Um único litro de leite materno pode beneficiar até 10 bebês internados em unidades neonatais. Apesar de o Brasil ser referência mundial em bancos de leite humano, especialistas alertam que milhares de recém-nascidos ainda dependem do aumento no número de doadoras para receber o alimento considerado essencial nos primeiros dias de vida.
Segundo a Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, somente em 2025 foram coletados mais de 260 mil litros de leite, volume que beneficiou diretamente mais de 235 mil bebês em todo o país. No mesmo período, cerca de 196 mil mulheres participaram da rede como doadoras.
O leite materno é considerado o padrão-ouro da nutrição infantil, especialmente para bebês prematuros. Rico em anticorpos, enzimas e fatores imunológicos, ele ajuda a reduzir infecções, favorece o desenvolvimento neurológico e contribui para a recuperação de recém-nascidos internados em Unidades de Terapia Intensiva Neonatal (UTIs).
Foi essa a realidade vivida por Agda e sua filha Amora. Amora nasceu com apenas 27 semanas de gestação e precisou permanecer internada por quase três meses no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Logo após o parto, Agda começou a retirar o próprio leite seguindo orientação da equipe do banco de leite humano da instituição. Como a bebê era extremamente prematura, o alimento passava por pasteurização antes de ser oferecido na UTI neonatal.
“Assim que ela nasceu, recebi todas as orientações sobre amamentação e comecei a estimular a produção de leite. Eu ordenhava diariamente, e o leite era utilizado tanto para ela quanto para outros bebês internados. Foi uma forma de contribuir para a recuperação da minha filha e ajudar outras famílias que viviam a mesma situação”, relembra.
Amora só conseguiu mamar diretamente no peito próximo da alta hospitalar. Para facilitar essa transição, mãe e filha permaneceram juntas por mais alguns dias no hospital até que a bebê adquirisse força suficiente para se alimentar exclusivamente por amamentação. Depois de voltar para casa, a amamentação continuou até que Amora completasse 1 ano e 8 meses. Nesse período, Agda também permaneceu doando o excedente de leite para ajudar outros recém-nascidos.
“Para o prematuro, o leite funciona quase como um medicamento”
Segundo Denise Suguitani, diretora executiva da ONG Prematuridade.com, o leite humano vai muito além da nutrição para bebês que nasceram antes do tempo. “Para os prematuros, o leite humano é muito mais do que alimento. Ele funciona quase como um medicamento, ajudando a reduzir complicações, fortalecer a imunidade e apoiar o desenvolvimento do bebê em uma fase extremamente delicada da vida. Histórias como a da Agda e da Amora mostram como esse recurso pode fazer diferença na trajetória de toda uma família.”
Há anos parceira institucional da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, a ONG Prematuridade.com destaca que o Brasil possui a maior e mais reconhecida rede de bancos de leite humano do mundo, modelo que inspira iniciativas semelhantes em diversos países. Mesmo com essa estrutura, especialistas afirmam que desafios como logística, processamento do leite e ampliação do número de doadoras ainda limitam o atendimento a todos os bebês que precisam desse suporte.
“Muitas mulheres não sabem que podem doar o excedente de leite e ajudar recém-nascidos que dependem desse alimento para sobreviver e se desenvolver. A doação é um ato de solidariedade que conecta famílias e fortalece uma rede de cuidado essencial para milhares de bebês prematuros em todo o país”, afirma Denise.
Quem pode doar?
Pode doar leite humano toda mulher saudável que esteja amamentando e produza leite além da necessidade do próprio bebê. Antes de chegar aos recém-nascidos, todo o leite passa por rigorosos processos de controle de qualidade realizados pelos bancos de leite humano.
As mulheres interessadas podem localizar o banco de leite ou posto de coleta mais próximo por meio do mapa da Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano, disponível no portal da Fiocruz, que reúne as unidades em funcionamento e orienta sobre o cadastro, a coleta e a doação.
Fonte:Jornal Correios Foto:Divulgação