O envelhecimento da população tem provocado novos debates sobre saúde, qualidade de vida e preparação da sociedade para atender uma parcela cada vez maior de pessoas idosas. Mais do que viver mais anos, o desafio é garantir que essa fase seja acompanhada de autonomia, independência e bem-estar.
Em entrevista ao Dia a Dia News, a geriatra Janaína Almeida falou sobre os principais desafios do envelhecimento, explicou quais cuidados devem começar ainda na juventude, destacou as doenças mais frequentes entre os idosos, alertou para sinais que precisam de investigação médica e reforçou a importância de políticas públicas para preparar Feira de Santana para essa realidade.
Classificação da pessoa idosa varia entre países
Logo no início da conversa, a geriatra explicou que a definição de pessoa idosa leva em consideração diferentes fatores e não apenas a idade cronológica.
Segundo Janaína Almeida, em países em desenvolvimento, como o Brasil, são consideradas idosas as pessoas a partir dos 60 anos. Já nos países desenvolvidos, essa classificação geralmente começa aos 65 anos.
“Essa diferença está relacionada porque o processo de envelhecimento também depende da questão ambiental. O envelhecimento não é uniforme para todos dentro de um mesmo local e muito menos entre países diferentes. Um país desenvolvido, teoricamente, oferece uma qualidade de vida maior para os idosos, com um ambiente mais favorável para o envelhecimento”, explicou.
Para a médica, as condições sociais, econômicas e ambientais influenciam diretamente na forma como uma pessoa chega à velhice.
Envelhecimento começa desde o nascimento
Apesar de muitas pessoas associarem o envelhecimento apenas à terceira idade, Janaína Almeida destacou que esse é um processo natural que acompanha o ser humano durante toda a vida.
“Basta nascer para você já estar envelhecendo. Mas algumas mudanças começam a aparecer ao longo dos anos. A partir dos 30 anos já começamos a ter uma perda de cálcio. Aos 40 anos já percebemos algumas alterações, como redução da acuidade visual”, afirmou.
Segundo ela, a preparação para um envelhecimento saudável não deve começar apenas quando a pessoa chega aos 60 anos.
“Os nossos hábitos de vida de hoje serão os nossos reflexos no futuro. Dormir bem, praticar atividade física, alimentar-se bem, exercitar a memória e manter um convívio social positivo são atitudes que fazem diferença”, destacou.
Doenças mais frequentes entre idosos
Ao falar sobre as principais doenças que atingem a população idosa, a geriatra afirmou que os problemas cardiovasculares continuam sendo os mais predominantes.
“Doenças cardiovasculares ainda são muito frequentes. Hipertensão, diabetes, AVC e infarto aparecem bastante nessa população”, explicou.
Além dessas condições, ela citou outros problemas que exigem acompanhamento.
“Também temos um aumento da incidência de artrose, osteoporose e das demências, que são muito temidas pelos idosos e pelas famílias. Além disso, existe a questão das quedas, que precisam ser avaliadas com bastante atenção”, afirmou.
Segundo Janaína, a geriatria trabalha com uma visão integral do paciente.
“A gente avalia o idoso como um todo, entendendo quais são as necessidades dele. Hoje não queremos apenas viver mais, queremos viver mais com qualidade de vida”, disse.
Prevenção é fundamental para um envelhecimento saudável
A especialista ressaltou que o acompanhamento médico deve ter como principal objetivo prevenir complicações.
“O ideal é trabalhar com a prevenção. O acompanhamento geriátrico ajuda a identificar riscos e acompanhar o paciente antes que apareçam problemas mais graves”, afirmou.
Ela explicou que as doenças nos idosos podem se apresentar de maneira diferente quando comparadas a outras fases da vida.
“As doenças no idoso nem sempre apresentam sintomas muito evidentes. Às vezes, uma mudança de comportamento já pode ser um sinal de que algo precisa ser investigado”, explicou.
Quedas podem ser sinais de outros problemas
Durante a entrevista, Janaína Almeida chamou atenção para a importância de não tratar as quedas como algo normal da idade.
“Uma queda às vezes é a ponta do iceberg. Ela pode significar muitas coisas que precisam ser investigadas, como sarcopenia, fragilidade ou outros problemas de saúde”, afirmou.
Segundo ela, alterações no comportamento também merecem atenção.
“Um paciente que de repente fica mais isolado precisa ser avaliado. É necessário investigar se existe depressão, alterações cognitivas ou alguma outra condição que esteja afetando sua qualidade de vida”, explicou.
Memória e envelhecimento: quando é preciso procurar ajuda
A perda de memória é uma das principais preocupações entre idosos e familiares. A geriatra explicou que nem todo esquecimento representa uma doença.
“No processo de envelhecimento existem alterações na cognição. Há uma redução na velocidade do processamento das informações. A pessoa percebe que antes conseguia fazer várias coisas ao mesmo tempo e agora tem mais dificuldade”, disse.
Segundo ela, o principal ponto de atenção é quando o esquecimento interfere na funcionalidade.
“O que precisa preocupar é o declínio funcional. É aquele paciente que tinha uma vida ativa, dirigia, pagava suas contas, fazia compras e, de repente, não consegue mais realizar essas atividades”, explicou.
Ela destacou exemplos que devem ser investigados.
“Se a pessoa sai de casa e não lembra o caminho de volta, deixa de conseguir administrar sua rotina ou perde habilidades que tinha antes, isso merece uma avaliação médica”, afirmou.
Por outro lado, esquecimentos pontuais podem fazer parte do processo natural.
“Aquele esquecimento em que a pessoa guarda uma coisa, depois não lembra e mais tarde consegue lembrar, sem atrapalhar a vida diária, pode acontecer no envelhecimento normal”, explicou.
Autonomia e independência precisam ser preservadas
Outro ponto abordado pela geriatra foi a importância de diferenciar autonomia e independência.
“Independência é quando o paciente consegue realizar atividades como caminhar sozinho, tomar banho, vestir uma roupa. Autonomia é conseguir decidir sobre a própria vida, fazer escolhas e participar das decisões”, explicou.
Segundo Janaína, preservar esses dois aspectos deve ser um objetivo de familiares e profissionais de saúde.
“Muitas vezes as pessoas próximas querem fazer tudo pelo idoso para facilitar, mas isso pode acabar tirando dele a capacidade de realizar atividades que ainda consegue fazer”, alertou.
Ela destacou que é necessário respeitar os limites de cada pessoa.
“Às vezes o idoso caminha mais devagar, não escuta tão bem e precisa que a informação seja repetida. É preciso ter paciência. Não devemos fazer tudo no lugar dele, porque isso pode prejudicar sua independência”, afirmou.
Família tem papel importante no envelhecimento
Para a médica, o ambiente onde o idoso está inserido influencia diretamente sua qualidade de vida.
“A família e as pessoas ao redor têm um papel muito importante. É preciso incentivar, acolher e permitir que o idoso continue participando das atividades da vida”, disse.
Segundo ela, manter o idoso ativo contribui para uma velhice mais saudável.
“Todos nós queremos envelhecer mantendo nossa independência e nossa autonomia”, afirmou.
Etarismo ainda é um desafio na sociedade
A geriatra também comentou sobre o preconceito relacionado à idade, conhecido como etarismo.
“Eu ainda vejo preconceito. Hoje um paciente de 60 anos pode ser uma pessoa muito bem, independente, ativa, saudável e com muita coisa para entregar à sociedade”, destacou.
Segundo ela, a visão sobre o envelhecimento precisa mudar.
“Ainda precisamos avançar muito. O idoso tem muita experiência, muito conhecimento e muitas coisas valiosas para oferecer. Isso precisa ser reconhecido e valorizado”, afirmou.
Ela também destacou que essa questão impacta a saúde emocional dos idosos.
“O sentimento de não ser valorizado pode afetar a autoestima, a participação social e a qualidade de vida dessa pessoa”, explicou.
Desafios para Feira de Santana
Ao falar sobre a realidade de Feira de Santana, Janaína Almeida afirmou que o município precisa se preparar para o crescimento da população idosa.
Entre as prioridades, ela destacou melhorias na acessibilidade.
“Precisamos investir em ruas, rampas e calçadas adequadas. A acessibilidade é fundamental para que o idoso consiga circular com segurança”, disse.
Ela também citou a necessidade de avanços no transporte público.
“Precisamos melhorar o transporte e também trabalhar a conscientização da população. Muitas vezes vemos idosos em pé dentro de ônibus, tendo que pedir para que seu direito seja respeitado”, afirmou.
Saúde pública e atendimento especializado
Na área da saúde, a geriatra destacou a necessidade de ampliar serviços específicos para essa população.
“Hoje Feira de Santana não tem um centro geriátrico pelo Sistema Único de Saúde. Existem ambulatórios de geriatria em algumas policlínicas, mas ainda falta um serviço voltado para o idoso de forma multidisciplinar”, explicou.
Segundo ela, o atendimento ao idoso precisa envolver diferentes áreas.
“O idoso precisa ser avaliado além da doença. Precisamos olhar sua funcionalidade, sua saúde mental, sua rotina e sua qualidade de vida”, afirmou.
Mercado de trabalho e valorização da experiência
Janaína também defendeu mais oportunidades para pessoas idosas que desejam continuar trabalhando.
“O idoso ainda tem muito a acrescentar no mercado de trabalho. A experiência e o conhecimento acumulados ao longo da vida são muito importantes”, afirmou.
Para ela, a sociedade precisa enxergar o envelhecimento não como uma limitação, mas como uma fase de novas possibilidades.
Atividade física pode melhorar a qualidade de vida após os 60
Ao falar sobre cuidados para quem já chegou à terceira idade, a médica reforçou que nunca é tarde para adotar novos hábitos.
“Se você não pratica atividade física, pratique. Muitos estudos mostram que o idoso que começa a fazer atividade física melhora sua funcionalidade, sua independência e sua expectativa de vida”, afirmou.
Segundo ela, pequenas mudanças podem trazer grandes benefícios.
Mensagem final: envelhecer é continuar vivendo
Ao encerrar a entrevista, Janaína Almeida deixou uma mensagem para jovens e idosos.
“Para quem é jovem, envelheça com consciência. Cuide da sua saúde hoje, porque isso será refletido no futuro”, orientou.
Para quem já tem 60 anos ou mais, a geriatra reforçou que essa fase deve ser vivida com novos objetivos.
“Entenda que sua vida não está acabando. Sua vida está continuando. Você pode aprender muitas coisas, iniciar atividades novas e continuar vivendo com qualidade. Envelhecer é um processo natural e precisamos buscar que ele aconteça da melhor forma possível”, concluiu.