Excesso de telas, consumo e perda do brincar tradicional desafiam a infância na era digital, alerta psicóloga Rafaela Amorim

A presença cada vez mais intensa dos dispositivos eletrônicos na rotina das crianças tem provocado mudanças significativas na maneira de brincar, interagir, construir desejos e se relacionar com o mundo. Celulares, vídeos curtos, jogos digitais, cosméticos e produtos divulgados nas redes sociais passaram a fazer parte do universo infantil, levantando discussões sobre os limites da tecnologia, a influência do consumo e os possíveis impactos dessas transformações no desenvolvimento físico, emocional e social das novas gerações.

O assunto foi discutido no Dia a Dia News, em entrevista com a psicóloga Rafaela Amorim, que chamou a atenção para a necessidade de as famílias acompanharem de perto os hábitos digitais das crianças e preservarem experiências fundamentais para o desenvolvimento durante a infância. Para a especialista, o desafio não está em afastar completamente a tecnologia, mas em impedir que ela ocupe o espaço das brincadeiras, da convivência familiar, da imaginação e das descobertas que caracterizam essa fase da vida.

A infância atravessada pela cultura digital e pelo consumo

Ao abordar as mudanças no comportamento infantil, Rafaela Amorim destacou que a infância contemporânea está cada vez mais exposta à cultura digital e à valorização do consumo como forma de pertencimento social. Segundo a psicóloga, os produtos que aparecem nas redes sociais deixam de representar apenas objetos materiais e passam a ser associados à identidade, ao reconhecimento e à aceitação entre os grupos.

“Essa infância vem sendo atravessada cada vez mais pela cultura digital e também pelo consumo como forma de pertencimento”, explicou.

A especialista observou que celulares, cosméticos e outros produtos apresentados em vídeos e publicações podem despertar nas crianças o desejo de possuir aquilo que veem na internet. Essa influência pode acontecer mesmo antes de elas compreenderem por que querem determinado objeto ou qual é a sua real necessidade.

Rafaela chamou a atenção para o funcionamento dos algoritmos das plataformas digitais, que tendem a apresentar conteúdos semelhantes àqueles com os quais o usuário já teve contato. Dessa maneira, a criança pode ser exposta repetidamente aos mesmos produtos, tendências e padrões de comportamento, reforçando o desejo de consumo.

“Muito antes mesmo de saberem se querem determinado produto, elas já foram expostas a centenas de vídeos mostrando aquele produto, até porque o algoritmo faz muito isso. A gente precisa ter muito cuidado com isso”, alertou.

Nesse cenário, a psicóloga ressaltou que é importante permitir que a criança desenvolva os próprios desejos sem ser constantemente direcionada por estímulos comerciais. Mais do que consumir, ela precisa ter oportunidades de imaginar, experimentar, criar e descobrir o mundo a partir das próprias experiências.

“Ela precisa ter espaço para desejar, para imaginar e, principalmente, brincar, não apenas para consumir”, enfatizou.

O risco de perder espaço para o brincar tradicional

Outro ponto central da entrevista foi a influência do excesso de telas sobre as brincadeiras tradicionais. Embora os dispositivos eletrônicos possam fazer parte da rotina infantil, a psicóloga explicou que a preocupação aumenta quando o tempo dedicado aos conteúdos digitais reduz significativamente as oportunidades de brincar livremente.

Rafaela destacou que as brincadeiras tradicionais oferecem experiências fundamentais para o desenvolvimento infantil, pois estimulam os sentidos, o movimento corporal, a criatividade, a linguagem e a interação com outras pessoas.

Atividades aparentemente simples, como brincar com massinha, cozinhar de maneira lúdica, inventar histórias e explorar diferentes objetos, permitem que a criança conheça texturas, desenvolva a coordenação motora e aprenda a lidar com situações novas.

“É necessário explorar diversas formas do brincar, a partir principalmente dos sentidos. Seja a partir do tato, do olfato, do paladar, da visão, da própria audição”, explicou.

Rafaela Amorim | Foto: Arquivo Pessoal

A especialista ressaltou que essas experiências sensoriais não devem ser substituídas sistematicamente pelo consumo de vídeos e outros conteúdos digitais. Enquanto a tela apresenta imagens e informações prontas, o brincar livre convida a criança a participar ativamente da construção de suas experiências.

Nesse processo, ela precisa imaginar possibilidades, inventar regras, criar personagens, negociar com outras crianças e encontrar soluções para pequenos desafios. São situações que contribuem para o desenvolvimento da autonomia e da capacidade de lidar com diferentes circunstâncias.

“O problema não é simplesmente assistir ao vídeo. É quando a criança passa pouco tempo para brincar livre, aquele em que ela precisa inventar a própria brincadeira, negociar regras, lidar com o tédio e com a frustração”, afirmou.

A importância de aprender a esperar, perder e lidar com frustrações

A dificuldade de lidar com o tédio e com a frustração também foi apontada pela psicóloga como uma questão importante na formação infantil. Segundo Rafaela Amorim, existe uma tendência de os adultos tentarem evitar que as crianças enfrentem situações desagradáveis, oferecendo respostas imediatas aos seus pedidos ou utilizando dispositivos eletrônicos para distraí-las.

Entretanto, a especialista explicou que aprender a esperar, aceitar limites, perder e ganhar faz parte do desenvolvimento emocional. Essas experiências ajudam a criança a compreender que nem todos os desejos podem ser atendidos imediatamente e que situações frustrantes podem ser enfrentadas.

Quando brinca livremente, a criança também aprende a conviver com imprevistos. Uma brincadeira pode não acontecer como planejado, uma regra pode precisar ser negociada e uma atividade pode exigir várias tentativas antes de dar certo.

Essas situações contribuem para o desenvolvimento da tolerância à frustração e da capacidade de encontrar alternativas diante das dificuldades.

“Hoje, parece que a gente não quer que a criança se frustre. Então ela precisa aprender a esperar, precisa aprender a perder, a ganhar, criar as histórias”, observou.

Rafaela também ressaltou que a infância exerce influência sobre a maneira como o indivíduo se desenvolve ao longo da vida. As experiências vividas nessa fase ajudam a construir recursos emocionais, sociais e comportamentais que serão importantes na adolescência e na idade adulta.

Ao falar sobre essa relação, a psicóloga citou uma frase atribuída à escritora Lya Luft: “A infância é um chão que a gente pisa a vida inteira”.

A reflexão reforça a importância de garantir às crianças experiências que favoreçam não apenas a aprendizagem formal, mas também a criatividade, a convivência, a autonomia e a construção de vínculos afetivos.

Estímulos rápidos e a participação ativa da criança

Durante a entrevista, a psicóloga também chamou a atenção para as características dos vídeos curtos e dos conteúdos digitais que oferecem estímulos rápidos e sucessivos.

Segundo Rafaela, esse formato apresenta um ritmo diferente daquele encontrado nas brincadeiras tradicionais, que exigem mais tempo, repetição, imaginação e participação ativa.

Ao brincar, a criança não recebe necessariamente uma história pronta. Ela pode criar os personagens, decidir os rumos da narrativa, modificar as regras e imaginar diferentes desfechos. Esse envolvimento permite que ela participe da construção do próprio universo lúdico.

Nos conteúdos digitais, por outro lado, as imagens e as mudanças de cena podem acontecer de maneira muito rápida, mantendo a atenção da criança por meio de estímulos constantes.

A psicóloga ressaltou que a questão merece atenção especialmente quando o consumo desses conteúdos começa a substituir atividades essenciais ao desenvolvimento. O objetivo, portanto, não é tratar toda utilização de telas como prejudicial, mas observar se existe equilíbrio entre o ambiente digital e as experiências fora dele.

Irritabilidade, alterações no sono e dificuldade de concentração: sinais que merecem atenção

A identificação de mudanças no comportamento infantil é outro aspecto importante para as famílias. Durante a conversa, Rafaela Amorim apresentou sinais que podem indicar que o uso das telas está interferindo na rotina da criança e que precisam ser observados pelos pais e responsáveis.

Entre os comportamentos mencionados estão a irritabilidade, o aumento da agressividade, a dificuldade de permanecer sem o aparelho e a insistência excessiva para conseguir mais tempo diante da tela.

A psicóloga também recomendou atenção quando a criança perde o interesse por brincadeiras e atividades de que gostava anteriormente, passando a buscar constantemente o celular ou outros dispositivos eletrônicos.

“Ela tem uma dificuldade imensa de ficar sem o aparelho, insiste muito para os pais, para os responsáveis, para os cuidadores, para que ela tenha também acesso”, explicou.

As alterações no sono também merecem atenção. Dificuldades para adormecer, inquietação durante a noite e despertares frequentes podem indicar que a rotina da criança precisa ser avaliada, especialmente quando há utilização de dispositivos em horários inadequados.

Outro sinal citado pela especialista é a dificuldade de concentração, que pode vir acompanhada de queda no rendimento escolar. A redução da convivência social também deve ser observada, principalmente quando a criança passa a evitar momentos com familiares e amigos para permanecer isolada utilizando o aparelho.

Em crianças que já possuem celular próprio, outros comportamentos podem chamar a atenção, como esconder o tempo de uso, mentir sobre o acesso ao dispositivo ou negociar constantemente para conseguir mais minutos de conexão.

A psicóloga também destacou a importância de observar se a criança começa a abandonar atividades físicas e demonstra dificuldade para lidar com momentos sem entretenimento imediato.

Esses sinais, isoladamente, não significam necessariamente que exista dependência. Entretanto, quando aparecem de maneira persistente e interferem no sono, nos estudos, nas relações sociais e na rotina, justificam uma avaliação mais cuidadosa da situação.

Tempo de tela deve considerar a idade e a supervisão dos adultos

A duração do uso dos dispositivos eletrônicos foi outro tema discutido na entrevista. Ao abordar as recomendações por faixa etária, Rafaela Amorim ressaltou a importância de os responsáveis estabelecerem limites compatíveis com a fase de desenvolvimento da criança, considerando também o conteúdo acessado e a supervisão oferecida.

A psicóloga apresentou as seguintes referências durante a conversa:

  • Menores de 2 anos: evitar a exposição às telas, com exceção de videochamadas breves com familiares.
  • De 2 a 5 anos: limitar o uso a, no máximo, uma hora por dia, com supervisão de um adulto.
  • De 6 a 10 anos: estabelecer limites e priorizar conteúdos adequados à idade, com pausas e acompanhamento dos responsáveis.
  • A partir dos 11 anos: ampliar o acesso de maneira gradual e supervisionada, evitando o uso excessivo e a utilização de telas durante a madrugada.

Rafaela reforçou que o tempo de uso não deve ser avaliado de forma isolada. Também é necessário observar o que a criança faz no dispositivo, em quais horários utiliza as telas e quais atividades estão sendo deixadas de lado.

A psicóloga relatou que, durante atendimentos, já observou situações em que o próprio registro do celular apontava oito horas de utilização da internet em um único dia.

“Se você passar oito horas na internet e mais oito para dormir, o que é que sobra?”, questionou, chamando a atenção para o espaço que o uso prolongado pode ocupar na rotina.

É importante lembrar que as orientações específicas variam conforme a idade e as diretrizes adotadas. O uso para atividades escolares, por exemplo, não é equivalente ao consumo recreativo de vídeos e jogos. Por isso, a família deve considerar o tempo total de exposição, a qualidade do conteúdo e a preservação de atividades como sono, estudo, exercício físico e convivência social.

Tecnologia na rotina familiar: limites possíveis e participação dos responsáveis

A entrevista também abordou uma dificuldade comum entre os responsáveis: conciliar trabalho, tarefas domésticas e acompanhamento dos filhos em uma rotina cada vez mais acelerada.

Em algumas situações, o celular acaba sendo utilizado como uma forma rápida de entreter a criança enquanto os adultos trabalham ou resolvem outras demandas. A psicóloga reconheceu que essa alternativa pode parecer mais simples no momento, mas destacou a importância de evitar que o recurso se transforme na principal estratégia para ocupar o tempo infantil.

“É muito mais fácil a gente entregar um celular na mão, porque não vai ter trabalho, digamos assim. A gente vai zerar esse trabalho, mas é muito mais trabalhoso para a mãe e para o pai permitir que essa criança tenha esse uso exagerado”, afirmou.

Rafaela ressaltou que as crianças nasceram em uma sociedade profundamente conectada e que a tecnologia já faz parte do cotidiano. Por isso, a orientação não é ignorar essa realidade, mas ensinar a utilizar os recursos digitais de maneira responsável.

A supervisão dos adultos é fundamental para selecionar conteúdos apropriados, estabelecer horários e acompanhar a forma como as crianças interagem com os dispositivos.

A psicóloga também destacou a possibilidade de diálogo entre famílias e escolas para encontrar alternativas quando as atividades pedagógicas exigem o uso de computadores, celulares ou outros equipamentos.

O objetivo é estabelecer uma rotina equilibrada, na qual a tecnologia seja utilizada quando necessário, sem comprometer o tempo destinado ao descanso, às brincadeiras e às relações pessoais.

Quando a tela se transforma em uma fuga da realidade

Outro aspecto discutido foi a utilização de celulares e outros dispositivos como uma forma de escapar de dificuldades emocionais ou situações desagradáveis. Em alguns casos, crianças e adolescentes podem recorrer às telas para evitar conflitos, lidar com sentimentos difíceis ou encontrar uma sensação temporária de conforto.

Diante dessas situações, Rafaela Amorim destacou que a primeira atitude dos responsáveis deve ser buscar compreender o que está acontecendo, em vez de restringir o acesso ao aparelho sem investigar os motivos do comportamento.

A psicóloga defendeu uma relação baseada no diálogo, na escuta e no acolhimento. É importante que os adultos procurem compreender o contexto em que a criança está inserida, como estão as relações na escola, quem são seus amigos e se existe alguma dificuldade que possa estar contribuindo para a busca excessiva pelo ambiente digital.

“Eu acredito muito na comunicação. A comunicação dos pais com as crianças é fundamental nesse processo”, afirmou.

A especialista recomendou que os responsáveis conversem com os filhos de maneira aberta, procurando entender por que estão passando tanto tempo conectados e quais sentimentos podem estar associados a esse comportamento.

Em vez de iniciar a conversa com acusações ou punições, os adultos podem demonstrar interesse, estabelecer limites com clareza e ajudar a criança a encontrar outras formas de lidar com suas emoções.

Rafaela também ressaltou que a parceria entre família e escola é importante, pois permite acompanhar diferentes aspectos da rotina infantil e identificar mudanças que talvez não sejam percebidas em um único ambiente.

Quando as dificuldades persistem, provocam sofrimento ou comprometem o funcionamento cotidiano, buscar orientação de um profissional de saúde mental pode ajudar a compreender melhor a situação e definir as estratégias mais adequadas.

A presença dos pais pode ser mais importante do que o presente material

Ao final da entrevista, a psicóloga deixou uma mensagem direcionada aos pais, familiares e responsáveis, especialmente em um período marcado pela valorização dos presentes e do consumo infantil.

Para Rafaela Amorim, demonstrar afeto não depende necessariamente de comprar brinquedos, aparelhos eletrônicos ou outros produtos. A presença dos adultos, a atenção e a disponibilidade para compartilhar experiências também representam formas importantes de cuidado.

“Presente não precisa ser necessariamente um objeto. Pode ser uma experiência. É muito melhor para a criança a presença do que presente”, destacou.

A psicóloga lembrou que as memórias afetivas da infância são construídas também a partir de situações cotidianas: brincar no chão com os pais, ouvir histórias, conversar, compartilhar descobertas e receber atenção.

Esses momentos contribuem para fortalecer os vínculos familiares e demonstrar à criança que ela é valorizada para além dos objetos que possui ou dos produtos que deseja consumir.

A especialista reforçou que o debate sobre o uso das telas não deve ser interpretado como uma defesa da exclusão completa da tecnologia. O ponto central é preservar o equilíbrio e garantir que os dispositivos não ocupem o lugar das experiências essenciais ao desenvolvimento infantil.

“A grande questão não é tirar a tecnologia da infância, mas impedir que ela ocupe o lugar principal nessa infância”, concluiu.

A mensagem deixada por Rafaela Amorim reforça a necessidade de um olhar atento sobre as transformações da infância na era digital. Em meio à facilidade de acesso aos conteúdos on-line e à influência das redes sociais sobre os hábitos de consumo, o desafio das famílias é estabelecer limites, acompanhar o comportamento dos filhos e oferecer oportunidades para que eles descubram o mundo além das telas.

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