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Dilson Barbosa relembra Itajay Pedra Branca: amizade, pioneirismo e façanhas que marcaram o rádio brasileiro

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Mayara Nailanne

A comoção pela partida de Itajay Pedra Branca também ecoou na voz de quem dividiu com ele microfones, estradas, aeroportos e alguns dos momentos mais ousados da história do rádio esportivo brasileiro. Em depoimento emocionado, o radialista Dilson Barbosa, um dos grandes nomes do rádio baiano, compartilhou lembranças que ajudam a dimensionar a grandeza profissional e humana de Itajay.

Segundo Dilson, Itajay começou muito cedo no rádio, ainda adolescente, aos 14 ou 15 anos, como apresentador de programa de auditório na Rádio Cultura. “Ele começou menino, já falando no microfone. Eu acompanhei isso de perto. Ouvi Itajay ainda no início da carreira, depois nos tornamos colegas e amigos”, relembrou.

Dilson destacou o papel pioneiro de Itajay Pedra Branca nas transmissões internacionais da Rádio Sociedade de Feira de Santana. Foi ele quem realizou a primeira transmissão internacional da emissora na Europa, em uma época em que tudo dependia de satélite, linhas da Embratel e muita coragem.

“Itajay desbravou as transmissões internacionais. Naquele tempo não existia facilidade nenhuma. Era tudo difícil, tudo caro, tudo arriscado”, afirmou.

Juntos, Dilson e Itajay participaram de quatro Copas do Mundo — Espanha (1982), México (1986), Itália (1990) e Estados Unidos (1994) — além da Olimpíada de Barcelona, em 1992, e dezenas de coberturas da Seleção Brasileira ao redor do mundo.

“Itajay era aquela voz conhecida na Bahia e no Brasil inteiro. Onde a gente chegava, as pessoas perguntavam: ‘E Itajay Pedra Branca, como vai? Onde ele está?’”, contou.

Entre tantas histórias, Dilson Barbosa destacou aquela que considera a maior façanha profissional de Itajay Pedra Branca: a transmissão da final da Copa Libertadores da América, quando o Flamengo enfrentou o Cobreloa, em Montevidéu, após uma mudança inesperada de sede do jogo.

Com a equipe preparada para Santiago do Chile, a alteração do local, feita em cima da hora, inviabilizou passagens, hospedagem, dinheiro e até linha de transmissão. A ordem era clara: Itajay deveria voltar. Mas ele não voltou.

Com a ajuda do jornalista João Saldanha, Itajay conseguiu embarcar em um voo da Varig sem passagem, viajando sentado na cadeira da comissária de bordo, entre Santiago e Montevidéu. Chegou ao Uruguai com apenas 100 dólares emprestados e sem qualquer garantia técnica de transmissão.

No estádio Centenário, improvisou mais uma vez: convenceu técnicos da televisão uruguaia a cederem uma linha de áudio. Sem retorno, no chamado “voo cego”, combinou com a equipe no Brasil:

“Quando o Flamengo entrar em campo, eu conto até dez e vocês abrem o sinal.”

E assim foi feito. Itajay transmitiu o jogo inteiro sem retorno, narrando no escuro, apenas confiando na própria experiência e no tempo do futebol. O Flamengo venceu o Cobreloa e foi campeão da Libertadores.

“Essa, pra mim, foi a maior façanha de Itajay Pedra Branca”, afirmou Dilson, com a voz embargada.

Além do profissional ousado, Dilson destacou o lado humano de Itajay: irreverente, dono de uma voz marcante, presença que se anunciava antes mesmo de entrar na redação.

“Quando ele chegava, todo mundo percebia. Mas, acima de tudo, era um profissional respeitado, competente, correto. Nunca falhou. Você marcava com ele hora e dia, ele sempre chegava antes”, disse.

Apaixonado pelo rádio, “doente por rádio”, como definiu Dilson, Itajay teve sua trajetória profundamente ligada à Rádio Sociedade, emissora onde construiu a maior parte de sua história e se consolidou como um dos maiores radialistas da Bahia e do esporte brasileiro.

Dilson Barbosa também fez questão de destacar que o rádio corre nas veias da família Pedra Branca. O pai de Itajay, Ângelo Pedra Branca, foi radialista e diretor da antiga Rádio Cultura. O irmão, Itaracir Pedra Branca, também atuou na comunicação e na vida pública. E os filhos seguem o legado: Andrews Pedra Branca, jornalista e professor universitário, e Itajay Júnior, radialista da Rádio Andaiá.

“É uma família inteira ligada ao rádio, de pai para filho”, ressaltou.

Ao final, Dilson Barbosa deixou sua mensagem à família, aos colegas e aos ouvintes que aprenderam a admirar Itajay Pedra Branca ao longo de décadas.

“Vamos sentir muita saudade. O rádio da Bahia perde muito. Nós, amigos, perdemos um irmão. Que Deus conforte o coração de todos.”

Itajay Pedra Branca se despede, mas deixa viva uma história construída com coragem, improviso, ética e amor pelo rádio — daqueles que não se aprendem em manuais, apenas se vivem.

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