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Especialista alerta para os impactos do diagnóstico tardio de TEA e TDAH

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Nos últimos anos, tem crescido o número de adolescentes e adultos que recebem o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) apenas mais tarde na vida.

O diagnóstico tardio pode trazer sentimentos diversos. Para algumas pessoas, representa alívio e compreensão sobre experiências vividas ao longo dos anos. Para outras, pode gerar questionamentos sobre oportunidades perdidas e dificuldades enfrentadas sem o suporte adequado.

A psicóloga Jéssica Andrade, especialista em terapia analítico-comportamental, neurociência e psicologia, fala sobre o diagnóstico tardio do TEA e do TDAH.

Psicóloga Jéssica Andrade. Foto: Divulgação

“Essas pessoas podem passar um tempo sendo invisibilizadas. Primeiro, por uma leitura familiar de que ‘ah, se comporta assim porque o pai também era assim’. Também porque essa pessoa tinha uma inteligência, tinha algo que fez com que ela conseguisse esconder aquilo. Ou, de repente, uma família que auxiliava mais nas demandas e fazia com que os déficits não fossem tão proeminentes. Ou também por falta de conhecimento.”

Ela continua:

“Não se falava em TDAH, não se falava em autismo. Para uma pessoa ser levada a um psiquiatra ou a um neurologista, tinha que ser algo corporal ou algo muito absurdo. Não se levava ninguém por déficits executivos, porque a pessoa esquece, porque a pessoa não planeja. E o que a gente vê é que esses pacientes chegam à clínica mais através das comorbidades, porque desenvolveram uma depressão, porque desenvolveram um transtorno de ansiedade generalizada, do que propriamente pelo transtorno do neurodesenvolvimento, que é o caso do TDAH e do TEA.”

A psicóloga conclui:

“Então, o fato de não ter tido o diagnóstico e o suporte adequado fez com que essa pessoa tivesse uma visão errada de si mesma e da vida, tivesse que lidar com essas questões, muitas vezes sozinha, muitas vezes sem apoio. E aí vêm as comorbidades, e geralmente eles chegam ao consultório assim. Muitos pacientes hoje, por conta desse boom de conhecimento, de vídeos, estão se informando. Eles chegam com a dúvida: ‘Ah, eu quero fazer avaliação porque quero saber se tenho TDAH’; ‘Ah, eu acho que posso ser autista’. Mas também muitos vêm por conta da avaliação dos filhos. Começam a observar os filhos, percebem que aquilo é uma dificuldade, lembram que na infância eles tinham isso, passaram por algo parecido, ou um irmão passou por algo semelhante. E aí acabam despertando a curiosidade para fazer a avaliação e verificar se, de fato, isso é coerente.”

Em relação a como é feito o diagnóstico tanto do TDAH quanto do TEA, ela disse:

“O diagnóstico pode ser feito pelo médico psiquiatra, pelo médico neurologista e também pelo psicólogo ou neuropsicólogo. Eu sempre falo para os pacientes procurarem alguém que seja especialista na área. Porque, como na ciência a gente não tem consenso em todas as coisas, vamos encontrar profissionais com vieses, profissionais baseados em teorias que, muitas vezes, negam a existência desses transtornos. Então, é preciso ficar atento e procurar um profissional qualificado para fazer essa avaliação. Um profissional de confiança. Eu acredito que a avaliação neuropsicológica é muito importante e que todo mundo deveria fazer pelo menos uma vez na vida.”

A especialista explica sobre o TDAH:

“O TDAH é um déficit nas funções executivas, que são aquelas funções mais especializadas do nosso cérebro, responsáveis pelo planejamento e pelo controle inibitório. Como eu falei, algumas coisas da nossa vida e da nossa rotina acabam mimetizando isso. Existem também outros transtornos de saúde mental que apresentam déficits em funções executivas. Já o TEA tem mais a ver com a teoria da mente, com o paciente conseguir entender expressões faciais. Tem a ver com a comunicação. Então, a gente percebe, como adulto, aquela comunicação mais enrijecida.”

Jéssica cita exemplos das diferenças entre o TEA e o TDAH:

“Por exemplo, só vestir a mesma cor de roupa, só tomar café no mesmo copo, ter dificuldade em comunicar o que sente e dificuldade de ler o ambiente. Tem os hiperfocos também, que são diferentes no TDAH e no TEA. O hiperfoco do TDAH tem mais a ver com aquela motivação de fogo de palha, sabe? Que vem de repente. A pessoa viu algo sobre adestramento de cachorro, passou a noite inteira sem dormir pesquisando, assistindo vídeos e conversando sobre isso. Mas é um interesse fugaz. No TEA, não. Geralmente, os hiperfocos têm ciclos maiores e muitos se estendem por longos períodos da vida.”

A psicóloga finaliza:

“Então, a pessoa que chegou à adultez com TEA muitas vezes é vista como uma pessoa difícil, muito rígida, muito cabeça-dura, que briga por besteira. Mas a verdade é que, se outra pessoa tocar em algo dela e ela souber que aquilo foi usado, ela pode se desregular e ter dificuldade de gerenciar as emoções diante daquilo. Então, é diferente de eu dizer: ‘Olha, eu gosto de comer estrogonofe de frango. Toda vez que vou naquele restaurante, peço porque o de lá é muito bom. Mas, se eu chegar lá e tiver apenas estrogonofe de carne, eu como. Não vou ficar tão feliz quanto ficaria com o outro, mas sigo minha vida normalmente.’ No TEA, pode haver uma desregulação intensa. Na criança, a gente vê aquele menino que se joga no chão, faz birra, passa uma hora, uma hora e meia, duas horas chorando, e os pais ficam desesperados, cansados. Mas, na adultez, isso já foi suprimido. Então, você vê a pessoa desistindo das coisas, se isolando.”

Sobre as pessoas que recebem esse diagnóstico tardiamente, e sobre a possibilidade de tratamento e qualidade de vida, ela relatou:

“Nunca é tarde para a gente se conhecer. Uma avaliação bem-feita vai ajudar essa pessoa a entender de onde vêm esses comportamentos. Entender que, muitas vezes, ela não é aquilo que imaginava ser. O paciente fala: ‘Eu marquei um horário com uma pessoa, ela chegou atrasada e eu fiquei tão chateada que briguei com a minha namorada e perdi o relacionamento.’ No caso do TEA, por exemplo, a pessoa passa a entender que, embora tenha combinado um horário, o outro não tem obrigação de chegar exatamente naquele minuto. Quem se desregula é ela, e isso é uma questão dela. Mas também não é culpa dela, não é porque ela é chata ou insuportável. Existe algo nela que faz com que não consiga gerenciar as emoções diante da quebra de expectativa. E a namorada também vai entender isso. Então, os dois podem encontrar um meio-termo. Em vez de marcar um horário exato, podem combinar uma faixa de horário: ‘Vou chegar entre 13h30 e 14h30’.”

Com informações, escrita e foto:Fernanda Martins/Roberto Dziura Jr/AEN-PR

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