Há poucos anos, a promessa era uma cápsula. Depois vieram os hormônios manipulados e os chamados chips da beleza. Agora, um novo protagonista ocupa vídeos, anúncios e clínicas: os peptídeos. Apresentados como ferramentas capazes de acelerar a recuperação muscular, estimular a queima de gordura, melhorar o metabolismo e até retardar o envelhecimento, esses produtos que podem ser injetáveis, em creme ou pílulas, passaram a circular entre influenciadores, atletas amadores e pessoas em busca de uma versão mais saudável – ou mais jovem – de si mesmas.
O entusiasmo, porém, contrasta com um alerta repetido por especialistas: para muitos desses compostos, as promessas cresceram mais rápido do que as evidências científicas. Embora tenham ganhado fama recentemente, os peptídeos não são novidade. A endocrinologista Andreza Berlink, integrante da Comissão de Diversidade, Equidade e Inclusão da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e da equipe de profissionais do Hospital Mater Dei Salvador, explica que eles são pequenas cadeias de aminoácidos que atuam como mensageiros biológicos em diversas funções do organismo.
Alguns funcionam como hormônios, outros participam da comunicação entre células e muitos já são utilizados pela medicina há décadas, acrescenta Andreza. A farmacêutica Aline Nunes de Araújo Pereira, coordenadora de suprimentos da Rede Mater Dei, complementa que essas moléculas são os blocos que formam proteínas maiores, o que ajuda a explicar a enorme diversidade de funções associadas a elas.
Nem tudo é novidade
Alguns dos peptídeos mais conhecidos estão presentes em medicamentos amplamente estudados e utilizados. É o caso da insulina, fundamental para o tratamento do diabetes. Também fazem parte desse grupo a semaglutida, a liraglutida e a tirzepatida, substâncias presentes nas chamadas canetas emagrecedoras. Elas atuam imitando hormônios produzidos naturalmente pelo intestino, ajudando a controlar a glicose, aumentar a sensação de saciedade e reduzir o apetite, efeitos que contribuem para a perda de peso em pacientes com indicação médica. Todos esses medicamentos passaram por um longo processo de pesquisa antes de chegarem aos pacientes, diz Andreza Berlink.
Nos últimos anos, no entanto, uma série de compostos começou a ganhar espaço nas redes sociais e no mercado da longevidade. Nomes estranhos como BPC-157, TB-500, CJC-1295, Ipamorelina, Sermorelina, AOD-9604, Epitalon, MOTS-c e GHK-Cu passaram a ser associados a promessas que vão da recuperação acelerada de lesões ao ganho muscular, passando pela melhora metabólica e pelo combate ao envelhecimento. Para Andreza Berlink, o problema é que muitos desses compostos ainda possuem evidências limitadas e necessitam de estudos mais robustos para que sua eficácia e segurança sejam comprovadas.
Cremeb de olho
A preocupação também alcança órgãos de fiscalização da atividade médica. A 1ª vice-corregedora do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb), Marília Niedermayer Fagundes, afirma que já existe atenção quanto à oferta e divulgação de terapias que ainda não contam com evidências científicas robustas sobre eficácia e segurança. Segundo ela, a medicina baseada em evidências é um dos pilares do exercício profissional, e promessas terapêuticas sem respaldo científico podem criar expectativas inadequadas e expor pacientes a riscos desnecessários.
Fantasma dos chips hormonais
A endocrinologista Andreza Berlink vê semelhanças entre a atual febre dos peptídeos e o fenômeno dos chamados chips hormonais. Em ambos os casos, tratamentos passaram a ser associados a promessas de rejuvenescimento, bem-estar, melhora da performance e transformação corporal antes da existência de evidências robustas para sustentar essas indicações.
A comparação não significa que as substâncias sejam iguais, mas revela uma dinâmica parecida: o marketing cria expectativas muito superiores ao conhecimento científico disponível. Em alguns casos, compostos ainda em estudo acabam sendo apresentados ao público como soluções já consolidadas.
Por trás das promessas
O cardiologista esportivo Luiz Ritt, presidente da Regional Bahia da Sociedade Brasileira de Cardiologia e professor da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, aponta que as substâncias da moda podem possuir efeitos colaterais imprevisíveis, especialmente em pessoas com hipertensão, arritmias, insuficiência cardíaca ou outras doenças cardiovasculares.
Ele também alerta para a compra desses produtos pela internet. Sem fiscalização adequada, não existe garantia sobre procedência, qualidade ou mesmo sobre a composição do produto adquirido. A farmacêutica Aline Nunes acrescenta que substâncias produzidas fora dos canais regulados podem apresentar contaminação, adulteração, dosagens incorretas e provocar desde reações alérgicas graves até danos permanentes à saúde.
O alerta também é feito pela Anvisa. Em resposta à reportagem, a agência informou que compostos como GHK-Cu, BPC-157, TB-500, CJC-1295 e Ipamorelina não possuem registro no Brasil. Sem aprovação sanitária, não existem garantias sobre segurança, eficácia ou qualidade. A agência destaca ainda que produtos terapêuticos comercializados sem regularização podem ter origem clandestina.
Muita calma nessa hora
Os especialistas são unânimes em reconhecer que os peptídeos representam uma área promissora da ciência. Afinal, foi justamente a partir deles que surgiram medicamentos importantes para o tratamento de doenças como diabetes e obesidade.
O problema, segundo eles, surge quando resultados preliminares de pesquisa são transformados em campanhas de marketing e vendidos como certezas. A distância entre uma descoberta promissora e um tratamento comprovado costuma ser muito maior do que os vídeos das redes sociais fazem parecer.
