Maioria dos casos não apresenta sintomas
As hepatites virais podem permanecer por anos sem provocar qualquer sinal perceptível, o que faz com que muitas pessoas convivam com a doença sem saber. A ausência de sintomas é um dos principais desafios para o diagnóstico precoce e, consequentemente, para evitar complicações que podem comprometer o fígado.
Em entrevista ao programa Dia a Dia News, a hepatologista Karina Maia explicou que essa característica faz com que grande parte dos pacientes descubra a doença apenas durante exames realizados por outros motivos.
“A grande maioria dos indivíduos terá um curso silencioso, ou seja, não terá manifestação clínica. Um percentual pequeno apresenta a icterícia, que é o olho amarelo, mas a maioria descobre a infecção de forma rotineira, fazendo exames ou durante a doação de sangue, quando são realizadas as sorologias obrigatórias”, afirmou.
Segundo a especialista, esperar o aparecimento de sintomas não é a melhor estratégia.
“Muitas vezes o paciente não sente absolutamente nada, mas o vírus continua provocando inflamação no fígado. Por isso, o diagnóstico precoce faz toda a diferença.”
Hepatites A, B e C possuem características diferentes
Karina Maia explica que, apesar de todas provocarem inflamação no fígado, as hepatites A, B e C possuem diferenças importantes quanto à transmissão, evolução e tratamento.
A hepatite A é transmitida principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados e, felizmente, costuma apresentar evolução benigna.
“Na hepatite A, em praticamente todos os casos, o próprio sistema imunológico entra em combate com o vírus e consegue eliminá-lo espontaneamente. É uma doença que não cronifica.”
Já as hepatites B e C apresentam comportamento diferente.
“Quando o indivíduo se contamina com os vírus da hepatite B ou C, o sistema imunológico pode não conseguir controlar a infecção. O vírus permanece no organismo e isso pode gerar inflamação contínua no fígado.”
Essa permanência do vírus é o que caracteriza a forma crônica da doença, exigindo acompanhamento especializado e, em muitos casos, tratamento medicamentoso.
Formas de transmissão exigem atenção
A médica ressalta que conhecer as formas de transmissão é fundamental para reduzir o número de novos casos.
No caso da hepatite B, a principal via de transmissão é a relação sexual desprotegida.
“A grande maioria dos indivíduos contaminados adquiriu a infecção através do sexo sem preservativo. Mas o vírus também pode ser transmitido da mãe para o filho durante o parto e pelo contato com sangue contaminado.”
Já a hepatite C apresenta outro perfil epidemiológico.
“A principal forma de transmissão da hepatite C é o contato com sangue contaminado. A transmissão sexual e a transmissão de mãe para filho são consideradas raras.”
Por esse motivo, a especialista reforça que objetos como alicates de unha, lâminas de barbear, agulhas, seringas e qualquer material perfurocortante jamais devem ser compartilhados.
Ela também orienta que tatuagens e piercings sejam realizados apenas em locais que sigam rigorosamente as normas de biossegurança.
Evolução pode causar complicações graves
Embora muitas pessoas convivam durante anos sem sintomas, Karina Maia alerta que as hepatites crônicas podem provocar danos progressivos ao fígado.
Segundo ela, quando a inflamação permanece por muito tempo, o órgão pode desenvolver fibrose, cirrose e até câncer.
“Todo paciente com hepatite viral precisa ser avaliado por um especialista para definir a gravidade da doença. Em alguns casos, essa infecção pode evoluir para quadros graves e até gerar indicação de transplante hepático.”
A médica destaca que identificar a doença ainda na fase inicial aumenta significativamente as chances de sucesso do tratamento.
“Quando conseguimos descobrir a infecção precocemente, os resultados do tratamento costumam ser muito mais satisfatórios.”
Tratamentos disponíveis pelo SUS
Os avanços da medicina mudaram o prognóstico das hepatites virais nos últimos anos.
Para pacientes com hepatite A, o tratamento é apenas de suporte, já que o organismo elimina naturalmente o vírus.
“Não existe um medicamento específico para hepatite A porque a defesa do próprio organismo consegue controlar a infecção.”
Já na hepatite B, o tratamento é indicado para os pacientes que desenvolvem a forma crônica da doença.
“Os antivirais conseguem controlar a doença, mas não promovem a cura definitiva.”
No caso da hepatite C, a realidade é diferente.
“Hoje nós temos tratamento capaz de promover a cura virológica completa. O vírus é totalmente eliminado do organismo.”
Karina Maia lembra que tanto os medicamentos quanto o acompanhamento especializado são oferecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Exames podem identificar a doença antes dos sintomas
Como a maioria das infecções não apresenta sinais clínicos, a especialista recomenda que a investigação das hepatites faça parte dos exames de rotina.
“Existem exames específicos para o fígado e as sorologias para hepatite A, B e C. Sempre orientamos que esses exames sejam incluídos na avaliação de rotina, principalmente para quem nunca foi testado.”
Ela destaca que alguns grupos precisam de atenção especial.
“Usuários de drogas injetáveis, pessoas que compartilham materiais perfurocortantes, profissionais do sexo, quem fez tatuagens ou colocou piercings em locais sem biossegurança adequada e pessoas que receberam transfusão de sangue antes da implantação da triagem obrigatória devem realizar a investigação.”
Além dos exames laboratoriais, os testes rápidos estão disponíveis nas Unidades Básicas de Saúde.
“O resultado sai em poucos minutos e, quando necessário, o paciente é encaminhado para o serviço especializado.”
Vacinação e prevenção continuam sendo fundamentais
Karina Maia reforça que a prevenção continua sendo a principal arma contra as hepatites virais.
Para a hepatite A, ela orienta manter hábitos de higiene, consumir água tratada e alimentos de procedência confiável.
Já para a hepatite B, a vacinação é considerada indispensável.
“A vacina é a principal forma de prevenção. Está disponível gratuitamente pelo SUS para todas as faixas etárias e é aplicada em três doses. Quem ainda não foi vacinado deve procurar a unidade de saúde mais próxima.”
Como ainda não existe vacina contra a hepatite C, a prevenção depende principalmente de evitar contato com sangue contaminado.
Ao encerrar a entrevista, a hepatologista fez um apelo para que a população aproveite os serviços disponíveis na rede pública.
“Os testes rápidos estão acessíveis nas unidades de saúde. Se você nunca fez o exame, procure uma UBS, faça a testagem e mantenha sua vacinação em dia. Informação, prevenção e diagnóstico precoce são as melhores formas de proteger o fígado e evitar complicações futuras.”