a partir daquilo com que ele se identifica”, relatou.

Ela continua:

“O sistema límbico fica ativado é o sistema que processa nossas emoções, através da liberação de dopamina e de outros hormônios que geram e sustentam essa sensação. Ela pode ser rápida, dependendo da dinâmica, ou algo mais tonificado e sustentado a partir de uma elaboração, quando é uma dinâmica mais mecânica ou manual.”

Daniele também destacou o papel das redes sociais e dos vídeos curtos:

“Na dinâmica da rede social, em vídeos curtos, ficamos muito mais sedentos e direcionados a consumir mais e mais.”

Ela concluiu, falando sobre o jovem:

“Com essa dinâmica sendo recorrente, sim, ele pode ter hiperfoco. Mas precisamos analisar de modo muito minucioso qual seria o transtorno, qual dinâmica já foi levantada devido ao histórico dele, às passagens policiais, ao acompanhamento no CAPS e tudo mais. Mas todos nós temos essa dinâmica de hiperfoco, porque é uma dinâmica de prazer e satisfação que nos deixa mais interessados naquilo que nos traz identificação e que gostamos.”

A conselheira tutelar Verônica Oliveira, que acompanhou Gerson desde a infância, afirmou que o jovem tinha diagnóstico de esquizofrenia e era atendido pelo Conselho Tutelar desde criança.

Em nota, a Prefeitura de João Pessoa informou que equipes de segurança tentaram impedir a ação, mas Gerson agiu rapidamente para acessar a área restrita. Após o ataque, o parque foi imediatamente fechado para os procedimentos de segurança e remoção do corpo.

Escrita pela estagiária Fernanda Martins, com informações:Fernanda Martins/CNN Brasil. Fotos:Divulgação

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