A educação pública enfrenta desafios que vão muito além da estrutura física das escolas. Para a gestora escolar Márcia Silveira, da Escola Municipal Adenil da Costa Falcão, em Feira de Santana, questões como a participação das famílias, as dificuldades de aprendizagem, a presença dos professores em sala de aula, a inclusão de estudantes com necessidades específicas e o uso equilibrado da tecnologia fazem parte da rotina de quem atua diariamente no ambiente escolar.
Com 23 anos de experiência na educação, Márcia afirma que sua relação com o ensino começou ainda na infância e que, ao longo das últimas duas décadas, acompanhou mudanças importantes nos desafios enfrentados pelas escolas.
Uma relação construída desde a infância
Apaixonada pela área da educação, Márcia conta que a escolha pela profissão começou ainda quando era criança.
“Pra mim é um prazer estar aqui falando com vocês dessa que é a minha paixão, a educação. Desde criança a educação me persegue ou me conquista, acho que os dois.”
Segundo ela, as brincadeiras de infância já indicavam o caminho que seguiria profissionalmente.
“Brincava de professora com meus irmãos e os coleguinhas da rua desde pequena. E dali já surgiu um talento inato, talvez.”
Para a gestora, a educação deixou de ser apenas uma profissão e passou a fazer parte de sua vida.
“Hoje, a educação pra mim é algo que é pertencente à minha vida. Ela faz parte do meu cotidiano, dos meus pensamentos, dos meus sonhos, dos meus objetivos também.”
Desafios da educação pública
Ao avaliar os principais obstáculos para garantir uma educação pública de qualidade, Márcia destaca que os desafios mudaram ao longo dos anos, embora algumas dificuldades permaneçam presentes.
“Eu tenho 23 anos já na educação, digamos que metade desse tempo na escola pública, e eu posso te dizer o seguinte: ao longo dessas duas décadas, os desafios vão se transformando.”
Entre os problemas que continuam fazendo parte da realidade escolar, ela cita as dificuldades de aprendizagem e, principalmente, a necessidade de aproximar as famílias do processo educacional.
“Alguns são repetitivos, desafios de dificuldade de aprendizagem, desafios de conquistar a família.”
Para a gestora, a participação dos pais e responsáveis precisa ser compreendida como parte fundamental da formação dos estudantes.
A participação da família no processo de aprendizagem
Márcia considera a aproximação entre família e escola um dos principais pontos para melhorar a educação.
“Eu creio hoje que na escola pública é uma fala que eu sempre pauto nas minhas reuniões de pais e mestres, nos atendimentos individuais que a gente faz com as famílias. Sobre a questão do pai, da mãe, da família.”
Na avaliação da gestora, é necessário que as famílias compreendam que a escola pública possui objetivos pedagógicos, conteúdos e metas de aprendizagem que precisam ser acompanhados.
“Famílias que compreendam que a escola pública é uma escola, como qualquer outra, que tem suas metas de aprendizagem, seus conteúdos a serem ministrados, e precisa que esse pai se comprometa com a educação desse filho.”
Ela também defende uma maior valorização do trabalho desenvolvido pelos profissionais da rede pública.
Professores e formação profissional
Márcia destaca a preparação dos professores que atuam na Rede Municipal de Feira de Santana e afirma que muitos profissionais possuem especializações, mestrado e ampla experiência em sala de aula.
“O professor da Rede Pública Municipal de Feira hoje é um professor preparado, é um professor que disputa um concurso concorridíssimo.”
Segundo a gestora, a presença de profissionais em sala de aula é uma das condições fundamentais para que as escolas possam avançar no processo de aprendizagem.
“Quando a gente diz sobre condições ideais de trabalho, a gente não tá falando só de um prédio, de livros, do aluno estar presente na escola. A gente fala do agente mais importante, que é o professor.”
Ela avalia que a convocação de novos professores pode contribuir para reduzir problemas relacionados à falta de profissionais nas unidades escolares.
“Nós estamos começando a zerar essa pendência. Então, se temos o professor, temos o aluno, nós começamos aí agora a sanar dificuldades.”
Dificuldades de aprendizagem
Outro tema abordado durante a entrevista foi o acompanhamento de estudantes que apresentam dificuldades de aprendizagem.
Márcia explica que uma mesma sala pode reunir crianças com diferentes níveis de desenvolvimento, mesmo quando elas pertencem à mesma série e possuem idades semelhantes.
“A gente costuma, em nossa sala de aula, ter uma heterogeneidade de alunos. Alunos, embora estejam naquela série, na mesma faixa etária, porém, pode acontecer de níveis de aprendizagem diferentes.”
De acordo com a gestora, diversos fatores podem interferir nesse processo, desde questões relacionadas ao desenvolvimento até aspectos emocionais, sociais e familiares.
“São vários fatores que podem fazer com que a sala tenha um desnivelamento de aprendizagem.”
Avaliação diagnóstica e acompanhamento individual
Diante das diferenças entre os estudantes, Márcia explica que o primeiro passo é identificar os níveis de aprendizagem existentes na turma.
“O primeiro papel é o professor fazer a diagnóstica da turma. A partir dos resultados dessa diagnóstica, ela percebe os diferentes níveis dentro da sala e, a partir daí, trabalhar em sala de aula.”
A partir desse diagnóstico, o professor pode adaptar as estratégias utilizadas para atender às necessidades dos alunos.
“O que o professor precisa fazer? Adaptar o seu trabalho aos diferentes níveis dentro da sala de aula.”
A frequência escolar também aparece, segundo ela, como um elemento essencial para que esse acompanhamento seja efetivo.
“Por isso a importância da frequência. O professor em sala de aula vai trabalhar o aluno a partir, principalmente, da sua dificuldade, não deixando de lado o conteúdo da série, a meta da série.”
Reforço e retomada dos conteúdos
A gestora também explica que existem diferentes estratégias para estudantes que apresentam dificuldades.
Entre elas estão o reforço, a retomada de conteúdos anteriores e a adaptação das atividades de acordo com o nível de aprendizagem apresentado pelo aluno.
“Reforço, que seria junto com a família, num contraturno, ou se a escola tiver um outro profissional de apoio pedagógico para fazer esse reforço com o aluno.”
Ela ressalta ainda que, em determinados casos, é necessário retomar conteúdos de anos anteriores para que o estudante consiga avançar.
“Nós fazemos essa retomada de conteúdo e caso a gente perceba que o aluno está com um desnivelamento de seriedade muito grande, a gente precisa fazer essa recondução.”
Para Márcia, o acompanhamento precisa impedir que dificuldades sejam acumuladas ao longo da trajetória escolar.
“O que não pode é a criança ficar naquele ciclo de ser aprovado de um ano para outro, de um ano para outro e as metas pedagógicas como leitura, como escrita, com o desenvolvimento de cálculos matemáticos básicos não serem alcançados.”
Tecnologia e o uso de telas
O uso de celulares e outras tecnologias por crianças e adolescentes também foi discutido durante a entrevista.
Márcia afirma que considera importante o controle do uso de aparelhos eletrônicos no ambiente escolar e destaca os efeitos que, segundo ela, podem ser observados quando existe uso excessivo das telas.
“Para nós aqui, enquanto educadores, que estamos no chão da escola, vendo a educação acontecer todos os dias, uma das melhores leis que foram criadas recentemente aqui no nosso país foi a questão da proibição de celulares nas escolas.”
Segundo a gestora, a redução do uso dos celulares pode contribuir para a interação social e a concentração dos estudantes.
“A gente percebe um ganho muito grande para os alunos na questão da interação social, na questão da concentração do aluno e da dependência do aparelho ali até para resolução e desenvolvimento de suas atividades.”
Tecnologia como ferramenta pedagógica
Apesar das críticas ao uso excessivo das telas, Márcia ressalta que a tecnologia também possui espaço dentro da escola, desde que utilizada com finalidade pedagógica e de maneira controlada.
“A tecnologia é a nossa aliada. Não, somos dependentes dela, no sentido pedagogicamente, o pedagógico não é dependente, mas é necessário.”
Na Escola Municipal Adenil da Costa Falcão, segundo a gestora, os estudantes têm acesso a recursos como Chromebooks e óculos de realidade virtual.
“Aqui na escola, nós temos acesso Chromebook, óculos 3D. As professoras utilizam, sim, para fins pedagógicos, com tempo limitado, no máximo a 40, 50 minutos.”
Ela explica que esses recursos não são utilizados diariamente pelas turmas.
“Os alunos não utilizam esses aparelhos todos os dias, geralmente é uma vez na semana.”
A escola também mantém outras estratégias de aprendizagem, como livros, materiais impressos e cartazes.
“Temos livros, temos materiais impressos, temos materiais a partir de cartazes, tantas outras formas dinâmicas também, não só a tecnologia.”
Inclusão no ambiente escolar
A inclusão de estudantes com deficiência e outras necessidades específicas também ocupa espaço importante na rotina da escola.
Márcia informa que a unidade possui cerca de 32 estudantes matriculados na modalidade de educação especial.
“Nossa escola hoje nós temos matriculados como AE, que é a modalidade de aluno da educação especial, cerca de 32 estudantes.”
Segundo ela, entre os estudantes estão pessoas com diferentes condições e necessidades educacionais.
“Entre autistas, TDAH, temos síndrome de Down, deficiência intelectual e outras.”
Para a gestora, o processo de inclusão precisa ser construído com planejamento, responsabilidade e acolhimento.
“O processo de inclusão escolar precisa ser feito com cuidado, com responsabilidade, principalmente com muita afetividade.”
Plano de atendimento individualizado
Márcia defende que os estudantes incluídos não sejam tratados de maneira uniforme, já que cada um apresenta necessidades específicas.
“Cada criança, com seu relatório médico, com seu relatório pedagógico, precisa de um plano de atendimento individualizado, porque cada um tem uma necessidade de aprendizagem, uma meta de aprendizagem diferente.”
Mesmo inserido em uma turma coletiva, o estudante pode receber estratégias específicas.
“Ele está numa turma coletiva, de 20, 25 alunos, mas ele tem um plano de atendimento individualizado.”
Esse planejamento pode envolver professores, profissionais de apoio pedagógico e cuidadores.
Adaptação das avaliações e atividades
A gestora também cita algumas adaptações realizadas para atender às necessidades dos estudantes.
“Aqui nós temos, como por exemplo, avaliações adaptadas com reduções de questões, aumento de fonte na letra quando necessário, avaliações adaptadas ou atividades onde a gente tem maior disponibilidade de imagens.”
Ela afirma ainda que a escola possui recursos voltados para estudantes surdos.
“Nós temos também avaliações com o alfabeto em Libras, porque nós temos alunos aqui de inclusão que são estudantes da modalidade de surdos e nós temos também os intérpretes de Libras.”
Segundo Márcia, a diversidade exige que a escola esteja preparada para diferentes níveis de necessidade.
“Você pode ter uma criança suporte 1, pode ter um suporte 3, pode ter uma criança que tem a DAO, então são necessidades muito diferentes.”
Convivência entre os estudantes
Além das adaptações pedagógicas, a gestora destaca a convivência entre os próprios alunos como parte importante do processo de inclusão.
“As crianças aceitam bem. Criança dá um show quando o nome é inclusão. Elas dão um show.”
Ela relata situações de acolhimento no cotidiano escolar.
“Elas acolhem, elas tratam como amiguinho, elas pegam na mão, levam pro lanche, brincam juntos.”
Para Márcia, essa convivência também ensina aos adultos sobre inclusão.
“Elas ensinam os adultos o que é tratar com igualdade, com carinho e ajudar aquele coleguinha mais do que especial.”
Cuidadores e profissionais de apoio
A presença de cuidadores também é apontada pela gestora como um avanço para o atendimento aos estudantes da educação especial.
“Temos cuidadores na nossa escola, hoje a gente não tem nenhuma criança de inclusão sem frequentar a escola.”
Márcia também menciona a contratação de profissionais para atuar na área.
“Os programas que vieram aí do ano passado pra cá são mais de 700 cuidadores contratados.”
Para ela, a ampliação desse quadro representa uma mudança importante para as escolas.
“Eu nunca vi um programa em que foi contratado tantos profissionais exclusivo para educação inclusiva. Isso foi maravilhoso para a gente que está na escola, para os alunos e que venha mais para que nós possamos fazer um trabalho melhor ainda com os nossos alunos de inclusão.”
Parcerias para atendimento especializado
A escola também mantém contato com instituições e serviços que auxiliam no atendimento aos estudantes.
Márcia cita o CAP, o Centro de Atendimento do Estado, que recebe alunos da rede pública.
“Nós temos uma parceria com o CAP, que é o Centro de Atendimento do Estado, que também faz o atendimento às nossas crianças de inclusão.”
Ela informa que cerca de 16 alunos da escola são atendidos pelo serviço.
“Nós temos cerca de 16 alunos que estão lá no CAP.”
A gestora também destaca a atuação da Intereduque e do CAPS infantil do município.
“Temos também a Intereduque, que é o centro de atendimento do município, que atende um vasto número de crianças.”
E acrescenta:
“Temos o CAPS, que também é do município, que atende com a parte médica e psicológica pra gente aqui.”
Demanda crescente por atendimento
Apesar dos avanços, Márcia reconhece que a demanda por serviços especializados aumentou e que isso também representa um desafio para a rede.
“A demanda hoje tem sido muito grande e às vezes esses órgãos e a escola não conseguem atender a demanda.”
Segundo ela, a dificuldade está relacionada ao crescimento da procura pelos serviços.
“Não é porque não queremos, é a demanda crescente e aí esses órgãos vão precisando ampliar suas ofertas de vaga também.”
Saúde dentro da escola
Outra iniciativa mencionada pela gestora é a integração entre escola e unidade de saúde do bairro.
Segundo Márcia, a escola receberia profissionais para atendimento aos estudantes e às famílias.
“Hoje à tarde na nossa escola nós teremos a presença do posto de saúde na escola, o posto de saúde vai vir com dentistas, vai vir com pessoal de vacinação e vai vir com o apoio de psicólogos.”
A iniciativa também contempla os familiares de estudantes da educação especial.
“Dois psicólogos vão atender exclusivamente aos pais de alunos de inclusão na escola para ouvi-los, orientá-los.”
Para a gestora, a participação da família precisa ser considerada dentro do processo de inclusão.
Acolhimento às famílias
Márcia chama atenção para a necessidade de olhar também para os pais e responsáveis pelas crianças que precisam de atendimento especializado.
“A criança atípica também tem ali ao lado dela uma mãe e um pai atípico. Então não é só a criança que precisa de atendimento, a família também precisa.”
Segundo ela, aproximar escola, família e serviços de saúde pode contribuir para identificar dificuldades e construir estratégias de atendimento.
“A iniciativa da escola municipal com o posto de saúde municipal do bairro vai ajudar também nesse processo de inclusão e de melhoria do nosso trabalho.”
Resultados e avaliação da aprendizagem
Ao falar sobre os resultados alcançados pela escola, Márcia cita o desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb.
Segundo a gestora, a escola alcançou nota 6,3.
“O da nossa escola aqui superou também, nós tiramos um 6.3, foi uma alegria imensa da comunidade.”
Ela conta que o resultado foi associado a mudanças adotadas pela unidade no trabalho pedagógico.
“Nós já esperávamos uma melhora no nosso IDEB, porque a gente vem mudando toda a nossa abordagem pedagógica na escola.”
Márcia afirma ainda que a escola vinha desenvolvendo ações com foco pedagógico nos últimos dois anos.
Programas e estratégias pedagógicas
Entre as iniciativas citadas pela gestora estão programas voltados ao fortalecimento da aprendizagem.
“Nós estamos com um período de dois anos, com foco no pedagógico, trabalhando com um programa municipal chamado Tempo de Aprender, Educar pra Valer.”
Ela relaciona o trabalho realizado pela equipe ao resultado alcançado pela escola.
“Iniciativas do poder público, com comprometimento dos funcionários aqui da escola e com a parceria das famílias, nos levou ao IDEB 6.3.”
A escola, segundo Márcia, já havia registrado anteriormente uma nota de 5,5.
“Já tínhamos um IDEB de 5.5, claro. Mas significa que a gente só fez melhorar.”
O que precisa mudar na educação
Ao ser questionada sobre o que mudaria na educação para melhorar ainda mais o ensino, Márcia afirma que não existe uma única medida capaz de resolver os desafios.
“Eu diria que é um combo, sabe, Fernanda? É um combo.”
Para ela, o primeiro elemento é a união entre família e escola.
“União entre família e escola é o passo mais importante para mudar a educação.”
O segundo ponto destacado é o comprometimento dos profissionais.
“Professores e funcionários da escola pública comprometidos com o seu trabalho.”
E o terceiro envolve a atuação do poder público.
“E contrapartida da iniciativa pública.”
Estrutura e condições de trabalho
Na avaliação da gestora, o trabalho educacional depende também de condições adequadas para que professores e funcionários possam desenvolver suas atividades.
“Viabilizar nos dando os mecanismos para trabalho. Os mecanismos são materiais em dias, a escola organizada, funcionários, livro, fardamento.”
Ela resume a ideia em três pilares: equipe escolar, família e poder público.
“Essas coisas estando presentes, compromisso dos funcionários, compromisso da família e o poder público presente e atuando, não tem outro resultado. A educação acontece.”
Perspectivas para a educação pública
Ao finalizar a entrevista, Márcia demonstrou otimismo em relação ao futuro da educação pública em Feira de Santana.
“Eu sou uma pessoa apaixonada pela educação e eu sou uma sonhadora, não. Eu sou uma idealizadora de que vai dar certo.”
Para ela, os avanços já observados podem ser ampliados nos próximos anos.
“Já estamos numa linha de melhora exponencial. Eu acredito que Feira de Santana, nos próximos anos, vai dar um salto ainda maior no que se refere à educação pública.”
A gestora reforçou ainda que acredita no potencial dos estudantes, independentemente da escola em que estejam matriculados.
“As crianças têm potencial de aprendizagem em qualquer espaço escolar. Vale só nós estarmos ali aliados a elas, com as ferramentas certas, que a educação só tende a melhorar.”
Ao encerrar, Márcia reforçou a importância da união entre os diferentes setores envolvidos na educação.
“Vamos fazer a Educação de Feira acontecer a cada dia nas duas redes, privada e pública.”