Feira Tem Teatro abre nova temporada com espetáculo que aborda violência contra a mulher

Projeto completa oito anos e retoma programação em Feira de Santana

O teatro feirense ganha mais uma oportunidade de ocupar os palcos e dialogar com questões presentes na sociedade. O projeto Feira Tem Teatro inicia uma nova temporada em Feira de Santana com o espetáculo “Ópera de Quarto”, apresentado nesta sexta-feira (14) e sábado (15), no Teatro do CUCA.

Idealizado e realizado pelo produtor Giovanni Mascarenhas, o projeto chega aos oito anos de atuação no cenário cultural do município. A iniciativa tem como proposta fortalecer a produção teatral local, abrindo espaço tanto para novos talentos quanto para artistas que já possuem uma trajetória consolidada nos palcos.

Em entrevista ao Dia a Dia News, a atriz Jaci Queiroz destacou a importância do projeto para a cena cultural de Feira de Santana e ressaltou que o Feira Tem Teatro funciona como um espaço de encontro entre artistas, público e diferentes manifestações culturais.

Segundo ela, o projeto possibilita que espetáculos adultos produzidos em Feira de Santana encontrem espaço para serem apresentados e contribui para o surgimento e a valorização de novos talentos.

“Ópera de Quarto” aborda violência, poder e relações abusivas

Responsável por abrir a nova temporada, “Ópera de Quarto” é um espetáculo musical dramático inspirado na obra “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos.

Com texto e direção de Giovanni Mascarenhas, a montagem conta com Jace Queiroz, Dezô Mota e Bruno Santana no elenco. A narrativa utiliza a estética do submundo para abordar relações de poder, exploração e diferentes formas de violência.

A personagem interpretada por Jace é uma mulher com mais de 40 anos, marcada por uma trajetória de sofrimento e vulnerabilidade. Ela se prostitui e entrega ao cafetão grande parte do dinheiro que consegue, vivendo situações de violência física e psicológica.

A construção da personagem também levou a atriz a realizar pesquisas e conversar com mulheres que vivenciaram situações de violência. Segundo Jace, esse contato tornou o processo de preparação ainda mais intenso.

Ela relata que, durante as conversas, percebeu como as lembranças da violência podem permanecer no corpo e provocar novamente sentimentos de dor mesmo anos depois dos acontecimentos.

Espetáculo dialoga com o Agosto Lilás

A apresentação acontece durante o Agosto Lilás, período dedicado à conscientização, prevenção e enfrentamento da violência contra a mulher.

A temática ganha destaque justamente pela forma como a montagem aproxima a ficção de situações que fazem parte da realidade de muitas mulheres. A violência é apresentada não apenas como agressão física, mas também por meio da violência psicológica, das relações de poder e da exploração.

Apesar da força do tema, a montagem também utiliza a música como elemento importante da narrativa. Ambientado na década de 1970, o espetáculo incorpora referências musicais do período, incluindo boleros e outras canções.

A proposta é unir a linguagem teatral e musical a uma discussão social, permitindo que o público acompanhe a história e, ao mesmo tempo, reflita sobre a violência contra a mulher.

Teatro como instrumento de reflexão

Para Jace Queiroz, o teatro possui uma função que vai além do entretenimento. Segundo ela, toda produção teatral pode provocar uma reflexão política, no sentido de estimular o público a pensar sobre a realidade apresentada no palco e sobre aquilo que pode ser transformado fora dele.

A atriz contou que a primeira temporada de “Ópera de Quarto”, realizada em junho, gerou relatos marcantes entre os espectadores.

Em uma das experiências, o grupo realizou uma leitura dramática do espetáculo para uma instituição que atende mulheres vítimas de violência. De acordo com Jace, algumas participantes se emocionaram profundamente durante a apresentação e relataram reconhecer nas músicas e situações apresentadas elementos de suas próprias histórias.

Para a atriz, experiências como essa demonstram a capacidade da arte de criar identificação e abrir espaços para que temas difíceis sejam discutidos.

Nesse sentido, o espetáculo pretende não apenas contar uma história, mas provocar o público a refletir sobre as relações abusivas e sobre a necessidade de combater a violência contra a mulher.

Palco Aberto valoriza novos artistas

Além dos espetáculos, o Feira Tem Teatro mantém o projeto Palco Aberto, iniciativa voltada para artistas da música de Feira de Santana.

A programação começa antes das apresentações teatrais e permite que novos talentos tenham contato com o público e utilizem o espaço do Teatro do CUCA para apresentar seus trabalhos.

Jace destacou que a proposta amplia a experiência cultural oferecida pelo projeto e reúne diferentes linguagens artísticas. Para ela, o próprio teatro é resultado do encontro entre várias formas de expressão, como música, dança e artes visuais.

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A iniciativa já recebeu artistas que estavam realizando suas primeiras apresentações. Um dos exemplos citados pela atriz foi a cantora Raquel Reis, que fez sua primeira apresentação no Feira Tem Teatro.

O Palco Aberto começa às 19h30, antes do espetáculo. O espaço também conta com opções de alimentação para o público que chega mais cedo.

Escolas públicas poderão participar da programação

Outra iniciativa mantida pelo projeto é a participação de escolas da rede pública.

A proposta é ampliar o acesso de estudantes às produções culturais e possibilitar que alunos que normalmente têm pouco contato com equipamentos e espetáculos teatrais possam conhecer e ocupar esses espaços.

A participação ocorre mediante agendamento prévio com a produção do Feira Tem Teatro. De acordo com Jace, existe uma programação e uma cota destinada às escolas públicas.

A iniciativa busca fortalecer a ideia de pertencimento à cultura local, permitindo que os estudantes não sejam apenas espectadores, mas também reconheçam o teatro e os equipamentos culturais da cidade como espaços que também lhes pertencem.

O que o público pode esperar de “Ópera de Quarto”

Ao falar sobre o que espera que os espectadores levem para casa depois da apresentação, Jace destacou a importância de vivenciar o espetáculo em cada momento.

A expectativa da equipe é que o público acompanhe a história, as músicas e os personagens e saia do teatro refletindo sobre a violência e sobre a necessidade de transformar relações marcadas por abuso e desigualdade.

A atriz reforçou ainda que a mensagem não é direcionada apenas às mulheres. Para ela, os homens também precisam sair da apresentação refletindo sobre o próprio comportamento e sobre a importância de combater todas as formas de violência contra a mulher.

A intenção é que a discussão ultrapasse os limites do palco e continue repercutindo entre os espectadores depois do fim da apresentação.

Serviço

Espetáculo: “Ópera de Quarto”
Projeto: Feira Tem Teatro
Datas: 14 e 15 de agosto, sexta-feira e sábado
Local: Teatro do CUCA, em Feira de Santana
Palco Aberto: a partir das 19h30
Espetáculo: 20h
Classificação indicativa: 16 anos
Ingressos: disponíveis pelo Sympla e também na bilheteria do Teatro do CUCA

Com apenas duas apresentações nesta temporada, a montagem convida o público a ocupar o teatro e participar de uma experiência que combina música, dramaturgia e reflexão social. Em meio ao Agosto Lilás, “Ópera de Quarto” utiliza a arte para colocar a violência contra a mulher no centro do debate e reforçar a necessidade de conscientização e transformação.

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